26 Fevereiro 2026
"A vida consagrada se insere no mundo, marcada pela comunhão fraterna e pela missão contínua, assumindo uma identidade que conjuga contemplação e transformação da realidade".
O artigo é de Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista, mestre e doutor em Teologia Fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma).
Acesse aqui a primeira parte da série.
Eis o artigo.
No artigo anterior, buscou-se explicar a fenomenologia da Vida Religiosa Consagrada (VRC) a partir de seus três elementos fundantes, a saber: espiritualidade, fraternidade e missão em uma perspectiva que remetia às origens.
No artigo que segue, estes três aspectos substancias serão analisados à luz do Concílio Vaticano II (1962-1965), revelando uma profunda transformação na maneira de compreender tais elementos. Se antes predominava uma visão marcada pela separação e pela disciplina, o pós-concílio inaugurou uma teologia inspirada na Sequela Christi (Seguimento de Cristo) que recoloca a vida religiosa no coração do mundo.
Espiritualidade, fraternidade e missão deixam de ser vividas como dimensões isoladas ou voltadas apenas para dentro das comunidades e passam a ser reinterpretadas como práticas de inserção, diálogo e presença profética. A oração se abre às angústias da humanidade, a fraternidade se desloca para pequenas comunidades junto ao povo e a missão se torna estado permanente, expressão da própria identidade da Igreja. Este artigo busca brevemente apresentar essa releitura conciliar, mostrando como a vida consagrada se tornou sinal de comunhão e testemunho transformador no mundo contemporâneo. Vejamos.
I - A espiritualidade, reinterpretada pela teologia da Sequela Christi, passa a incluir o mundo e suas angústias na oração dos consagrados. Isso implica uma certa horizontalidade que gera uma práxis muito centrada nos problemas concretos da humanidade. Oração e vida se interpenetram e formam uma dinâmica espiral no cotidiano dos religiosos. Em síntese, enquanto os padres do deserto tinham como objetivo contemplar Deus no contexto do mundo, a teologia da Sequela Christi propunha transformar o mundo ao mesmo tempo em que contemplava Deus.
II - A fraternidade também ganha nova configuração. Os consagrados no pós-Vaticano II compreendem que a vida comunitária deve ser vivida em contextos geográficos de desafio. Os grandes conventos são reduzidos a pequenas comunidades de inserção, onde o ritmo regular de observância interna perde expressão e cede espaço a uma forma de vida consagrada que reza e convive mais com o povo. Seguir a Cristo como consagrado não faz sentido se a oração e a fraternidade não são vividas dentro da vida de um determinado povo. Enquanto a fraternidade e a vida de oração, no período pré-conciliar, giravam mais em torno de um “nós”, a teologia pós-conciliar insistiu que a razão da vida consagrada consiste em um doar-se contínuo rumo a um “tu”.
III - A missão, por sua vez, deixa de ser um aspecto periférico ou restrito à vida consagrada e passa a ser interpretada como a própria natureza da Igreja. Evangelizar não é tarefa opcional ou restrita a alguns grupos, mas vocação fundamental de todo o povo de Deus. Foi partindo deste pressuposto que a vida consagrada, nas pegadas da teologia da Sequela Christi, passa a falar em estado permanente de missão.
Portanto, no período pós-conciliar, espiritualidade, fraternidade e missão foram reinterpretadas em chave de inserção, diálogo e presença profética. A vida consagrada se insere no mundo, marcada pela comunhão fraterna e pela missão contínua, assumindo uma identidade que conjuga contemplação e transformação da realidade.
No entanto, por que essa transformação hoje se encontra em crise, tendo em vista que a espiritualidade tende a ser mais introspectiva e marcada por formas mais devocionais? Por que a fraternidade perde aquela energia de envolvimento comum e cede lugar ao chamado individualismo? Por que a missão parece ser tema do passado e não entra tanto no horizonte de consagração das novas gerações, tendo em vista que o que mais conta é a promoção estética da autoimagem dos consagrados? Essas questões preparam o caminho para a terceira parte deste debate que em breve será enviada...
Leia mais
- O que está acontecendo com a Vida Religiosa Consagrada? Parte I: Perspectivas pré-conciliares. Artigo de Ademir Guedes Azevedo
- Um papa nas pegadas da cruz. Artigo de Ademir Guedes Azevedo
- A Páscoa e a reforma de vida. Artigo de Ademir Guedes Azevedo
- Obediência ou colonização? Repensando as relações na vida consagrada. Artigo de Maria Noel Firpo
- Vida consagrada: a sedução da excepcionalidade. Artigo de Giovanni Dal Piaz
- A vida consagrada nos convida a sermos caminhantes na beira do precipício. Artigo de Dorothy Fernandes
- Vida Religiosa Consagrada: laboratório de uma Igreja sinodal. Artigo da Irmã Eurides Alves de Oliveira, ICM
- A pobreza é a âncora da vida consagrada, constata o Papa Francisco
- Os números da vida religiosa 50 anos depois do Concílio: a crise ainda não passou
- Vida Religiosa Consagrada: laboratório de uma Igreja sinodal. Artigo da Irmã Eurides Alves de Oliveira, ICM