18 Abril 2026
A partir de hoje o Brasil de Fato estará publicando este artigo em partes.
Parte 1 – introdução e antecedentes
Parte 2 – protagonismo indígena, Nheçu – resistência a dominação espanhola
Parte 3 – protagonismo indígena, Nenguiru e Abiarú – derrotando bandeirantes escravistas
Parte 4 – protagonismo indígena, Sepé Tiaraju – tierra o muerte
Parte 5 – protagonismo indígena, Andresito Guasúrari e a liga de los pueblos libres, considerações finais e fontes e referências bibliográficas
O artigo é de Nandi Barrios[1], publicado por Brasil de Fato, 16-04-2026.
Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades quilombolas e indígenas.
Eis o artigo.
Introdução
No outono de 1626 padres jesuítas, a serviço da Coroa espanhola, atravessaram o Rio Uruguai no rumo leste e juntamente com indígenas guaranis[2] organizaram a primeira Missão em terras do atual Rio Grande do Sul (RS), denominada San Nicolás (São Nicolau). Evidente que os quatrocentos anos deste evento devem ser lembrados, no entanto, como ocorre no campo da história, versões sobre a experiência missioneira estão em disputa, envolvendo diferentes concepções de classes socioeconômicas e cosmovisões.
Objetivando organizar a celebração do quadricentenário das Missões, o Governo Leite, representante das elites econômicas do RS, publicou em dezembro de 2023 o Decreto 57.369/2023, instituindo “o ano de 2026 como dos 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis”, preconizando a realização de eventos “em todas as cidades afins com a história jesuítica Guarani” e prevendo a formação de uma “Comissão Oficial”, através de portaria, para encaminhar as comemorações.
Durante o ano de 2024 foram realizadas reuniões e atos envolvendo entidades, dentre as quais prefeituras vinculadas à Associação dos Municípios das Missões, incluindo anúncios de investimentos, com recursos do Estado, de 50 milhões de reais na “região das missões”, em atividades e equipamentos turísticos e culturais e em infraestrutura (principalmente transportes).
Em 2025 foram feitas apresentações detalhadas destes investimentos em ambientes empresariais, como Expointer e o “Tá na Mesa”, evento organizado pela Federasul[3]. Em junho, via portaria, foi instala a “Comissão Oficial dos 400 Anos”, composta por representantes de prefeituras, associações de municípios, universidades, institutos históricos e geográficos municipais, bancada gaúcha na Câmara Federal, Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Ministério da Cultura, entre outras instituições. Também, merecidamente, foram nomeados, simbolicamente embaixadores das comemorações a liderança indígena Floriano Romeu, da Aldeia Pyaú (Santo Ângelo), o irmão jesuíta Celso João Schneider e a cantora e compositora Marianita Ortaça.
Nas iniciativas referidas acima, identifiquei “inconvenientes” não casuais, mas decorrentes das concepções políticas e ideológicas do Governo Leite. Iniciando pela ideia de que a história e o legado das Missões se limitam a região noroeste, próxima da Argentina, o que está expresso no trecho do Decreto 57.369/2023, quando refere: “todas as cidades afins com a história jesuítica Guarani” (grifo meu). Tal entendimento secundariza na história do Rio Grande do Sul, a importância das Missões, em suas (como identificam os historiadores) primeira e segunda fases, que, com seus povoados nucleares, estâncias e vacarias, abrangeram praticamente todo o território sul-rio-grandense e é fato determinante (para muitos fundante) na formação histórica, cultural, étnica e socioeconômica do Estado. Diante deste, “inconveniente”, pesquisadores, políticos e outros agentes protestaram e a Comissão passou a contemplar outras regiões e municípios nas comemorações.
Outro “inconveniente” foi a exclusão do Povo Guarani da Comissão Oficial e, consequentemente, do processo de discussões e definições das atividades e aplicação de recurso públicos em razão dos 400 anos. “Inconveniente” ilegal, pois a Constituição Brasileira e um conjunto de leis, inclusive as que ratificam e tornam obrigatório no Brasil o cumprimento da Convenção 169/1989 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), garantem aos povos indígenas e tradicionais os direitos da autodefinição e da consulta prévia, livre e informada para que possam definir suas prioridades frente a projetos e ações que os afetem.
Neste sentido, foi instaurado no Ministério Público Federal (MPF) um inquérito civil para apurar a exclusão dos guaranis da Comissão e das decisões sobre os encaminhamentos promovidos pelo Governo do Estado. Entre outras considerações, o MPF apontou que a história e cultura guarani estavam sendo utilizadas para impulsionar atividades econômicas sem atender necessidades das comunidades indígenas e recomendou que o Governo garantisse a participação dos guaranis e incluísse na programação dos 400 anos iniciativas de reparação histórica.
Em julho de 2025, é emitida nova portaria, complementar a primeira, incluindo entidades na Comissão Oficial, como o Conselho Estadual dos Povos Indígenas (CEPI), tendo entre titulares e suplentes lideranças guaranis. No entanto, este Conselho é vinculado ao Governo Estadual e o MPF entendeu que foi insuficiente para que os indígenas tenham efetiva influência na defesa e garantia de seus interesses.
