14 Abril 2026
"Um outro fim consiste em tornar disponível uma testemunha significativa da tradição indireta, qual é a versão árabe-latina. Todavia, o modo como tal testemunho deve ser utilizado constitui ele mesmo um problema de pesquisa. É também nesse terreno que pode se inserir parte da proposta."
O artigo é de Roberto Cutaia, escritor, publicado em Settimana News, 14-04-2026.
Eis o artigo.
Novecentos anos atrás, em 14 de abril de 1126, nascia em Córdoba, na Espanha, o filósofo Ibn Rušd, conhecido no Ocidente pelo nome de Averroès. Ali permaneceu — até que, por causa de suas ideias filosóficas, foi atacado pelos teólogos tradicionais, especialmente após a publicação do Tratado sobre o acordo entre filosofia e religião (1179/1180) — e foi obrigado a se retirar da vida pública e a se transferir para Marrakesh, no Marrocos, onde morreu em 1198. Juntamente com al-Kindi (801-873), al-Farabi (870-950) e Ibn Sina (980-1037) — que os latinos chamarão de Avicenna —, representam as figuras mais importantes, de certa forma os pais da filosofia (falsafa) em língua árabe.
Descendente de uma ilustre família de juristas, Averroès é ele mesmo qadi (juiz em uma mesquita, e portanto máxima autoridade jurídica e religiosa) em Sevilha e Córdoba, e não um filósofo de profissão: Averroès jamais ensinou efetivamente filosofia, a não ser a um círculo privado e restrito de discípulos.
Sua fama está, no entanto, ligada à composição de uma impressionante série de comentários a todas as principais obras de Aristóteles, que farão de Averroès o "Comentador" por excelência. Ao que parece, Averroès se dedicou a essa empresa por convite (ao menos indireto) do califa almôada Abu Yaqub Yusuf — o que testemunha mais uma vez o interesse dos califas árabes (pertencentes a dinastias completamente diferentes, e em contextos completamente distintos, de Bagdá a Córdoba) pela promoção dos estudos filosóficos.
O Ocidente todo, há novecentos anos, não pode deixar de ser grato ao filósofo Averroès. "É inteligentíssimo", dizia Enrico Berti (1935-2022), um dos maiores especialistas italianos no estudo de Aristóteles.
O pensamento científico e crítico é devedor ao Andaluz por diversas razões, explica Silvia Fazzo (docente de História Antiga e Medieval na Universidade do Piemonte Oriental, sede de Vercelli): antes de tudo porque Averroès contribui para tornar claros os textos de Aristóteles; facilita a relação entre a interculturalidade na ciência; contribui para tornar ainda hoje os tratados aristotélicos relevantes e significativos.
E então, acrescenta a professora Fazzo — empenhada, entre outras coisas, em uma nova edição crítica da Metafísica de Aristóteles e no estudo e revisão da Metaphysica Nova de Averroès —: "A tradição indireta dos textos de Aristóteles representa, em todas as suas fases, um terreno de pesquisa árduo e complexo. A Metafísica pode constituir um ponto de observação privilegiado. O texto impresso apud Junctas (1562) é, de fato, o da chamada Metaphysica Nova árabe-latina. Este estudo de caso mostra que tal texto é provavelmente o caminho mais influente pelo qual a Metafísica impactou a cultura europeia, e sugere que o mesmo pode ser dito para as outras obras do corpus aristotélico e para os respectivos comentários de Averroès."
Os comentários de Averroès se subdividem em três tipologias: Comentários grandes, Comentários médios e Compêndios ou Epítomes. Estes últimos são de certa forma os mais "pessoais": as obras aristotélicas são resumidas e discutidas por Averroès também em referência (quase sempre crítica) às posições dos filósofos árabes que o precederam. Os Comentários grandes são, por sua vez, comentários literais em sentido estrito: o texto aristotélico (nas traduções árabes disponíveis) é reproduzido, dividido e explicado frase por frase. Os Comentários médios, como o próprio nome sugere, ocupam uma posição intermediária: o texto aristotélico não é reproduzido por extenso, mas apenas evocado pelas primeiras palavras de cada frase, e a explicação é, por um lado, menos extensa do que nos Comentários grandes e, por outro, menos explícita e pessoal do que nos Compêndios.
Averroès comentou todo Aristóteles, com exceção da Política (ele mesmo nos informa que nenhuma tradução da obra havia chegado à Espanha até 1176); para cada uma das cinco obras mais importantes de Aristóteles, Averroès chegou a compor três comentários diferentes, utilizando as três diferentes tipologias: é o caso dos Analíticos segundos, da Física, do De caelo, do De anima e da Metafísica.
Além do Tratado decisivo sobre o acordo entre filosofia e religião, outros três escritos do filósofo de Córdoba são: um pequeno tratado de cosmologia (o Sermo de substantia orbis, conservado apenas em latim e em hebraico) e dois opúsculos estreitamente ligados à teoria averroísta do intelecto (a Epístola sobre a possibilidade da conjunção com o intelecto separado e o Tratado sobre a felicidade).
"Uma parte decisiva da transmissão — acrescenta Fazzo — do pensamento de Aristóteles passa através da mediação árabe e latina, e em particular através da tradição dos comentários de Averroès, que tiveram uma difusão capilar na cultura europeia. No entanto, as formas concretas dessa transmissão — também em sua dimensão editorial — ainda não foram plenamente compreendidas."
A admiração de Averroès em relação a Aristóteles é incondicional: mais do que um simples homem, Aristóteles é para Averroès um dom da providência divina, dado a nós para que pudéssemos aprender tudo o que é possível conhecer; é um modelo a que é preciso se inspirar, pois alcançou a verdade em praticamente todos os campos do saber, sem que ninguém depois tenha conseguido acrescentar algo de decisivo ao seu conhecimento.
E, sublinha Fazzo: "Dada a sua enorme importância para a história da tradição cultural no Ocidente latino, é útil, portanto, distinguir os diferentes fins possíveis de uma edição da Translatio Scoti na forma transmitida pela edição juntina, pois a cada um deles correspondem métodos diferentes. Por um lado, pode-se desejar uma edição crítica da Translatio Scoti fundada não apenas na tradição manuscrita direta, mas também no confronto com as principais edições impressas, como a princeps de 1473 e a edição apud Junctas de 1562. Por outro, pode-se almejar reconstruir o estado de circulação do texto latino nos ambientes universitários anteriores à difusão da versão de Guilherme de Moerbeke."
Um outro fim consiste em tornar disponível uma testemunha significativa da tradição indireta, qual é a versão árabe-latina. Todavia, o modo como tal testemunho deve ser utilizado constitui ele mesmo um problema de pesquisa. É também nesse terreno que pode se inserir parte da proposta.
Por fim, Fazzo acrescenta: "Nessa perspectiva, será de qualquer modo oportuno começar por um objetivo circunscrito mas metodologicamente controlável: tornar acessível a transcrição da edição apud Junctas de 1562. Esse constitui o primeiro objetivo imediato, mas de alcance epocal, da contribuição."
Referências
[1] Costantino Esposito, Pasquale Porro, Filosofia antica e medievale, Laterza, Roma-Bari 2009, p. 284-285.
[2] Ibidem.