Eleições 2026: “Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor?” Entrevista especial com Waldir Quadros

Segundo o economista, “80% da população vive na precariedade e, mesmo que tenha melhorado, a condição de vida ainda não está boa”

Foto: Paulo Pinto | Agência Brasil

10 Abril 2026

Os dados de mobilidade social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) dos primeiros dois anos do atual governo Lula mostram uma melhora nas condições de vida da população brasileira. No entanto, isso não foi suficiente para dissipar a “insatisfação visível” que se manifesta neste ano eleitoral, observa Waldir Quadros na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Não podemos esquecer que apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias”, afirma.

Na avaliação do economista, o rumo das eleições presidenciais deste ano é uma “grande incógnita”, mas o pleito será vencido pela liderança que conseguir capitalizar o desconforto e o cansaço da sociedade. “A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor”, assegura. Para ele, o maior desafio do Brasil é a reindustrialização. “Mas isso não é simples de ser feito porque o poder político no Congresso é dominado pelo agronegócio e pelos interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse em reindustrializar o país”, pontua.

A seguir, Waldir Quadros também comenta os principais dados de sua recente pesquisa sobre a ascensão social dos negros e a persistência da discriminação racial no Brasil. “Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação”, sublinha.

Waldir Quadros (Foto: Arquivo Pessoal)

Waldir Quadros é graduado em Economia pela Universidade de São Paulo – USP e mestre e doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde é professor associado do Instituto de Economia.

Confira a entrevista.

IHU – Como está a sociedade brasileira neste ano de eleição presidencial?

Waldir Quadros – Do ponto de vista social, a situação melhorou. Os dados de mobilidade da PNAD Contínua do primeiro biênio (dois anos) mostram uma melhora, sem dúvida. Porém, isso não está se traduzindo – ao menos até agora – em maior prestígio para o governo. Pela primeira vez nas minhas pesquisas, percebo que a melhoria das condições sociais não se reflete em maior aprovação do governo Lula. A situação está melhorando, mas a aprovação social está indo por outro caminho: a questão ideológica. Há um antipetismo muito forte, que foi se cristalizando por várias razões. Ele sempre existiu, mas no último quadriênio aflorou de modo muito intenso, e isso tem ofuscado a melhoria das condições materiais.

IHU – O antipetismo está associado ao crescimento da extrema-direita ou tem outras causas?

Waldir Quadros – À extrema-direita, com certeza, mas não é só isso. Há um cansaço. Muitas pessoas não são de extrema-direita, mas não gostam do PT. O antipetismo também não significa que as pessoas são antiesquerda. Claro que há os que são, mas o antipetismo é um fenômeno de cansaço.

IHU – Em 2019, o senhor chamava a atenção para o fato de que 80% dos trabalhadores brasileiros viviam com renda de até 1.700 reais. No ano passado, os dados da PNAD Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicaram que o rendimento médio nacional chegou a 3.057. Por que essa melhora na renda não reverbera positivamente entre a população?

Waldir Quadros – Por causa da barreira ideológica. Para muitos cidadãos, as melhorias que o governo propicia não são nada além do que a sua obrigação. Hoje, a questão ideológica se sobrepõe às melhorias que ocorreram. Mas não podemos esquecer que, apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias. Aí chegamos neste número: 80% da população vive na precariedade e, mesmo que tenha melhorado, a condição de vida ainda não está boa. Esta é a síntese.

IHU – Esse cansaço se reflete na declaração de Gabriel Galípolo sobre o endividamento das famílias, cuja renda está aproximadamente 30% comprometida com os custos do cartão de crédito?

Waldir Quadros – O endividamento reflete isto: para manter o consumo ou melhorar o consumo, recorre-se à dívida. É uma loucura. Mas o endividamento reflete as condições difíceis das famílias, mesmo para quem está empregado. O endividamento é uma consequência dessa situação. Galípolo poderia contribuir muito se baixasse os juros.

IHU – Que projeto de país precisa ser disputado nesta eleição para que os problemas sociais nacionais sejam enfrentados?

