Salvar uma vida é salvar o mundo: eis a tarefa dos Justos. Artigo de Anna Foa

Foto: Daniel Julio/Unplash

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13 Março 2026

"O justo não é o santo da tradição cristã, mas alguém que, independentemente de outras escolhas feitas em sua vida, em determinado momento optou por ajudar outros em dificuldade. Os Justos de Yad Vashem, os não judeus que ajudaram os judeus, só e exclusivamente os judeus, durante o Holocausto, são os Justos das Nações", escreve Anna Foa, historiadora, escritora, intelectual da religião judaica, em artigo publicado por La Stampa, 11-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Monte Stella, em Milão, abriga o Jardim dos Justos da Humanidade. É um lugar de paz, onde se pode caminhar em silêncio entre as árvores dedicadas aos Justos, refletindo e lendo suas histórias. Muitas histórias diferentes, de diferentes países, em diferentes contextos. Foi inaugurado em 2003 pela Gariwo, uma fundação criada e presidida pelo jornalista e escritor Gabriele Nissim para lembrar e honrar a memória do Bem. Hoje, existem mais de trezentos jardins, não só na Itália, mas em todo o mundo. E o Dia dos Justos da Humanidade, celebrado em 6 de março, foi reconhecido como dia de homenagem pelo Parlamento Europeu em 2012.

Entre os primeiros a falar dos Justos no período pós-guerra, a oferecer-lhes reconhecimento pelo seu trabalho, estava Israel, em 1963, em memória dos Justos entre as Nações, ou seja, aqueles não judeus que, por sua própria conta e risco e sem recompensa, ajudaram a salvar pelo menos um judeu. Mas a ideia do Justo não era uma invenção de Yad Vashem. Já está enraizada em uma antiga lenda judaica de inspiração cabalística que falava de 36 Justos que, em cada geração, com sua existência possibilitariam à humanidade salvar-se. Em 1959, o escritor judeu francês de origem polonesa, André Schwarz-Bart, filho de sobreviventes e membro da resistência durante a guerra, publicou o romance "O Último dos Justos", que recebeu ampla aclamação e o prestigioso Prêmio Goncourt. Trata-se, de fato, de um relato ficcional da história dos trinta e seis justos. O livro foi muito apreciado pelo ganhador do Prêmio Nobel Elie Wiesel e por Jules Isaac, o historiador judeu francês que tanto contribuiu para a mudança de postura da Igreja em relação aos judeus com o Concílio Vaticano II. E era considerado por Gershom Scholem como o livro que havia trazido a atenção geral sobre a lenda judaica dos Trinta e Seis Justos. Em 1967, o livro ganhou o Prêmio de Literatura de Jerusalém.

Mas o que define um justo? O justo não é o santo da tradição cristã, mas alguém que, independentemente de outras escolhas feitas em sua vida, em determinado momento optou por ajudar outros em dificuldade. Os Justos de Yad Vashem, os não judeus que ajudaram os judeus, só e exclusivamente os judeus, durante o Holocausto, são os Justos das Nações. Mas, seguindo o modelo dos Justos das Nações, os Justos da Humanidade também foram criados, por iniciativa justamente da Fundação Gariwo. São aqueles que, independentemente de sua etnia ou religião, salvaram outros seres humanos. O conceito se estendeu a todos os genocídios, a todos os atos de violência, assim como o conceito de Justo se estendeu, não mais apenas a quem salva a vida de alguém, mas abrangendo também quem, como os 36 Justos da tradição judaica, contribui para salvar o mundo. Este ano, na cerimônia que, como todos os anos, será realizada em Monte Stella, em proximidade do Dia dos Justos, cinco novos nomes serão agraciados com o título de Justos, entre aqueles que contribuíram para a democracia e a paz. Entre eles, Vivian Silver, assassinada em 7 de outubro de 2023 pelo Hamas no Kibutz Be'eri. Ela era uma jornalista, uma feminista, uma pacifista que acompanhava pessoalmente os palestinos através da fronteira para receber tratamento em hospitais israelenses. Sua morte foi, dessa forma, duplamente injusta, pois atingiu alguém como ela, que dedicou toda a sua existência a tornar o mundo um lugar melhor, alguém que lançou um olhar não apenas de empatia, mas também de profunda humanidade sobre os palestinos de Gaza.

Mas seus familiares, apesar dessa terrível injustiça, não deixaram de acreditar que alcançar a paz e o respeito por todos os seres humanos é um dever que deve ser sempre cumprido, mesmo diante do horror da violência terrorista.

Vivian Silver é um desses Justos que contribuíram para salvar não apenas os judeus, mas toda a humanidade. Infelizmente, nenhum justo se levantou, naquele horror, para salvá-la, para impedir que a violência terrorista também a atingisse, assim como uma violência semelhante atingiria, logo depois, tantas outras pessoas inocentes em Gaza. E assim, lembremo-nos do livro de Jó. Na exegese judaica, não é alguém perseguido pelo que fez. Poderíamos dizer que Deus não exerce retaliação. Jó sempre insiste, em seu confronto com Deus, em enfatizar sua inocência e vincular seu ser justo a essa inocência. Suas desgraças não punem um pecado: tornam justo um inocente. Porque, ao enfatizar a relação entre justiça e inocência, Jó salva um princípio ético fundamental e, ao salvá-lo, salva toda a humanidade. Assim é para Vivian Silver, justa e inocente.

Já foi dito que quem fala de Justos, como a Gariwo em relação aos Justos da humanidade, faz confusão. Argumenta-se que somente Yad Vashem pode usar esse termo. O que equivale a dizer que apenas quem salva um judeu é um justo. Então, como deveríamos chamar quem salva um não judeu? Um salvador? Um homem bom? Um santo? Mas temos realmente certeza de que a ideia de Justo foi inventada por Yad Vashem? E que a Gariwo tenha se limitado a copiá-la?

Mas, vejam bem, a lenda fala de trinta e seis judeus justos que, a cada geração, salvam o mundo, enquanto no caso de Yad Vashem, são os Justos não judeus que salvam não o mundo, mas os judeus. Nos textos judaicos, a salvação trazida pelos Justos não era reservada apenas aos judeus, mas a toda a humanidade.

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