Birra, teimosia e irritabilidade, antes comportamentos tidos como normais no desenvolvimento infantil e que desapareciam com o passar do tempo, sobretudo após o advento do DSM-5 foram convertidos em sintomas clínicos que reivindicam tratamento farmacológico, uma vez que suspostamente denotam doenças mentais em crianças. Essa mudança de paradigma foi sendo “normalizada” na sociedade, com um uso majoritário de medicamentos para resolver “dificuldades comportamentais” de modo imediato, mesmo que suas causas permaneçam sem resolução. No caso dos adolescentes, suas angústias e questões inerentes a esse período da vida passaram a ser vistas como doenças que exigem “pílulas mágicas”, capazes de os recolocarem nos eixos.
A tendência de medicalização da vida na qual se insere a patologização e a psiquiatrização de crianças e adolescentes precisa ser lida no contexto da biopolítica e seu aprofundamento, governando as vidas e anestesiando-as para que caibam no projeto neoliberal e sigam colaborando com seu funcionamento docilmente. A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
A conferência A infância como problema. Patologização e psiquiatrização de crianças e adolescentes, a ser ministrada pela Profa. Dra. Sandra Caponi no IHU Ideias desta quinta-feira, 09-04-26, das 17h30min às 19h através do canal do YouTube do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, propõe uma reflexão crítica e urgente sobre a crescente tendência de interpretar comportamentos infantis à luz de categorias psiquiátricas. O tema dialoga com um debate contemporâneo mais amplo acerca da medicalização da vida, especialmente no campo da saúde mental, onde fronteiras entre o normal e o patológico tornam-se cada vez mais difusas e indiscerníveis sob uma determinada ótica médica. O consumo acrítico e desnecessário de medicamentos psiquiátricos sobretudo por crianças e adolescentes preocupa as autoridades de saúde e aponta para uma tendência imediatista e apaziguadora de que as pessoas caibam no modelo neoliberal e com ele continuem colaborando. Medicar para melhor governar desponta como uma técnica cada vez mais empregada e aceita, sem muitos questionamentos na maior parte das vezes.
Sandra Caponi é graduada em Filosofia pela Universidad Nacional de Rosário (Argentina). Possui mestrado e doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, com pós-doutorados na Universidade de Picardie e na École des hautes études en sciences sociales, ambas na França. Leciona no Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, atuando ainda na Pós-graduação em Sociologia Política e no Mestrado profissional em Saúde Mental, na mesma instituição. É autora de Loucos e Degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada (Rio de Janeiro: Fiocruz, 2012) e organizou, entre outros, Medicalização da Vida: ética, saúde pública e indústria farmacêutica (Florianópolis: UNISUL, 2010).
A professora esteve na Unisinos em 22-05-2014, ministrando a palestra Medicalização da saúde mental. O evento, parte do III Seminário preparatório para o XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades, ocorreu na sala Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.
Segundo Caponi, a ampliação dos diagnósticos psiquiátricos, especialmente após a publicação do DSM-5, contribuiu para que condutas antes compreendidas como parte da infância passem a ser tratadas como sintomas clínicos. Comportamentos como “birra”, “teimosia” ou “irritabilidade” foram progressivamente incorporados a classificações médicas, o que suscita questionamentos sobre os critérios utilizados para definir o que é doença mental em crianças e o que é, de fato, um problema a ser tratado em adolescentes.
Em entrevista concedida à Revista IHU On-Line em 2014, a filósofa foi enfática ao afirmar que “não existe nenhum critério médico” capaz de sustentar tais diagnósticos, ressaltando que muitos deles se baseiam em descrições vagas e na simples contagem de sintomas. Essa fragilidade conceitual, segundo ela, abre espaço para uma expansão indefinida das categorias diagnósticas, muitas vezes desvinculadas de evidências biológicas consistentes.
Nesse contexto, a conferência do IHU Ideias abordará o que Caponi denomina de “hipocrisia institucionalizada”, isto é, a aceitação social e científica de classificações que transformam experiências comuns da infância em transtornos. Para a autora, há algo “muito perturbador” na legitimação de diagnósticos como o distúrbio de desregulação do humor em crianças, evidenciando um processo que naturaliza a patologização precoce: “Por fim, existe uma infinidade de situações sociais concretas que podem permanecer ao longo de um ano ou mais e que podem provocar reações legítimas de raiva nas crianças. Toda essa complexidade será desconsiderada quando se atribui a esse comportamento uma explicação biológica, neurológica, cerebral. Dir-se-á, não sem certa ingenuidade (ou cinismo), que essa criança deixará de sofrer porque está medicada, ainda que o contexto social que provocou o sofrimento permaneça idêntico.”
Outro eixo central da reflexão acerca dessa temática diz respeito às consequências desses diagnósticos na vida das crianças e adolescentes. Caponi destaca nessa mesma contribuição à Revista IHU On-Line em 2014 que uma classificação psiquiátrica “muda completamente o modo como nos vinculamos com os outros, com o mundo e até com nós mesmos”. Assim, o diagnóstico não apenas descreve um comportamento, mas produz subjetividades e expectativas sociais que tendem a se cristalizar ao longo da vida. A medicalização, portanto, molda, subjetiva, interfere no Ser. E isso significa muita coisa. Trata-se de reescrever quem somos a partir da ação de um produto cujos impactos são, muitas vezes subestimados.
Nesse sentido, Caponi enfatiza a importância de considerar o contexto social, familiar e escolar das crianças, bem como dos jovens. Situações como separações familiares, luto ou conflitos no ambiente escolar podem explicar reações emocionais intensas, que são frequentemente reinterpretadas como sinais de transtornos mentais. Ao reduzir tais experiências a causas biológicas, corre-se o risco de silenciar dimensões fundamentais da vida social. Importa, ainda, considerar o conceito de “neuronarrativas”, entendido como a substituição das histórias de vida por explicações neurobiológicas simplificadas. Segundo Caponi, expressões como “déficit de serotonina” ou “problemas nos neurotransmissores” exemplificam essa tendência de reduzir a complexidade da experiência humana a processos cerebrais. Vivemos um tempo em que o amadurecimento emocional, que requer sentir e trabalhar sentimentos e emoções, é tido como perigoso e inconveniente. A resposta medicamentosa oferece um paliativo e impede que o sujeito viva plenamente sua constituição como pessoa humana completa, transitando por todas as suas fases e desenvolvendo autonomia e responsabilidade por suas ações.
Ao discutir a infância como problema, a pensadora convida a examinar os modos de governar e regular comportamentos nas sociedades contemporâneas. Inspirada em abordagens biopolíticas, ela sugere que a psiquiatrização precoce está vinculada a estratégias de controle social que visam antecipar riscos e normalizar condutas desde os primeiros anos de vida. Por fim, a proposta da conferência aponta para a necessidade de resistir à naturalização da medicalização da infância e na adolescência. Ao problematizar diagnósticos e práticas consolidadas, Sandra Caponi abre espaço para uma abordagem mais crítica e contextualizada da saúde mental, que reconheça a complexidade da experiência de crianças e jovens e evite reduzi-la a categorias patologizantes.
09/04 | 17h30min às 19h | quinta-feira
IHU ideias
A infância como problema. Patologização e psiquiatrização de crianças e adolescentes
Ministrante: Profa. Dra. Sandra Caponi – UFSC
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📌 O aluno poderá matricular-se apenas nas conferências que desejar assistir. O certificado informará a carga horária total cursada e estará disponível no Portal Minha Unisinos a partir de 20 dias após o término do Ciclo de Estudos (todas as conferências).
📌O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
Mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ihu-ideias