O terceiro “inconveniente”, associado aos dois já abordados, é destinação dos 50 milhões de reais, dos quais apenas 300 mil (menos de 1% do total) serão aportados diretamente em uma aldeia guarani, na Tekoá Ko’enju, localizada em São Miguel das Missões. Estes recursos estão direcionados para estrutura e meios de produção e comercialização de artesanato para turistas, ou seja, dentro da lógica geral do Governo Leite de atender atividades econômicas da região. Os investimentos em Ko’enju são justos e necessários, mas devem ser estendidos as outras comunidades guaranis do Estado. Neste sentido, O MPF recomendou que fosse criado um “comitê gestor” com representação no mínimo paritária para redirecionar parte dos recursos ao atendimento de demandas dos guaranis.
O inquérito civil (procedimento interno do Ministério Público) evolui para uma Ação Civil Pública (ACP) contra o Estado do RS em andamento na Justiça Federal em Porto Alegre.
Neste contexto, lembrei e resgatei textos que produzi em 2023 sobre as Missões, tratando de lideranças guarani e juntei outros escritos meus versando sobre a presença milenar dos povos originários no Rio Grande do Sul, resultando no presente artigo.
Antecedentes
É recorrente em matérias jornalísticas, materiais de divulgação privados e públicos e até em conteúdos didáticos, afirmações como: os primeiros habitantes do município ou de determinada região do Estado foram os portugueses ou açorianos ou alemães ou italianos. Tal visão eurocêntrica ultrapassa o desconhecimento, sendo reproduzida numa intenção de apagamento da presença milenar dos povos originários no Continente Americano e da usurpação de seus territórios pelos europeus.
Assim, é necessário registrar que a ocupação humana no Rio Grande do Sul data de aproximados 12 mil anos, coincidindo com o final da última glaciação. Passados cerca de seis mil anos o clima tornou-se mais estável. As florestas se expandiram, ocupando as encostas do Planalto e as bacias dos rios Jacuí e Uruguai, enquanto os campos dominavam a metade sul do Estado. Já estava alinhavada a fisionomia do território sul-rio-grandense, o qual era habitado por Povos das Florestas, do Litoral e dos Campos.
Estes povos viviam da coleta, da caça e da pesca, diferenciando-se culturalmente de acordo com os ambientes que ocupavam. Nas florestas do Planalto montavam acampamentos próximos aos rios e utilizavam instrumentos de ossos e pedras, como picões e machados de grandes dimensões, adaptados para o corte de madeiras e raízes. No litoral e no entorno das grandes lagoas construíam habitações de formato circular e enterravam seus mortos em sepulturas revestidas com argila, conchas ou ossos de baleia. Os restos de sua alimentação, rica em fauna aquática, formaram depósitos elevados no terreno, compostos de muitas conchas, conhecidos atualmente como sambaquis. Nos campos, grupos seminômades acampavam nas margens dos riachos, erguendo abrigos cobertos por couro e folhas. Desenvolveram uma poderosa arma adaptada aos ambientes campestres: as boleadeiras.
Há cerca de dois mil anos estes povos experimentaram grandes transformações culturais, começaram a cultivar plantas e a produzir recipientes de cerâmica, em decorrência de intercâmbios com Povos Patagônicos, Platinos e originários da Amazônia.
No planalto passaram a se abrigar do frio em casas subterrâneas, formando pequenas aldeias. Seus mortos eram enterrados e cobertos por pedras em cemitérios coletivos. Produziam objetos de cerâmica e a pedra passou a ser minuciosamente polida para a fabricação de instrumentos, como o pilão utilizado para macerar grãos e pinhões. Trocavam a erva mate dos ervais naturais de seus territórios por produtos manufaturados dos guaranis. Estes povos originaram grupos da família linguística Gê (ou Jê), dos quais participam os kaingang e xokleng. No século 19 os colonizadores os denominaram de coroados, botocudos ou bugres.
Os povos das regiões litorâneas erguiam cabanas em aterros de forma circular ou elíptica, identificados como cerritos. Utilizavam boleadeiras, redes e armadilhas de laço para caçar e pescar. Em estreita interação com descendentes dos Povos dos Campos deram origem aos minuanos, charruas e yaros, denominados genericamente pelos europeus de pampeanos. Andantes, vagavam pelo Pampa caçando emas, capivaras e veados campeiros, cujas carnes – em espetos de paus – eram assadas sobre braseiros. Utilizavam faixa na cabeça para prender os cabelos e chiripás. Adotaram dos guaranis o hábito de tomarem mate.
