'Confissões do armário': homossexualidade, terapias de conversão e suicídio entre o clero, temas em debate

Foto: Pexels/Canva

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14 Janeiro 2026

'Proyecto Sistiaga' aborda a realidade do movimento LGBTI dentro da Igreja, com entrevistas de padres, monges e freiras gays, uma realidade que afeta "entre 60 e 70%", segundo Jesús Donaire.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 13-01-2026.

“Minha escolha era exílio ou suicídio”. Os padres James Alison, Jesús Donaire e Cristóbal José Rodríguez, juntamente com freiras como María Luisa Berzosa e ex-freiras como Aranza García Prados, foram o foco da nova temporada de ontem de 'Proyecto Sistiaga', o novo programa do jornalista veterano no canal Cuatro, que desta vez revela 'Confissões do Armário'. Uma reportagem abrangente sobre uma realidade oculta, ou melhor, várias: homossexualidade no clero, sexo, solidão e suicídio.

“Não só entre os padres, mas também entre os bispos, a tendência homossexual é muito forte”, observa Donaire, que sugere que a percentagem de homossexualidade no clero ronda os “60 e 70 por cento”. O antigo padre e colaborador da RD relata a sua experiência no seminário e durante a sua vida sacerdotal, marcada pela sua orientação e pelo medo. “Durante os primeiros anos, fiquei bastante abalado, perturbado, pensando que era um defeito, um pecado, e até uma influência do demónio, e que, entregando-me nas mãos da Igreja Católica, conseguiria ser curado, superar este vício”, explica.

“Quando decidi dar o passo, falar com o arcebispo, todos esses padres se distanciaram (...) Esse medo existe”, enfatiza Donaire, convicto de que “a grande maioria se envolve ativamente em sua sexualidade sem realmente viver o celibato”. Ele próprio confessa ter tido “numerosos relacionamentos” com padres e ter tentado, com cilícios e disciplinas, evitar seus impulsos, suas “tentações”. Donaire chegou ao ponto de deixar grãos de bico em seu sapato “para se lembrar da dor”.

Suicídio entre o clero

Solidão, fracasso e abandono também são questões intimamente ligadas ao celibato. Tanto Donaire quanto Cristóbal, um padre que trabalha com a comunidade LGBTQ+, e James Alison, um padre gay britânico, atestam a realidade da crise de saúde mental dentro do clero. "Lembro-me de vários colegas que cometeram suicídio por causa de sua homossexualidade", diz Jesús, que destaca que "nos últimos 10 anos, pelo menos 20 padres" tiraram a própria vida.

"É completamente diferente que o suicídio tenha sido justificado de outra forma, algo em que a Igreja é bastante hábil: escondendo, camuflando... Normalmente, isso é justificado pela depressão, dizendo que ele tinha problemas mentais. Não, este homem tirou a própria vida porque não conseguia lidar com a própria homossexualidade, pois a reprimia", acrescenta Donaire.

Em relação aos suicídios de padres, Cristóbal confessa ter presenciado “situações muito dolorosas”. “Uma das motivações da minha vocação é a memória dos meus mortos, dos meus entes queridos que perderam a vida”, confessa, revelando a tragédia de um padre espanhol que, há quatro anos, cometeu suicídio “não por ser homossexual, mas por estar passando por um processo de desintegração pessoal que o levou à depressão e, por fim, decidiu tirar a própria vida”. Em sua opinião pessoal e profissional, no caso de padres gays, “muitos dos problemas associados à depressão ou a graves transtornos mentais estão relacionados à falta de integração pessoal”, acrescenta.

Terapias de conversão e "homofobia internalizada"

“O suicídio entre pessoas consagradas é um tema tabu, praticamente nunca discutido, mas existe em toda a Igreja Católica e, em particular, na Espanha”, explica Cristóbal, que se opõe à terapia de conversão, prática utilizada em alguns setores da Igreja para “curar” a homossexualidade. “Há anos o Vaticano a condena, opondo-se abertamente a ela. Essas terapias tiveram origem nos Estados Unidos, promovidas por igrejas evangélicas, e empregam uma espécie de teopsicologia em que, por meio de terapia de choque, os homossexuais são pressionados a assumir uma aparente normalidade heterossexual.”

A realidade da homossexualidade na Igreja não se limita aos homens. Aranza, uma ex-freira que deixou sua congregação após se assumir gay, denuncia a "homofobia internalizada" em grandes setores da instituição.

“Por quê? Porque é mais fácil ser normal, comum, não é? Principalmente em um ambiente hostil. Eu não dei um nome a isso, mas conversei sobre o assunto com meu mentor. Ele providenciou apoio psicológico para que eu pudesse entender… Quando você diz em voz alta: ‘Sou lésbica’, leva tempo. Não é tão fácil porque eu pensava: ‘Bem, se não é errado, por que devo ficar calada?’”, ela relembra, tentando explicar que “uma das coisas mais difíceis para a comunidade LGBTQ+ é se sentir amada por Deus”. Levou um tempo para ela se reconhecer e se convencer de que o que ela era não era pecado. “Uma das coisas mais difíceis, especialmente para pessoas LGBTQ+ no mundo religioso, é se sentir amada por Deus. É difícil. Por quê? Porque você é considerada um ‘defeito de fábrica’. Você é de segunda classe, então é como se Deus estivesse te decepcionando”, conclui.

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