Chile. A extrema-direita desembarca no La Moneda

Foto: Vini Brasil/Unsplash

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11 Março 2026

A onda de extrema-direita chegou ao Chile. José Antonio Kast, fundador do Partido Republicano e que fez campanha para o ditador Augusto Pinochet na juventude, assumirá a presidência nesta quarta-feira, 11 de março. A transferência de poder ocorrerá no Congresso Nacional, em Valparaíso; trata-se de um evento cerimonial onde o presidente eleito receberá a faixa presidencial de seu antecessor, Gabriel Boric.

A informação é de Gabriel Osorio, publicada por Página/12, 11-03-2026. 

Kast assume o governo quase três meses após o segundo turno das eleições, no qual o candidato republicano venceu com 58% dos votos contra 41% da candidata do partido governista, Jeannette Jara. Isso encerra um período de transição que não foi isento de tensões: desde o tradicional primeiro telefonema, passando por intensas reuniões bilaterais, até a ruptura nas comunicações após a disputa sobre o cabo submarino entre o Chile e a China. Nas últimas horas, porém, tanto Boric quanto Kast declararam o conflito resolvido, de modo que a cerimônia deve ocorrer conforme o planejado.

A equipe controversa

O Congresso também empossará os novos ministros. Entre os nomes controversos estão Judith Marín, Ministra da Mulher e da Igualdade de Gênero, ativista pró-vida e ex-membro do grupo evangélico Águias de Jesus, e Jorge Quiroz, Ministro da Fazenda, que assessorou empresas envolvidas em casos de conluio nos setores farmacêutico, asfáltico, de transporte marítimo e de produtos avícolas.

Dois advogados que defenderam o ditador Pinochet, Fernando Barros e Fernando Rabat, tomarão posse como Ministros da Defesa e dos Direitos Humanos, respectivamente. Quinze dos vinte e quatro ministros são independentes (sem filiação partidária formal) e apenas dois pertencem ao próprio Partido Republicano.

Segundo a CADEM, Boric deixa o cargo com 37% de aprovação. Durante seu mandato, o governo aprovou a redução da jornada de trabalho semanal de 45 para 40 horas, o aumento do salário mínimo de US$ 392 para US$ 606 e a garantia de assistência médica gratuita no sistema público para os membros do Fundo Nacional de Saúde. De acordo com fontes oficiais, embora a taxa de homicídios tenha diminuído 20%, a percepção de aumento da insegurança atingiu 87,7%. A taxa de inflação acumulada em doze meses caiu de um pico de 14,1% em agosto de 2022 para 2,4% em fevereiro de 2026.

“Hoje, a palavra ‘emergência’, que ocupou tanto tempo nessas campanhas, deixa de ser um conceito e se torna uma tarefa concreta, urgente e diária”, disse Kast na apresentação de seu gabinete. Antes da eleição, o candidato havia prometido acabar com a imigração ilegal e cortar gastos públicos em US$ 6 bilhões ao longo de 18 meses “sem mexer nos benefícios sociais”, seguindo assim o exemplo de Javier Milei. O presidente Boric classificou essa proposta como “irresponsável”, “indesejável” e “impossível de implementar” sem afetar aposentadorias ou outros benefícios.

É a partir dessa percepção de emergência que o novo governo apresenta o plano "Desafio 90", concebido para ser implementado a partir de 11 de março, com o objetivo de alcançar resultados nos primeiros três meses de sua administração. As diretrizes incluem medidas administrativas imediatas, alterações regulatórias e a apresentação de 20 projetos de lei. Entre estes, destacam-se a criminalização da entrada ilegal no país, que prevê penalidades para quem aluga ou vende imóveis a imigrantes indocumentados, e a redução do imposto de primeira categoria sobre ganhos de capital, de 27% para 23%. As medidas administrativas incluem o chamado "Plano Cancerbero", que visa isolar líderes de gangues em prisões de segurança máxima, e a declaração de estado de emergência sanitária para doenças específicas.

Essas iniciativas terão que ser aprovadas pelo Congresso, onde, em 11 de março, os 155 deputados e 23 dos 50 senadores tomarão posse. A coalizão Cambio por Chile, formada pelos partidos Republicano, Social Cristão e Nacional Libertário, terá uma minoria de 42 representantes na Câmara dos Deputados e outros sete no Senado. A coalizão Unidad por Chile, que inclui a Frente Amplio, o Partido Comunista e o Partido Socialista, entre outros, conseguiu manter maiorias relativas de 61 deputados e 20 senadores. Resta saber como votarão os 14 deputados do Partido Popular, enquanto a coalizão Chile Grande y Unido, tradicional de direita, deverá apoiar as propostas do Partido Republicano com seus 18 senadores.

Kast, alinhado com Trump

Kast assumirá o cargo quatro dias após participar da cúpula "Escudo das Américas", realizada em Miami: um projeto de acordos de segurança regional entre governos alinhados aos Estados Unidos de Donald Trump, com quem Kast teve uma breve conversa e posou para as fotos oficiais.

O futuro presidente chileno declarou à imprensa que havia manifestado seu apoio a Trump pela captura de Nicolás Maduro, “uma mudança fundamental na atual situação da Venezuela que poderia permitir a reabertura do espaço aéreo para voos de repatriação”, ao mesmo tempo em que expressou preocupação com a situação em Cuba, país onde, segundo o presidente eleito, “ninguém pode afirmar que exista um tipo diferente de democracia”. Essas declarações contrastam fortemente com a política externa adotada pelo presidente cessante, Boric, que em 3 de janeiro condenou “as ações militares dos Estados Unidos” e defendeu “a resolução pacífica de disputas internacionais e a integridade territorial dos Estados”.

A primeira viagem internacional do presidente eleito do Chile, apenas um dia após sua vitória no segundo turno das eleições, foi para a Argentina, então sob o governo do presidente Milei. "Se há alguma boa notícia, é que a liberdade está avançando por toda a América Latina", declarou o republicano, que, posando ao lado de uma motosserra, discutiu com seu homólogo argentino a necessidade de um corredor humanitário para o retorno de migrantes à Venezuela.

A posse de Kast começará ao meio-dia no Salão de Honra do Congresso, onde se espera um público recorde de 1.150 convidados (em comparação com a média habitual de 850). Esses convidados ocuparão o espaço normalmente reservado à imprensa credenciada. Além de Milei, espera-se a presença dos presidentes da Bolívia (Rodrigo Paz) e do Equador (Daniel Noboa), bem como do Rei Felipe VI da Espanha, entre outros chefes de Estado.

Lula cancelou

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua presença na cerimônia no último minuto. A decisão veio apenas um dia depois da confirmação da presença do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro e de seu irmão Eduardo, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o G1, noticiando do Brasil, o cancelamento foi motivado pelo risco de um encontro constrangedor com seus adversários políticos. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, representará o Brasil.

A presença de María Corina Machado, laureada com o Prêmio Nobel da Paz e figura de destaque da oposição venezuelana, também foi confirmada, assim como a do Subsecretário de Estado Christopher Landau, que representará os Estados Unidos no lugar do Secretário Marco Rubio. Ausências notáveis da extrema direita incluem o presidente salvadorenho Nayib Bukele, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

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