Como se nada tivesse acontecido. Artigo de Fulvio Ferrario

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11 Fevereiro 2026

"No turbilhão da história, quando a violência se desencadeia sem restrições, alimentada, inclusive em termos eleitorais, pela estupidez das multidões em festa, a primeira tarefa da Igreja é se apegar à Bíblia, para não ser arrastada para o vórtice: e como uma leitura temerária da Bíblia é perfeitamente possível, e de fato amplamente praticada, a teologia mantém um papel certamente modesto, mas indispensável", escreve Fulvio Ferrario, professor de Teologia Sistemática na Faculdade Valdense de Teologia em Roma, em artigo publicado na revista Confronti, 04-02-2026.

Eis o artigo.

Em 1933, após a ascensão de Adolf Hitler ao poder, alguém perguntou ao teólogo Karl Barth como ele, sempre socialista e precocemente consciente do potencial desintegrador do nazismo, inclusive em relação à Igreja, pretendia reagir.

A resposta é mais ou menos assim: Continuarei a ensinar teologia com meus alunos, “como se nada tivesse acontecido [...]. Da mesma forma que os beneditinos da Abadia de Maria Laach, aqui perto [em Bonn, onde Barth leciona], continuam normalmente, mesmo no Terceiro Reich, a recitação das horas canônicas, sem ter dúvidas, sem interromper ou se distrair.”

Muitos na Igreja que esperavam que Barth oferecesse orientação em um momento dramático não esconderam sua decepção: o teólogo estava se isolando na proverbial "torre de marfim", debatendo a Trindade e a Encarnação enquanto o mundo estava em chamas. A história mostraria que os nazistas entenderam as palavras de Barth melhor do que seus adversários.

No turbilhão da história, quando a violência se desencadeia sem restrições, alimentada, inclusive em termos eleitorais, pela estupidez das multidões em festa, a primeira tarefa da Igreja é se apegar à Bíblia, para não ser arrastada para o vórtice: e como uma leitura temerária da Bíblia é perfeitamente possível, e de fato amplamente praticada, a teologia mantém um papel certamente modesto, mas indispensável.

Esta já é uma forma de resistência, longe de ser desprovida de consequências visíveis, especialmente em termos de formação de consciência e assistência imediata às vítimas da brutalidade do poder. O caráter político (ou, como gostamos de dizer hoje, "público") da fé, e até mesmo da teologia, reside primordialmente em viver o Evangelho que intimidou Herodes ("e toda Jerusalém com ele") e Pilatos.

Escrevo estas linhas em 4 de janeiro de 2026, um dia após a intervenção dos EUA na Venezuela, que a presidente Giorgia Meloni chamou de "legítima" por ser "defensiva", e não tenho ideia do que poderá acontecer no mundo até que elas sejam lidas. Trump terá anexado a Groenlândia? Terá concluído a transferência da Ucrânia para Putin, restaurando o tipo de paz almejada, inclusive internamente, por um amplo espectro político, de Roberto Vannacci à extrema esquerda, incluindo grandes setores da Igreja ecumenicamente? A deportação dos habitantes de Gaza (aqueles, é claro, ainda não exterminados) terá começado a "reconstruir" a Faixa? A China, considerando que é assim que o jogo funciona, terá invadido Taiwan?

Em todo caso, essas e outras catástrofes serão justificadas ideologicamente por meio de mentiras sistemáticas, agora chamadas de "pós-verdade": elas podem ser muito bem disfarçadas com palavras e argumentos "cristãos", como vemos todos os dias. Esse tipo de engano não teme chamar a opressão de "paz", a manipulação em massa de "democracia" e o ódio racial de "patriotismo".

Discutir com a mentira programática significa render-se a ela, porque o tolo primeiro arrasta você para o seu próprio terreno e depois o derrota com a experiência. Mas, então, o que resta? Segundo o Quarto Evangelho, Jesus diz: "A verdade vos libertará". A verdade é, claro, o próprio Jesus, não esta ou aquela tese política. O grande teólogo Eberhard Jüngel, no entanto, relata que essa palavra o atraiu para a fé: ele vivia na RDA, um país fundado na mentira e na opressão, e pensava que a mensagem cristã de verdade e liberdade era, mais ou menos, o oposto da RDA.

Bem, pelo mesmo motivo, é também o oposto da loucura do mundo de Trump, Putin e Xi. Contar a história de Jesus, como testemunham os escritos bíblicos, é lançar luz na escuridão destes anos. A luz do Evangelho não opera magicamente; muitas vezes é frágil e precária: por isso, os que detêm o poder a ridicularizam e a própria Igreja não acredita nela. Contudo, ela não pode ser extinta.

Em vez de me precipitar em análises ou denúncias nestes tempos assustadores, prefiro contar essa história a quem estiver disposto a ouvir e, se possível, a outros também. Como se nada tivesse acontecido.