07 Abril 2026
O avanço da extrema-direita não pode ser explicado apenas por sua capacidade de mobilização, mas também pelas limitações dos que se apresentam como alternativa.
O artigo é da Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição - ASERGHC, publicado por Sul21, 02-04-2026.
Eis o artigo.
A experiência internacional e a realidade do GHC apontam um problema incômodo: governos que se apresentam como alternativa à extrema-direita podem estar ajudando a construir o terreno em que ela cresce.
A participação na Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos, realizada no último final de semana em Porto Alegre, expôs um dos dilemas do nosso tempo: o avanço da extrema-direita não pode ser explicado apenas por sua capacidade de mobilização, mas também pelas limitações e escolhas de governos que se apresentam como sua alternativa.
A ASERGHC também foi uma das promotoras da atividade, que reuniu representantes de mais de 40 países em torno do debate sobre o avanço do autoritarismo e a soberania dos povos.
Dentro dessa programação, a ASERGHC realizou uma atividade autogestionada que reuniu trabalhadoras e trabalhadores da saúde em um espaço de escuta e troca de experiências, no qual a presença da jovem e combativa enfermeira norte-americana Cerena Ermitanio evidenciou que os problemas da saúde são parte de um processo mais amplo.
A experiência dos Estados Unidos, marcada por jornadas extenuantes, dificuldade de acesso e forte presença do setor privado, não apareceu como um cenário distante, mas como expressão de uma lógica que já é realidade na saúde brasileira. O que se observa não é uma tendência futura, mas um processo em curso, impulsionado por políticas aplicadas diretamente por governos que se apresentam como defensores do serviço público.
Em ambos os contextos, a saúde passa a ser tratada como mercadoria, subordinada a interesses de mercado — uma lógica que também avança no Brasil sob a condução do Partido dos Trabalhadores, de um governo que se reivindica defensor do SUS, mas que, na prática, mantém e aprofunda mecanismos de precarização e privatização.
É nesse ponto que a principal lição da conferência se torna incômoda.
O crescimento da extrema-direita não decorre apenas de um deslocamento ideológico, mas também da frustração produzida quando governos eleitos com apoio popular passam a governar contra a classe trabalhadora. Quando se implementam ajustes, se amplia a terceirização, se relativizam direitos e se substitui o diálogo por decisões verticais, o que se constrói não é uma barreira ao autoritarismo, mas o seu terreno fértil.
A contradição é evidente. Não basta reivindicar o campo democrático enquanto, na prática, se aprofundam desigualdades, se precariza o trabalho e se enfraquecem os serviços públicos. Essa dissociação não apenas desgasta governos, mas corrói a própria ideia de alternativa para a maioria da população.
Na realidade do Grupo Hospitalar Conceição, conhecemos essa dinâmica. O avanço da terceirização, a falta de enfrentamento da sobrecarga, a ausência de diálogo com os trabalhadores e uma gestão cada vez mais distante da base não são episódios isolados, mas parte de uma orientação política.
Não se trata de um problema técnico e sim de uma escolha política que, ao fragilizar o trabalho e deteriorar o serviço público, produz o descontentamento que a extrema-direita instrumentaliza. Cada direito não garantido, cada trabalhador ignorado e cada promessa não cumprida ampliam a sensação de abandono que alimenta soluções autoritárias.
A experiência da conferência mostra que esse processo já se repetiu em outros países: governos que surgiram como alternativa acabaram abrindo espaço para o retorno, muitas vezes mais agressivo, de forças reacionárias. Ignorar isso é um risco político.
A lição é clara: não se enfrenta o fascismo administrando suas causas.
Não se combate o autoritarismo com políticas que precarizam o trabalho, nem se reconstrói a confiança mantendo práticas que afastam a classe trabalhadora das decisões. Esse caminho aprofunda o descrédito e amplia o espaço para discursos que se apresentam como ruptura, mesmo quando representam retrocessos maiores.
A participação da ASERGHC na conferência reafirma a necessidade de enfrentar esse debate sem concessões. Defender o serviço público, combater a precarização e garantir condições dignas de trabalho são parte da disputa pelo próprio sentido da democracia.
Para a ASERGHC, essa defesa passa necessariamente pela reafirmação do Sistema Único de Saúde como um direito universal, gratuito e 100% público, sem espaço para a lógica de mercado.
O avanço da extrema-direita não será contido por discurso, mas pela ruptura com as políticas que produzem a frustração social.
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