Mega-ameaças: os 10 principais perigos à humanidade. Previsões de Nouriel Roubini

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23 Dezembro 2022

O mundo à frente se parece menos com as quatro décadas após a Segunda Guerra Mundial, conhecida como a idade de ouro do capitalismo moderno, e mais com as três décadas entre 1914 e 1945. Localmente, essa nova era altera os parâmetros conhecidos e, portanto, outros tipos de intervenções da economia e da política são necessárias.

A reportagem é de Alfredo Zaiat, publicada por Pagina|12, 18-12-2022.

A fama mundial de Nouriel Roubini, apelidado de Dr. Doom (Doutor catástrofe), começou em 2008, quando a economia entrou em colapso em uma das piores crises financeiras contemporâneas. Ele havia alertado em 2006, em conferência do Fundo Monetário Internacional, sobre o perigo das hipotecas subprime, instrumentos financeiros que mais tarde precipitaram o crash.

Ele indicou recentemente que o bitcoin, quando negociado acima de US$ 60,000 a unidade, foi supervalorizado e o comparou a uma "fossa", na qual as criptomoedas cairiam sem a possibilidade de uma rede de contenção. Desde então, os preços desses ativos despencaram.

Em seu último livro Megathreats, ele apresentou os dez principais perigos, desenvolvidos em cada capítulo, que ameaçam a humanidade:

I - A mãe de todas as crises - a dívida

II - Dívidas públicas e privadas

III - A bomba-relógio demográfica

IV - A armadilha do dinheiro fácil e o fim do boom

V - A grande estagflação que está por vir

VI - O colapso das moedas e a instabilidade financeira

VII - O fim da globalização

VIII - A ameaça da inteligência artificial

IX - A nova Guerra Fria

X - Um planeta inabitável

Inadimplência ou choque inflacionário

Roubini se autodenomina um "Doutor Realista" para contrariar a imagem de um previsor de desastres econômicos e humanitários. Diante de cada ameaça, apresenta propostas apontando que, se os governos não fizerem nada, ocorrerá a catástrofe. Por outro lado, se avançarem em medidas ousadas e comprometidas, os custos de uma nova era que se avizinha sombria podem ser minimizados.

A primeira ameaça da lista é a dívida dos países. Ele afirma que, se não for sustentável, como agora, restam poucas opções. Uma é a suspensão de pagamentos ou governos disparando choques inflacionários para reduzir o valor real da dívida nominal.

Este último tem um custo alto para quem o promove, o que leva Roubini a avaliar que isso não acontecerá e, portanto, aumenta a possibilidade da primeira saída: a destruição do valor da dívida à revelia e posterior reestruturação com remoção de capitais.

A liquidação da dívida pública significa uma imensa destruição do capital financeiro do setor privado com o consequente impacto negativo no crescimento da economia e no nível de emprego.

A bomba da dívida pública

A situação crítica do estoque da dívida global também vem chamando a atenção de organismos internacionais. O Fundo Monetário Internacional publicou esta semana um artigo destacando esse perigo, em linha com o que Roubini expressou, mas evitando frases dramáticas.

Na montanha-russa da dívida global, os economistas Vítor Gaspar, Paulo Medas e Roberto Perreli apontam que a dívida global manteve-se acima dos níveis pré-pandemia em 2021. Eles explicam que a dívida pública e privada total diminuiu em 2021 para o equivalente a 247% da Produto Interno Bruto, caindo 10 pontos percentuais em relação ao seu pico em 2020, de acordo com a última atualização do banco de dados da dívida global do FMI. No entanto, expressa em dólares, a dívida global continuou a crescer, embora a um ritmo muito mais lento, atingindo um recorde de US$ 235 trilhões no ano passado.

Eles mencionam que as oscilações extraordinariamente grandes nos índices da dívida são causadas pela recuperação econômica pós-pandêmica e pelo rápido aumento da inflação que se seguiu. Ainda assim, a dívida global permaneceu quase 19% do PIB acima dos níveis pré-pandêmicos, "o que representa desafios para os formuladores de políticas em todo o mundo", dizem eles.

Esta troika de economistas do FMI adverte que a gestão de elevados níveis de dívida se tornará cada vez mais difícil se as perspectivas econômicas continuarem a deteriorar-se e os custos dos empréstimos aumentarem ainda mais.

