26 Março 2025
Conflito na Ucrânia obriga a uma mudança de paradigma. Europeus reforçam seus recursos militares, enquanto EUA renegam décadas de garantias de segurança transatlântica.
A reportagem é de Timothy Rooks, publicada por DW, 25-03-2025.
Não existe uma definição oficial para "economia de guerra", mas sim diversos atributos que confluem nesse sentido. Um deles é o país mobilizar seus recursos, capacidades industriais e mão de obra para sustentar preparativos e produção militares, antecipando ou durante tempos de guerra. A mudança mais óbvia é o desvio da produção industrial, afastando-se de bens de consumo para se concentrar em armamentos, munição e outros equipamentos bélicos.
"Além do material militar tradicional, armas modernas exigem investimentos em tecnologia e serviços digitais como software, análises de dados, sistemas de satélites e internet confiável", explica Penny Naas, especialista em políticas públicas do Fundo Marshall Alemão sediando em Washington, Estados Unidos.
Para gerir tudo isso, acirra-se o controle governamental centralizado dos setores industriais necessários e da alocação de recursos. Assim, os governos ficam aptos a intervir, redirecionando matérias primas para setores e bens relacionados à guerra. Outros artigos, como combustível ou alimentos, ficam sujeitos a racionamento, a fim se priorizar a produção militar.
"Numa verdadeira economia de guerra, todos os elementos de uma sociedade são reorientados no sentido de defender a pátria", explica Naas. Essa reorientação é cara, e financiá-la costuma implicar um grande aumento dos gastos governamentais. O resultado pode ser mais endividamento e inflação, impostos mais altos e menos benefícios sociais.
Segundo o professor da escola de comércio HEC Paris Armin Steinbach, as grandes ganhadoras são as companhias especializadas em produtos militares, tecnologia digital, de informação e inteligência, farmacêutica e médica.
"Voltar-se para economias de guerra pode ser um catalizador para avanços científicos e tecnológicos. Novos sistemas de comunicação, motores de aviação, radar, informação se beneficiam. E essas tecnologias influenciam outros setores", afirma o integrante do think tank econômico europeu Bruegel.
A passagem de uma economia civil para uma de guerra pode ocorrer gradual ou rapidamente, dependendo da situação. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha tinha a vantagem de saber quando ia atacar, e se preparava de antemão. Os EUA, Reino Unido e outros países aliados tinham menor controle sobre a situação, sendo forçados a reagir freneticamente.
Hoje, a Rússia e a Ucrânia se encontram em circunstâncias comparáveis. Moscou aumentou significativamente seus gastos militares, intensificou a produção de artefatos bélicos e impôs controles de capital para dificultar a saída de dinheiro do país. A inflação é alta, e o governo elevou seus gastos a fim de manter a economia civil funcionando.
A situação da Ucrânia, mais pobre, é muito mais desesperada. Como está sob ataque, ela luta pela própria sobrevivência, e investe muito mais nos esforços de guerra. "Atualmente Kiev aplica 58% de seu orçamento em gastos militares", aponta Steinbach. Assim como o país agressor, ela mobilizou sua população para fins bélicos, retirando assim numerosos profissionais experientes da força de trabalho tradicional. A pedido do governo, diversas fábricas ucranianas foram remanejadas para a produção de armas e munição.
Devido aos conflitos em curso, outros países estão, até certo ponto, num esquema de economia de guerra. Entre eles, Mianmar, Sudão e Iêmen – todos os três em plena guerra civil. Os conflitos em Israel, Síria, Etiópia e Eritreia também causaram perturbações econômicas em nível nacional, com os governos se concentrando em iniciativas militares.
Israel elevou seus gastos com defesa e está fabricando mais artigos militares. Muitos trabalhadores foram recrutados para os combates, ficando de fora do mercado de trabalho civil. Para financiar essas medidas, Tel Aviv elevou o imposto sobre valor agregado (IVA), as taxas de eletricidade, água e outros serviços, assim como os impostos imobiliários.
Recentemente a União Europeia foi igualmente forçada a se mover, devido aos cortes do apoio americano à Ucrânia, Otan e à Europa em geral. Tal guinada após décadas de cooperação, assim como a aproximação entre Donald Trump e seu homólogo Vladimir Putin, são especialmente preocupantes para as garantias de segurança transatlântica.
Os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), 23 dos quais pertencem à UE, já vinham tendo dificuldades em dedicar 2% de seu PIB à defesa. Agora, nem mesmo essa percentagem parece bastar.
Em 4 de março de 2025, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um plano de defesa no valor de 800 bilhões de euros (R$ 5 trilhões), incluindo 150 bilhões de euros em empréstimos para os países-membros da UE. Além disso, a liberalização das rigorosas regras de déficit orçamentário permitirá que os Estados gastem mais, podendo acrescentar outros 650 bilhões de euros em despesas militares nos próximos anos.
Por sua vez, a Alemanha adentrou novo território em 21 de março, ao aprovar novas regras orçamentárias. Agora o governo estará mais livre para se armar, já que, em grande parte, os gastos com defesa não estarão mais sujeitos às regras de déficit fiscal. A iniciativa é tão monumental que exige uma emenda à Lei Fundamental, a Constituição alemã. E poderá abalar a política de segurança do continente.
Para Berlim e a Europa em geral, priorizar recursos financeiros será um primeiro passo importante. Penny Naas aponta que, no nível europeu, é também necessário melhor acesso à energia e mais coordenação para se orientar num labirinto de capacidades nacionais. Aquisição conjunta e pesquisa e desenvolvimento compartilhados deverão reduzir os custos.
"Num nível político, fala-se muito de aumentar as capacidades militares europeias, mas isso está num estágio muito preliminar. A Europa parte de uma posição forte, com recursos fiscais e capacidades industriais fortes", assegura a especialista do Fundo Marshall Alemão.