Sudão, quatro anos de conflito. MSF denuncia: "Violência sexual usada como arma de guerra"

Foto: Unicef/Ahmed Mohamdeen Elfatih

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31 Março 2026

O relatório, quase quatro anos após o início do conflito, reúne depoimentos e dados médicos que destacam padrões claros de abuso generalizado e sistemático.

A informação é de Natasha Caragnano, jornalista, publicado por La Repubblica, 31-03-2026.

A violência sexual tornou-se uma marca registrada do conflito no Sudão, que eclodiu em 15-04-2023 entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Resposta Rápida (FRR), gerando uma das piores crises humanitárias do mundo. Apenas alguns dias após o quarto aniversário, Médicos Sem Fronteiras (MSF) relata padrões claros de abuso generalizado e sistemático que persistem para além das linhas de frente.

“Todos os dias, quando as pessoas vão ao mercado, ocorrem quatro ou cinco casos de estupro. A mesma coisa acontece nos campos. Os homens cobrem a cabeça e estupram as mulheres. Se houver várias mulheres, é possível tentar escapar, mas se estiver sozinha, é quase impossível”, conta uma mulher da região de Darfur. A violência, agora sistemática, não poupa nem mesmo áreas distantes das linhas de frente ativas. No Darfur do Sul, 34% das pessoas entrevistadas pela MSF foram atacadas enquanto trabalhavam nos campos e 22% enquanto coletavam lenha ou buscavam água e comida. Entre as vítimas também estão crianças, testemunhas e sobreviventes de horrores que ninguém deveria ter que enfrentar.

Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, pelo menos 3.396 sobreviventes recorreram a centros apoiados por Médicos Sem Fronteiras para receber atendimento médico e psicológico. Mulheres e meninas representam 97% das pessoas assistidas pela organização. Esses números, alerta a instituição, representam apenas a ponta do iceberg, já que muitas mulheres não conseguem chegar aos centros de tratamento em segurança. "Esta guerra está sendo travada às custas de mulheres e meninas. O deslocamento, o colapso dos sistemas de apoio comunitário, a falta de acesso à saúde e as profundas desigualdades de gênero permitem que esses abusos continuem em todo o Sudão", afirma Ruth Kauffman, diretora médica de emergências do MSF.

Após a captura de El Fasher pelas FRR em 26 de outubro de 2025, a organização de Médicos Sem Fronteiras prestou assistência a mais de 140 sobreviventes que fugiam da cidade em direção a Tawila. Noventa e quatro por cento deles haviam sido atacados por homens armados, frequentemente por múltiplos agressores na frente de suas famílias, com o objetivo deliberado de humilhar e intimidar as comunidades não árabes. "Duas mulheres do nosso grupo foram estupradas pelas FRR diante dos nossos olhos. Havia quatro ou cinco homens agindo em conjunto. Uma mulher de 22 anos morreu na hora. Isso também aconteceu entre El Fasher e Gorney", relatou uma mulher de 27 anos de Tawila, no Darfur do Norte.

Somente entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, outras 732 sobreviventes foram identificadas em campos de refugiados ao redor de Tawila, onde mulheres relataram agressões durante a jornada e dentro dos campos, em contextos ainda mais perigosos devido à superlotação, à segurança precária e ao saneamento básico deficiente.

"Essas pessoas foram sistematicamente traídas por aqueles que deveriam protegê-las. A liderança internacional falhou em demonstrar a vontade política necessária para pôr fim à guerra no Sudão e garantir a proteção dos civis", afirma o relatório. Médicos Sem Fronteiras apela às partes envolvidas no conflito para que cessem os abusos e responsabilizem os culpados. Ao mesmo tempo, a organização insta as Nações Unidas, os doadores e os atores humanitários a fortalecerem urgentemente os serviços de saúde e proteção em Darfur e em todo o Sudão, para salvar vidas e dar esperança àqueles que vivem uma crise humanitária sem precedentes há quase quatro anos.

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