O perigo do uso da Inteligência Artificial

Roubini também escreveu The Age of Mega Threats no portal Project Syndicate. Ele cita que um desses perigos são os avanços da Inteligência Artificial (IA), da robótica e da automação, pois vão destruir cada vez mais empregos, mesmo que os governos construam muros protecionistas mais poderosos para defender o mercado de trabalho do povo.

Referindo-se aos países desenvolvidos, ele aponta que, ao restringir a imigração e exigir mais produção doméstica, essas economias envelhecidas criarão um incentivo mais forte para as empresas adotarem tecnologias que economizam mão de obra.

Ele aponta que, embora os trabalhos rotineiros estejam obviamente em risco, também estão os trabalhos cognitivos que podem ser divididos em tarefas discretas e até mesmo muitos trabalhos criativos.

Roubini explica que os modelos de linguagem de IA como o GPT-3 já podem escrever melhor do que a maioria dos humanos e quase certamente substituirão muitos empregos e fontes de renda.

Para concluir que "com o tempo, o mal-estar econômico se aprofundará, a desigualdade aumentará ainda mais e mais trabalhadores de colarinho branco e azul serão deixados para trás".

Inflação e estagnação

Os aumentos persistentes de preços, ao mesmo tempo que se desenrola uma recessão econômica, é a combinação que Roubini vislumbra por um período prolongado.

Ele diz que a situação macroeconômica atual não é das melhores. Detalha que, pela primeira vez desde a década de 1970, a economia mundial enfrenta alta inflação e as perspectivas de uma recessão global. Essas duas variáveis ​​juntas têm como equilíbrio a estagflação.

O aumento da inflação nas economias desenvolvidas não é transitório, como avaliaram vários analistas, mas sim persistente porque é impulsionado por políticas monetárias, fiscais e creditícias excessivamente frouxas e mantidas por muito tempo.

A isso se somou o “azar”, que Roubini define por não ser possível prever como a pandemia impactaria a cadeia de abastecimento de bens e o mercado de trabalho. O mesmo aconteceu com a guerra na Ucrânia, que provocou uma forte alta nos preços de energia, alimentos, fertilizantes, metais industriais e outros produtos básicos.

Quanto tempo vai durar a estagflação?

Um aspecto relevante desse diagnóstico pessimista é quanto tempo vai durar esse quadro econômico crítico. Para Roubini, quando a recessão chegar, ela não será curta e rasa, mas longa e profunda. Ele explica essa projeção de que “não apenas estamos enfrentando choques de oferta negativos persistentes no curto e médio prazo, mas também estamos caminhando para a mãe de todas as crises de dívida”. 

Ele lembra que os baixos índices de endividamento "nos salvaram daquele resultado na década de 1970", quando também houve anos de inflação e recessão.

Na crise de 2008, houve também uma crise da dívida devido ao estouro do endividamento das famílias, bancos e governos. Mas naqueles anos houve deflação, não aumento de preços.

"Hoje, estamos experimentando os piores elementos das crises de 1970 e 2008: múltiplos e contínuos choques negativos de oferta coincidindo com índices de endividamento ainda mais altos do que durante a última crise financeira global", avalia.

A crise global é agora agravada pelas consequências das mudanças climáticas que estão alterando o funcionamento da economia global.

Mais desigualdade em um mundo desigual

O saldo dessas mega-ameaças é previsível: o aumento da desigualdade de renda e riqueza, que acentua a rejeição social ao atual sistema democrático, alimentando correntes políticas de extrema-direita.

O mundo que temos pela frente parece menos com as quatro décadas após a Segunda Guerra Mundial, conhecida como a idade de ouro do capitalismo moderno, e mais com as três décadas entre 1914 e 1945.

Este último período levou a duas guerras mundiais, à pandemia chamada gripe espanhola, o crash da bolsa e financeiro de 1929 e a subsequente depressão dos anos 30, guerras comerciais, hiperinflação e expansão de regimes de extrema-direita (fascismo e nazismo).

A tudo isto juntam-se agora as consequências das alterações climáticas que alteram o funcionamento da economia global.

Em chave local, então, é preciso observar que esta nova era altera os parâmetros conhecidos e, portanto, outros tipos de intervenções da economia e da política são necessários.

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