19 Fevereiro 2026
"O fenômeno Bad Bunny não é apenas musical: é simbólico. Representa uma geração que se recusa a escolher entre raízes e futuro. Que se recusa a apagar sua história para sobreviver".
A opinião é de José Luis Pinilla, jesuíta e assistente social, publicada por Religión Digital, 17-02-2026.
Eis o artigo.
Houve um momento — treze minutos e pouco mais — em que o império ouviu outro idioma. No Levi's Stadium, na Califórnia, enquanto o mundo assistia ao Super Bowl, um filho do Caribe cantou em espanhol porto-riquenho sem pedir permissão. E não se desculpou por isso.
Bad Bunny — Benito Antonio Martínez Ocasio — não apenas fez um show no intervalo da maior cerimônia cívica dos Estados Unidos; ele abriu uma brecha luminosa no diálogo de um país que às vezes confunde os Estados Unidos com seu próprio reflexo. Ele cantou no idioma que aprendeu com a mãe, com o sotaque carregado das Antilhas, usando palavras que evocam o bairro, a praia e a resistência. E fez isso diante de milhões de pessoas.
Alguns se sentiram desconfortáveis. Outros comemoraram. O debate foi imediato. Trump falou de uma “aberração”. Alguns queriam mudar de canal. Mas a música — aquela estrangeira sem documentos que atravessa muros — já havia entrado em lares, telefones e gargantas. E onde a política ergue fronteiras, o ritmo hasteia bandeiras com uma única linguagem. Tão respeitável quanto qualquer outra, seja ela pouca ou muita. Nem mais, nem menos.
Porque Porto Rico existe. Existe com seus três milhões de habitantes na ilha e com os milhões que percorrem o continente, entre Nova York e Orlando, entre Chicago e Houston. Existe com seu próprio espanhol vivo, misturado e criativo. Existe mesmo que sua voz no Congresso seja uma sombra sem voto. E quando Benito decidiu suspender sua turnê pelos EUA para cantar trinta e uma noites seguidas em sua terra natal, ele não estava apenas organizando shows: ele estava lembrando a todos que a identidade não se vende. Que ela precisa ser defendida.
Há uma história simples sobre um imigrante na alfândega que explica isso melhor do que mil tratados. “—Está se esquecendo de algo? —Quem me dera.” O imigrante não se esquece. Ele não pode. Sua identidade se agarra às suas costas como a mochila de um viajante. Ele pode cruzar mares, apagar seus rastros, mudar de nome; mas o que o define viaja com ele. O imigrante não muda apenas de geografia: ele muda de pele, sem deixar de ser ele mesmo. Ele vive nessa fronteira interna onde não é mais totalmente de lá, mas também não é totalmente daqui.
É isso que acontece com o porto-riquenho que chega ao Bronx com a música da sua infância pulsando nos fones de ouvido. É isso que acontece com aquele que trabalha em silêncio enquanto aprende a pronunciar o "r" da maneira como lhe disseram que deve ser pronunciado. É isso que acontece com aquele que sente que seu sotaque é suspeito. E, no entanto, ele continua. Porque a identidade não é uma trincheira; é uma ponte.
A Academia Porto-riquenha da Língua Espanhola reconheceu oficialmente: o trabalho de Benito difundiu o espanhol pelo mundo e dignificou os dialetos populares, urbanos, juvenis e híbridos. Não apenas o espanhol da Academia, que cumpre sua inestimável tarefa de preservá-lo, fixá-lo e esplendorá-lo, mas também o espanhol das ruas. Não o castelhano rígido e monolítico, mas aquele que dança. Aquele que se mistura. Aquele que arrisca.
Num país cuja Constituição não estabelece uma língua oficial, mas onde o inglês domina o ambiente, ouvir um show do intervalo do Super Bowl inteiro em espanhol foi mais do que um gesto artístico. Foi uma pergunta colocada ao público: quem decide qual língua merece o protagonismo? Quem determina qual cultura é "americana"?
A diversidade — como disse Amin Maalouf — não é uma bênção nem uma maldição. É uma realidade. O essencial é como vivemos juntos. Como transformar a diferença em riqueza, não em suspeita. E, nesse sentido, o fenômeno Bad Bunny não é apenas musical: é simbólico. Representa uma geração que se recusa a escolher entre raízes e futuro. Que se recusa a apagar sua história para sobreviver. Que sabe que a miscigenação não é traição, mas destino.
Lembro-me de visitar o cemitério de Tarifa e de me deparar com sepulturas sem nome. Migrantes não reclamados. Identidades perdidas no mar. Ali, a diversidade não é um espetáculo, mas uma tragédia. Ali, a questão não é qual idioma está sendo cantado, mas quem pronuncia o nome dos mortos. E, no entanto, ali também pulsa aquilo que Jon Sobrino chamou de “santidade primordial”: a dignidade irredutível daqueles que perduram.
Entre esses túmulos anônimos e o estádio iluminado, existe um fio invisível. É o fio da dignidade . Aquele que conecta a pessoa que atravessa num pequeno barco com aquela que sobe a um palco global sem renunciar à sua língua. Ambas, à sua maneira, dizem: Eu existo. Eu não sou algo; eu sou alguém.
Quando Rafael Cadenas se lembrou das palavras de Dom Quixote sobre a liberdade — esse dom precioso, incomparável aos tesouros da terra ou do mar — ele também estava falando disso. Da liberdade de cantar em sua própria língua. Da liberdade de não esconder seu sotaque. Da liberdade de não se desculpar por suas raízes.
Muitos migrantes vivem durante anos num estado de integração incompleta. Trabalham, pagam impostos, educam os filhos; mas sentem que têm sempre de provar algo. Que o seu pertença é provisório. Que a sua pátria é uma incógnita. Talvez seja por isso que o gesto de cantar em espanhol de Porto Rico perante 128 milhões de telespectadores foi interpretado por tantos como um ato coletivo de protesto. Não se tratava apenas de um artista; era toda uma comunidade a subir ao palco.
O espetáculo acabou. As luzes se apagaram. O debate continua. Mas algo mudou. Uma interrogação tomou conta do discurso público. Os Estados Unidos não conseguem mais se enxergar sem também ver suas outras faces: as de pele morena, as de sotaque caribenho, as de ascendência mista.
Talvez o futuro não pertença a identidades puras, mas sim a identidades entrelaçadas. A cidadãos que carregam mais de uma bandeira no coração. Reconheço a imensa beleza da língua espanhola, falada em Castela, polida, falada e/ou bem escrita. Ela me comove, e tento cultivá-la. Mas também respeito línguas que se tocam sem se anularem. Aos jovens que dançam reggaeton em espanhol enquanto sonham em inglês e amam em "Spanglish".
O migrante não esquece. Nem o artista. E quando se encontram — quando suas histórias feridas se transformam em canção — nasce algo que desarma os preconceitos. A música não resolve injustiças coloniais nem muda leis de imigração. Mas pode tornar visível o que estava oculto . Pode nomear o que não tinha nome. Pode nos lembrar que a identidade não é um muro, mas uma história compartilhada.
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