Waldir Quadros – Esta é a questão central: ou o país se reindustrializa nas condições atuais ou não teremos futuro. Este é o nosso drama: falta indústria. A indústria brasileira foi sucateada nos anos 1990 com a liberação das importações, com câmbio e juro desfavorável para a produção nacional. É o nosso maior desafio: a reindustrialização do país. Sem isso, não vamos ter futuro.

Mas reindustrializar não é simples de ser feito porque o poder político, no Congresso, é dominado pelo agronegócio e por interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse na reindustrialização do país. Para eles, se ficar como está, está muito bom.

IHU – Como essa sensação de cansaço e mal-estar social pode influenciar as eleições?

Waldir Quadros – Essa é uma grande incógnita. Tenho a impressão de que os marqueteiros estão tentando interpretar exatamente isto: para onde vai a eleição? Quem vai capitalizar esse desconforto? Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor? Porque não se trata só de criticar. Que futuro melhor pode ser oferecido? O líder que conseguir traduzir isso será o bem-sucedido.

A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor.

IHU – Que propostas de futuro podem surgir com Lula ou Flávio Bolsonaro, que representam dois lados da polarização?

Waldir Quadros – Também estou curioso para saber por que não sei o que vão propor. Espero que se dediquem a discutir as questões estruturais da economia e da sociedade brasileira e proponham uma melhoria de perspectiva que anime o povo e canalize essa insatisfação para a busca de um futuro melhor.

IHU – A polarização política entre direita e esquerda tem reforçado a discriminação e remodelado a discussão sobre o racismo no Brasil?

Waldir Quadros – Não sei analisar essa questão a fundo, mas é óbvio que a polarização é uma coisa desastrosa e tem um efeito antissocial geral. Nunca vimos isso no Brasil. Tenho amigos de direita e de esquerda e nós sempre convivemos. O problema é que a polarização transformou o diferente em um inimigo a ser eliminado. Essa polarização não contribui para a redução da discriminação e do preconceito.

Se observarmos os dois polos, à direita e à esquerda, vamos perceber que há uma mistura racial. Nunca vamos conseguir identificar a esquerda com mais negros e a direita com menos negros. A questão regional tem um peso mais significativo nessa discussão porque onde a mistura já está instalada demograficamente na sociedade, ela é mais aceitável. Em regiões em que a presença negra é reduzida, a situação é mais difícil. A discriminação é maior em regiões com pouca presença de negros. Em regiões como a Bahia, é menor porque lá a presença de negros e pardos é majoritária.

IHU – O que os dados da PNAD indicam sobre a ascensão social dos negros? Entre 2012 e 2024, houve avanços socioeconômicos para uma parcela da população negra?

Waldir Quadros – Sim. A minha pesquisa compara a mesma ocupação dos funcionários públicos com os não públicos. Os públicos estão sempre em melhores condições de remuneração do que os não públicos, ou seja, aqueles do setor privado, das ONGs e das instituições confessionais. Isso é visível nas áreas de saúde, educação, administrativa e segurança.

Os dados também revelam que entre os trabalhadores do setor público há uma mobilidade social melhor do que os do setor privado. Aumentou significativamente a passagem da baixa classe média para a média classe média tanto para brancos quanto para negros e pardos. Isso mostra que o emprego público é um canal de ascensão social para negros e pardos.

Na educação há uma melhoria das condições de remuneração dos professores e funcionários públicos por causa da capacidade reivindicatória. Para os governos, é mais fácil atender demandas salariais do que melhorar a estrutura da educação. As questões estruturais são mais difíceis de resolver do que dar aumento. Por isso os governos acabam atendendo às reivindicações dos professores e funcionários. Além disso, houve iniciativas de melhoria do piso de remuneração dos professores. Ou seja, existem políticas públicas cuidando da remuneração deles. Não é uma maravilha, mas é melhor do que no setor privado. Isso confirma que o problema maior é a estrutura, que está sucateada.

Na área da saúde, a situação dos enfermeiros é difícil. Eles acabam trabalhando em dois ou em até três lugares, mas o setor público remunera melhor do que o privado.

IHU – Por que o senhor enfatiza na pesquisa que a ascensão social dos negros acontece sem igualdade?