Partindo da Região Amazônica, em sucessivos e milenares deslocamentos, contingentes guaranis se dirigiram ao sul e à leste em busca de melhores terras (“sem males”) onde pudessem formar hortas e lavouras, desenvolver atividades extrativistas, caçar e pescar. Nestas caminhadas foram ocupando territórios nas atuais Bolívia, Argentina, Paraguai, Brasil (Regiões Sudeste e Sul) e Uruguai. Conforme diferentes pesquisadores, a Nação Guarani[4] foi a mais numerosa da América do Sul, alcançando, como registra Bartomeu Melià, aproximados um milhão e 500 mil indígenas, até a chegada dos colonizadores europeus.
No contemporâneo Rio Grande do Sul, entre 2000 e 2500 anos[5], os guaranis, interagindo (por meio de guerras, trocas de produtos e intercâmbios culturais) com os gês e os pampeanos, formaram assentamentos, com preferência para áreas de florestas. Supriam suas necessidades alimentares e medicinais com plantios diversificados (milho, mandioca, batata-doce, amendoim, abóboras, feijão, entre outros cultivares); coleta de frutos, mel de abelhas nativas, plantas curativas e estimulantes, entre elas a erva mate; e pela caça e pesca, utilizando lança, arco e flecha, boleadeiras (influência dos pampeanos), arpão, armadilhas, e timbó[6]. Também confeccionavam peças artesanais, para adorno ou utilitários, como colares, cestos de fibras de taquara e utensílios de cerâmica. Por viverem próximos aos rios eram excelentes navegadores.
De um modo geral, André Luís Soares registra que a organização sociopolítica ancestral dos guaranis, que, com atualizações e adaptações, persistem até hoje, tem como base a família extensa, ou “teýy”. Estas, reunidas espacialmente em um conjunto de casas, constituíam o “amundá”, que, por sua vez, ocupando um território formavam a aldeia ou “teko’á”, com o comando exercido pelo cacique (“Mburuvicha” ou “Tuvichá”). Já um conjunto de “teko’ás”, formavam uma província ou “guará”. Nas aldeias, as mulheres eram responsáveis pela manutenção das famílias, incluindo os trabalhos agrícolas e a coleta extrativista, e os homens pela caça, pesca, proteção da comunidade e as guerras. Nesta organização o auxílio mútuo, onde o coletivo predomina sobre o individual, era (ainda é) fundamental.
Nas “teko’ás” religião e medicina aparecem imbricadas. Para os guaranis a saúde de um indivíduo depende da saúde corporal e espiritual e para se comunicar, interagir com as divindades são necessários corpo e espírito fortalecidos. As relações religiosas são mediadas pelos xamãs, “karai” (homens) ou “kunhã karai” (mulheres), funções desempenhadas pelos mais velhos, líderes religiosos respeitados, que mantêm contatos com os espíritos e detêm conhecimentos e sabedoria para avaliarem e intervirem em diferentes situações.
O prestígio das lideranças está associado à capacidade de oratória e de defesa e provimento das necessidades da comunidade, o que é demonstrado e ocasiões, como grandes festas e guerras. Caciques poderosos podiam reunir cerca de oito mil guerreiros, centralizando o comando durante as batalhas, mas, em períodos de paz, as aldeias, mantinham seus caciques e independência sociopolítica, econômica e religiosa.
De acordo com Soares, “os Guarani estabeleciam uma rede de informações constante, através de visitações intergrupais ou pelo uso de mensageiros”. Para tanto, utilizavam caminhos interligando aldeias e regiões, demarcados no interior das matas, conhecidos somente pelos indígenas. Ainda se valiam de um tambor, “angu’á pu”, formado por parte do tronco cilíndrico do jerivá (“pindó”), fechado nos dois lados com pele de couro, que ao ser tocado anunciava a chegada de visitas à aldeia.
De um modo geral, os guaranis viviam em seus territórios, onde a terra / natureza é um meio para a continuidade do seu modo de ser (“Ñande Reko”) e a religiosidade elemento central da sua cultura. Esse modo de ser, assim como de outros povos originários, foi enormemente impactado e passou por tensões resultantes do processo de colonização imposto pelos Reinos de Espanha e Portugal, com expropriação de suas terras, exploração econômica, dominação cultural e genocídios.
Notas
[1] Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas
[2] Na 1ª Reunião Brasileira de Antropologia (Rio de Janeiro/RJ – 1953) foi assinada uma convenção objetivando padronizar a escrita dos nomes dos povos indígenas em textos em português. Dentre estas padronizações consta escrever os nomes das etnias com inicial maiúscula e no singular. No entanto muitos etnólogos, indigenistas, historiadores, por várias razões, não utilizam esta norma, posição que adoto neste artigo.
[3] Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul.
[4] Formada pelas parcialidades Mbyá, Kaiowá e Nhandéva, integrantes da família linguística Tupi-Guarani.
[5] Presença confirmada por vestígios arqueológicos encontrados nas Bacias dos rios Uruguai e Jacuí, datados em torno de 2000 mil anos
[6] Identificação para diferentes espécies de plantas, que afetam os peixes obrigando-os a permanecerem na superfície das águas, facilitando a captura.
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