A Igreja que virá. Artigo de Lorenzo Prezzi

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22 Setembro 2022

 

"Nos tornamos estéreis? A Igreja não é mais vital? Em nossas 'terras do bem-estar' não conseguimos mais fazer cristãos?", escreve Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, em artigo publicado por Settimana News, 20-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

La Chiesa che verrà. Riflessioni sull'ultima intervista di Carlo Maria Martini

 

Aqueles (pais, padres, crentes) que conhecem a ferida dessas perguntas podem encontrar confirmação e um vislumbre do horizonte no livro de Armando Matteo, La Chiesa che verrà ("A Igreja que virá", em tradução livre, San Paolo, 2022). Texto escrito para honrar uma dívida dupla: o card. Carlo Maria Martini e o Papa Francisco.

 

 

As "terras do bem-estar", o Ocidente, arquivaram a pobreza como destino inexorável e a "adultez" como responsabilidade sobre a prole. Os nossos contemporâneos "não têm a intenção de se tornarem adultos, de crescer e de colocar a sua existência à disposição de um projeto que não coincida com a exaltação e manutenção do seu próprio bem-estar" (p. 38).

 

Até as classes mais religiosas do passado, os jovens e as mulheres, se retiraram. O cristianismo doméstico, aquele conjunto de práticas, valores e tradições que fundamentavam o primeiro e fundamental anúncio cristão, está desmoronando. Uma mudança de enormes proporções que destina aos arquivos aquele cristianismo que havia se configurado como uma "religião da consolação, da iluminação, do viático... (para) uma recompensa celestial de prazer infinito" (p. 78). Aquela extraordinária e eficaz experiência de fé está relegada ao passado.

 

Somos os últimos cristãos?

 

O novo estilo de intercessão está começando: o crente é chamado a acompanhar seus companheiros de viagem entre o embotamento da eterna juventude e a ilusão de retornar ao passado. O caminho pede que se levem a sério as referências da consciência contemporânea: liberdade, prazer, poder da autonomia.

 

Saindo de um juízo altivo como de uma adaptação inconsciente, devemos entender aquela "exponencial capacidade humana de dar vida a possibilidades de intervenção na realidade simplesmente extraordinárias" (p. 61).

 

As pequenas histórias e as tristes paixões de cada um e de sua liberdade de ser livre sucederam às grandes narrativas. “O prazer não é mais a reserva dos deuses olímpicos ou do paraíso que aguarda aqueles que pacientemente aceitaram estar em um vale de lágrimas. O prazer está ao alcance de todos, está disponível para todos” (p. 65).

 

Uma onda coletada e alimentada pelo sistema capitalista avançado que alimenta o desejo sem esgotá-lo e reduz o cidadão a um consumidor. O atordoamento de um poder de vida desconhecido pelas gerações que nos precederam conota nosso tempo como uma explosão de poder de vida. "A espécie deu um salto: passou de poder fazer apenas o que se podia para fazer, para fazer tudo o que se pode fazer, e hoje não há nada que quase não se possa fazer" (p. 84).

 

Fascínio do Evangelho e insuficiência dos poderes

 

Uma nova cultura que esvazia os ritos e atrofia os dogmas, mas que se destina à “egolatria”, tornando áridas as relações e não entregando o prazer que reiteradamente promete. “É hora então de reabrir hoje a questão decisiva do humano: a questão de seu destino. A nossa vida... nunca encontra em si mesma a sua razão de ser e o seu ponto de realização” (p. 86).

 

Mais do que uma denúncia, é uma serena observação de quem "sabe que sem o outro não há alegria para os humanos" (p. 91). De quem sabe que a tradição é algo vivo a ser cultivado, a identidade deve ser sempre construída e o ressentimento em relação a quem se afastou não tem fecundidade.

 

A história do cristianismo conheceu outras épocas semelhantes: quando o testemunho de Jesus se tornou um Evangelho quádruplo, quando a fé remodelou o patrimônio cultural helenístico, quando o drama da Peste Negra esvaziou a Europa (25 milhões de mortes em 80) e impôs o tema da morte e do morrer.

 

Por onde recomeçar? Na consciência de que Deus habita a nossa história e nos precede no anúncio, a Igreja é chamada a ser o lugar do encontro com Jesus "e a receber dele o acesso à verdade sobre Deus e sobre o homem, aquela verdade protegida pela palavra Amor" (p. 136). Anunciar Jesus pede a purificação da conversão e o cultivo da Palavra.

 

Outro trecho: ensinar novamente a rezar. Recolhendo as formas imediatas da invocação, atravessando os complexos territórios do diálogo com o Outro, até a celebração dos mistérios na assembleia eucarística. E, novamente, a experiência da festa para manter unidas liberdade e norma, imaginação e regras, tradição e criatividade. A nova mentalidade pastoral exige "a capacidade dos crentes de se tornar próximos da concretude da vida dos seus contemporâneos e de desenvolverem uma vida comunitária real, na qual cada um com a sua vida nem sempre linear possa encontrar acolhimento e apoio" (p. 153).

 

Nostalgia do futuro

 

Voltando ao tripé do moderno, ao poder se responde com a mansidão, à liberdade com a urgência do destino, ao prazer com a alegria do Evangelho. Por isso, o livro confia ao último capítulo algumas questões essenciais do magistério do Papa Francisco: desde aquelas que interpelam a nossa visão de Deus até a percepção das inquietações dos contemporâneos, do testemunho imediato da fé ao sonho da Igreja futura, da força da busca incansável ao anúncio da fraternidade.

 

A pergunta de Martini em sua última entrevista retorna com insistente provocação: “A Igreja ficou atrasada em 200 anos. Por que não se sacode? Estamos com medo? Medo em vez de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. , confiança, coragem. Eu estou velho e doente e dependo da ajuda dos outros. As pessoas boas ao meu redor me fazem sentir o amor. Esse amor é mais forte do que o sentimento de desânimo que ocasionalmente percebo em relação à Igreja na Europa. Só o amor pode vencer o cansaço. Deus é amor".

 


 

Comentário de Fabio Cittadini, publicado por Settimana News, 20-09-2022.

 

Entendo bem que por motivos de amizade com o autor se queira destacar seu mais recente esforço editorial, porém tenho grande perplexidade diante desses escritos. De certa forma, é como se o destino da Igreja estivesse ligado ao destino do Ocidente. Se um falhar, o outro falha. Infelizmente – aliás, na verdade, felizmente!!! – a Igreja é católica, é universal. Seu destino, seu futuro, não pode ser vinculado ao que acontece/vai acontecer no Ocidente. Ao fazê-lo, a identidade da Igreja é desnaturada. É por isso que esses textos, embora interessantes, me parecem carentes de horizontes, de aberturas para aquele universal que é a Igreja.

 

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