Cerrado: agricultura avança 508% concentrando renda e saqueando recursos naturais. Entrevista especial com Dhemerson Conciani

Para o pesquisador, o maior problema é o tipo de produção agrícola que tem avançado, predando e negligenciando a vida da população originária local e seus modos de produção social e ambientalmente sustentáveis

Foto: Thiago Foresti | IPAM Amazônia

Por: Patricia Fachin | Edição: João Vitor Santos | 22 Setembro 2022

 

Quem olha a vastidão de campos do Cerrado brasileiro, logo pensa: mas esse lugar nasceu para a agricultura. Pode ser, mas o problema é o tipo de agricultura que se tem praticado, basicamente monoculturas e de soja. “É um modelo concentrador de renda e, na maioria das vezes, saqueador de recursos naturais”, adverte Dhemerson Conciani, pesquisador que trabalhou em dados recentes, os quais apontam que a atividade agrícola nesses moldes cresceu 508% na região. “No Brasil, o poder econômico está atrelado à posse de terra e, historicamente, a posse formal da terra é dada a quem desmata. O que vemos nessas regiões é o avanço da colonização e da grilagem de terras; uma reprise do que já aconteceu no sul e sudeste do país”, acrescenta.

 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Conciani enfatiza que não podemos perder de vista que “o Cerrado é o lar de populações tradicionais e povos indígenas que moram aqui há séculos”. E é justamente com essas populações que poderíamos aprender mais sobre produzir e preservar. Mas não é isso que acontece. “Como a maioria desses territórios não é demarcada, esses povos estão tendo não só suas terras como também seus modos de vida roubados, passando a viver sob péssimas condições de existência relacionadas ao aumento da desigualdade social”, lamenta o pesquisador.

 

Para ele, é urgente ações que vão além de preservar o que ainda há de Cerrado em pé. “Estar em pé não é sinônimo de ter um ecossistema íntegro e funcional. Nós não sabemos o quão degradado está a metade que resta em pé, não conhecemos o “ponto de não retorno” do Cerrado e não conseguimos medir a quantidade de funções que já foram perdidas. A expectativa é que a pressão sobre os ecossistemas savânicos e campestres continue, a despeito de áreas já abertas e que poderiam ser ocupadas com agricultura”, observa.

 

Dhemerson Conciani (Foto: Arquivo pessoal)

 

Dhemerson Conciani é pesquisador no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM e na equipe do Cerrado no MapBiomas. É ecólogo e possui mestrado em Ecologia, Biodiversidade e Evolução pela Universidade Estadual Paulista – UNESP.

 

Confira a entrevista.

 

IHU – O que a expansão de 508% de atividades agrícolas no Cerrado – de 4 milhões para 25 milhões de hectares – em 37 anos significa? Quais as implicações, vantagens e desvantagens dessa expansão para o bioma?

 

Dhemerson Conciani – A expansão das atividades agrícolas se deu principalmente para a formação de latifúndios sobre áreas de vegetação nativa. Esse modelo não traz nenhuma vantagem para o bioma e acelera as mudanças no clima regional, aumentando a temperatura e a seca.

 

 

IHU – Nesta expansão, vinte milhões de hectares correspondem somente à plantação de soja, que hoje já ocupa 10% do Cerrado. O que isso revela sobre a produção de soja no país e sobre as implicações do monocultivo nos biomas?

 

Dhemerson Conciani – A soja é um negócio altamente rentável e que, nas últimas décadas, não encontrou nenhuma barreira comercial em relação à compra de produtos com origem em áreas desmatadas no Cerrado. É um modelo concentrador de renda e, na maioria das vezes, saqueador de recursos naturais.

 

Mapa da área do Cerrado conforme delineado pela World Wide Fund for Nature | Reprodução Wikipedia

 

 

IHU – Segundo os dados do MapBiomas, a expansão da soja concentrou-se mais nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e Minas Gerais. Qual é a peculiaridade dessas regiões e por que a expansão se concentra nesses estados?

 

Dhemerson Conciani – São regiões predominantemente cobertas por vegetação nativa e com alta aptidão agrícola, principalmente nas chapadas. No Brasil, o poder econômico está atrelado à posse de terra e, historicamente, a posse formal da terra é dada a quem desmata. O que vemos nessas regiões é o avanço da colonização e da grilagem de terras; uma reprise do que já aconteceu no sul e sudeste do país.

 

 

IHU – Como a expansão agrícola tem alterado as condições socioambientais não só do bioma, mas também das populações que vivem no Cerrado?

 

Dhemerson Conciani – O Cerrado é o lar de populações tradicionais e povos indígenas que moram aqui há séculos. Como a maioria desses territórios não é demarcada, esses povos estão tendo não só suas terras como também seus modos de vida roubados, passando a viver sob péssimas condições de existência relacionadas ao aumento da desigualdade social.

 

 

IHU – O MapBiomas também informa que apenas metade do bioma (53,1%) ainda está coberta por vegetação nativa. Como avalia esse dado e quais as expectativas tanto em termos de preservação quanto de aceleração da destruição do bioma para os próximos anos? Que futuro vislumbra para o bioma neste sentido?

 

Dhemerson Conciani – Precisamos qualificar melhor esse valor de 53,1%. Estar em pé não é sinônimo de ter um ecossistema íntegro e funcional. Nós não sabemos o quão degradado está a metade que resta em pé, não conhecemos o “ponto de não retorno” do Cerrado e não conseguimos medir a quantidade de funções que já foram perdidas. A expectativa é que a pressão sobre os ecossistemas savânicos e campestres continue, a despeito de áreas já abertas e que poderiam ser ocupadas com agricultura.

 

 

IHU – Qual é o tipo de atividade agrícola mais indicada para um bioma com as características do Cerrado?

 

Dhemerson Conciani – O problema não está na atividade agrícola, mas no modelo praticado. Hoje, temos um modelo de agricultura baseado em baixa diversidade, que degrada os ecossistemas e exporta nutrientes e água. Precisamos manter o Cerrado em pé, conhecer a nossa diversidade, valorizar as espécies nativas e, sobretudo, permitir que as pessoas que habitam o Cerrado decidam sobre seu próprio futuro.

 

 

IHU – A maior parte das áreas do Cerrado é propriedade privada, com poucas concentrações de unidades de conservação e terras indígenas. Diante disso, quais são as dificuldades de preservar ou restaurar as áreas desmatadas do bioma?

 

Dhemerson Conciani – As propriedades privadas concentram 63% de toda a vegetação nativa que ainda resta em pé no Cerrado. Pelo código florestal, até 80% da área de uma propriedade privada pode ser legalmente desmatada no Cerrado, ficando a cargo do órgão licenciador estabelecer o limite.

Nos últimos anos, observamos que os órgãos licenciadores transformaram o limite em regra, de modo que grandes desmatamentos estão recebendo o carimbo de legalidade.

 

 

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