04 Março 2026
O presidente afirmou ser “falso” que seu futuro sucessor não tivesse sido informado sobre a iniciativa que busca conectar a Ásia ao litoral chileno, com a intervenção do governo dos EUA.
A reportagem é publicada por Página/12, 04-03-2026.
O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, encerrou abruptamente as reuniões de transição com o governo do presidente cessante Gabriel Boric na terça-feira, após acusá-lo de reter informações sobre um projeto de cabo submarino chinês. Atualmente, a cobertura da rede digital do Chile depende quase inteiramente de cabos que passam pelos Estados Unidos. O governo americano acredita que o projeto China-Chile prejudica a segurança regional e, usando isso como pretexto, revogou os vistos de três autoridades chilenas em fevereiro, incluindo o ministro dos Transportes e Telecomunicações. O governo chileno nega a acusação.
Versões cruzadas
Boric e Kast se encontraram pela terceira vez nesta terça-feira no Palácio de La Moneda para coordenar os preparativos para a transição presidencial em 11 de março. A reunião durou aproximadamente 20 minutos, mas terminou abruptamente depois que Kast exigiu que Boric se retratasse da declaração de que haviam discutido o projeto chinês, conforme Boric explicou aos repórteres após o encontro.
Boric afirmou ser “falso” que Kast não tivesse sido informado e se recusou a retratar sua declaração. Em entrevista ao canal Mega na última segunda-feira, o presidente indicou que, em 18 de fevereiro, alertou o presidente eleito sobre ameaças recebidas dos Estados Unidos a respeito do andamento do projeto chinês. A iniciativa envolve a construção de um cabo de fibra óptica pela multinacional China Mobile para conectar a Ásia à costa chilena, criando uma nova rota digital transpacífica para expandir e diversificar a cobertura.
Quiebre total: Boric acusa a Kast de mentir sobre intercambio de información por cable chino
— BioBioChile (@biobio) March 3, 2026
"El presidente electo ha llegado a esta reunión exigiéndome que me retracte de los dichos de que yo le había informado de esta situación antes, y como eso es falso, no lo voy a hacer". pic.twitter.com/lELqpjsOX2
Em decorrência do desentendimento, Kast suspendeu uma série de reuniões de coordenação entre os ministros entrantes e cessantes na terça-feira, afirmou Boric. Após deixar o Palácio de La Moneda na terça-feira, Kast disse não confiar nas informações fornecidas pelo governo e, portanto, encerrou o processo de transição conjunta. O governo de Boric mantém a posição de que as sanções americanas contra os três funcionários chilenos são sem precedentes e enviou uma nota de protesto em resposta. Segundo autoridades locais, o projeto do cabo submarino chinês ainda está em fase de avaliação.
Especialistas e jornalistas locais lembraram que, em ocasiões anteriores, a transição de poder se limitava a um encontro simples e cordial entre o presidente cessante e o eleito, e outro entre o gabinete cessante e o eleito. Contudo, desta vez, Kast não só criou seu próprio gabinete para preparar os aspectos burocráticos da cerimônia, como, desde o início, interferiu em assuntos legislativos, fazendo ligações para o Congresso e emitindo pareceres sobre projetos de lei ainda em análise parlamentar, fazendo aparições públicas constantes, embarcando em uma turnê internacional pela América Latina e Europa e realizando quase meia dúzia de reuniões com Boric.
Leia mais
- Kast e Schoenstatt: O movimento de extrema-direita que moldou a fé do novo presidente do Chile
- Líderes progressistas da região reagem à vitória de José Kast no Chile
- Kast venceu e o Chile se soma à onda da ultradireita
- 5 ambiciosos projetos de infraestrutura com os quais a China quer 'sacudir' a ordem econômica mundial
- A presença da China na América Latina. Artigo de Claudio KatzO conflito entre a China e os EUA pelo controle digital. Artigo de Benjamin Bürbaumer
- Consequências da moderação progressiva no Chile. Artigo de Jorge Elbaum