20 Fevereiro 2026
"Na Cisjordânia e em Jerusalém, se tenta sobreviver a tantas limitações e dificuldades, se tenta proteger e salvaguardar os lugares de origem, que pertencem a gerações desde tempos imemoriais, enquanto novos e desconhecidos proprietários se apropriam daquelas casas e daquelas terras graças a documentos recém-impressos e leis recém-promulgadas que não respeitam a vida e a história de um povo", escreve Ibrahim Faltas, vigário da Custódia da Terra Santa em Jerusalém, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 17-02-2026.
Eis o artigo.
Uma menina chora em desespero, o rosto encostado na terra molhada também por suas lágrimas; parece abraçar o túmulo do pai para receber o calor de quem lhe foi roubado e que ela não pode mais abraçar. O pai dessa menina esperava ainda poder amparar a família, mas morreu, assassinado durante a trégua que poderia ter posto fim à tragédia. Essa ainda é a imagem de Gaza, isso ainda acontece em Gaza.
A esperança não abandonou aqueles que sobrevivem há dois anos e meio à loucura da violência: todos nós acreditávamos em um projeto de paz verdadeiro e possível. A guerra, porque insistimos em chamá-la de guerra, não acabou na Terra Santa. Os bombardeios não acabaram, a comida não chegou, os medicamentos essenciais não foram distribuídos, as tendas não foram montadas e vidas não puderam ser salvas devido à falta de hospitais e profissionais de saúde. A trégua anunciada não trouxe os resultados desejados no caminho para a paz: desde outubro, o número de mortes diminuiu, enquanto as feridas físicas e espirituais daqueles que sofrem em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém aumentaram. O empenho assumido pela comunidade internacional há mais de quatro meses não produziu ações decisivas para a construção da paz. Aqueles que desejam a paz, aqueles que respeitam a vida, agem para atender mais rapidamente aqueles que não têm mais nada e atuam para fornecer alento, ajuda e salvação àqueles que perderam a esperança da paz.
Enquanto conselhos administrativos são organizados e subscrições são arrecadadas para empreitadas comerciais, as pessoas continuam morrendo em Gaza. Enquanto se estuda como remover a enorme quantidade de escombros que sepultou corpos, histórias e memórias, familiares são alvejados enquanto cavam com as próprias mãos entre os restos de suas casas em busca dos corpos de seus entes queridos.
Na Cisjordânia e em Jerusalém, se tenta sobreviver a tantas limitações e dificuldades, se tenta proteger e salvaguardar os lugares de origem, que pertencem a gerações desde tempos imemoriais, enquanto novos e desconhecidos proprietários se apropriam daquelas casas e daquelas terras graças a documentos recém-impressos e leis recém-promulgadas que não respeitam a vida e a história de um povo.
Quem quer paz não pode aceitar que uma criança, a quem já foi negada a serenidade da infância e que necessita de ajuda e proteção, tenha que enterrar quem lhe deu a vida. A verdade da paz não pode ser sepultada com aquele pai amado e os inúmeros mortos inocentes de Gaza.
A esperança de paz não pode ser enterrada por quem provoca injustiças e discriminações na Terra Santa. A cumplicidade da indiferença e do silêncio não devem enterrar a verdade e a justiça.
"Orai pela paz de Jerusalém" não é apenas um convite de um salmo para orar pela paz na Terra Santa; é um apelo pela paz para uma terra martirizada que continua a sofrer e que já não tem mais voz para pedir paz.
Pedir paz pela Terra Santa é respeitar a dignidade da vida e diz respeito a todos os seres humanos em todos os cantos do mundo. Haverá paz no mundo quando as lágrimas de uma criança não molharem mais a terra que esconde o corpo de um pai. Haverá paz no mundo quando cada criança, como aquela menina que chora em desespero, tiver o calor de uma casa, comida e carinho, e um sorriso para se lembrar do amor e do abraço de seu pai, morto durante a trégua que ainda não trouxe paz a Gaza.
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