Waldir Quadros – Porque, quando melhora a situação salarial, melhora para todos os trabalhadores, mas se mantém uma diferença: os brancos ganham mais do que os negros e mais do que os pardos. Há uma diferença racial na remuneração nas áreas da educação, saúde e administração. Os negros estão sempre em situação desvantajosa do ponto de vista da remuneração em relação aos brancos. Existe aí uma discriminação racial. Os negros estão ascendendo nessas ocupações sem igualdade em relação aos brancos e, nesse sentido, a desigualdade permanece.

IHU – Seu estudo destaca que a discriminação não desaparece com a ascensão social dos negros, mas assume outras formas. Como a discriminação se manifesta no cotidiano?

Waldir Quadros – Os negros, mesmo quando alcançam uma posição de classe média, passam a conviver num espaço que era privativo de brancos e sofrem uma discriminação muito forte porque os brancos não aceitam essa “invasão”. Eles se sentem invadidos por aquelas pessoas que não fazem parte daquele cotidiano. O negro, mesmo quando ascende socialmente, sofre uma discriminação muito grande porque está fora da sua comunidade. Ele passa a conviver numa sociedade predominantemente de brancos.

IHU – Como a discriminação afeta psicológica e emocionalmente as pessoas?

Waldir Quadros – Afeta profundamente. Quando uma pessoa se sente discriminada e vê seus filhos discriminados, isso gera muito sofrimento e tem efeitos de todo tipo, que vai desde o sofrimento até a revolta. Há jovens que se revoltam e respondem com agressão à discriminação. É uma situação muito difícil para os negros.

IHU – Por que o racismo persiste numa sociedade mestiça como a brasileira?

Waldir Quadros – Infelizmente, as heranças da escravidão ainda são muito profundas e hoje estão presentes nas atitudes dos brancos em relação aos negros. Basta ver o modo como as empregadas domésticas são tratadas. Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação.

IHU – Nos últimos anos, observamos uma valorização da cultura negra e, ao mesmo tempo, um ressentimento de uma parcela da população por causa desse enaltecimento. Como rediscutir a questão racial no país neste contexto?

Waldir Quadros – O caminho é a educação. O aspecto educacional é fundamental. A escola pode dar uma grande contribuição para a redução da discriminação entre as crianças, criando um ambiente de mais respeito e igualdade. Na cultura, no esporte, os negros têm um papel significativo e reconhecido. Mas veja bem: uma coisa é gostar de assistir a um show de um negro, onde a pessoa paga um ingresso e assiste a um evento, outra coisa é conviver. Para os racistas, o grande problema é a convivência com os negros. A convivência na família, nos ambientes sociais predominantemente brancos. Essa é uma barreira muito grande.

A educação é o caminho porque já existem leis que coíbem o preconceito e a discriminação racial. Quando os negros e, principalmente, as negras acionam a justiça, vemos os efeitos. Mas não basta ter leis. É uma questão cultural. A proeminência dos negros em áreas culturais e esportivas não se traduz em menor preconceito.

As religiões também podem propiciar uma redução do preconceito no país porque nas igrejas e nos templos convivem todos. A religião tem o efeito positivo na redução da discriminação.

IHU – Qual impacto social e cultural a resolução da ONU, que reconhece o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade, pode ter na formação de uma nova mentalidade nas próximas gerações?

Waldir Quadros – Fundamentalmente, a resolução dá um argumento muito forte para os movimentos negros. Ela, por si só, não vai mudar a cabeça dos brancos. As conquistas não vêm espontaneamente. O movimento negro unificado tem um papel fundamental na luta por reconhecimento e pela redução das desigualdades. Nesse sentido, a resolução é um instrumento importante para a luta do movimento negro.

IHU – Além da educação, que medidas concretas podem ser tomadas para superar a mentalidade racista que persiste na sociedade brasileira?

Waldir Quadros – O fortalecimento dos direitos é fundamental. Não é simples. Diria que é muito difícil. Mas isso passa pela reivindicação e luta do movimento negro, inclusive no que diz respeito à educação e à saúde. A capacidade reivindicatória deles pode fazer a diferença.

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