Um oligarca como patriarca. O luxo de Kirill na mira das sanções da UE

O Patriarca ortodoxo Kirill em celebração na Catedral de Cristo Salvador em Moscou, em 27 de fevereiro de 2022 (Foto: Vatican News)

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28 Abril 2022

 

Não, Kirill não é Francisco. Não no sentido do Romano Pontífice, Papa Bergoglio. Mas no sentido do pobre santo de Assis. O Patriarca de Moscou e de toda a Rússia, aquele que em 2012 definiu Vladimir Putin "o milagre de Deus", que abençoou os mísseis nucleares na Catedral de Cristo Salvador, e que declarou guerra santa na Ucrânia, é tudo menos um asceta, ele também é um oligarca, com um patrimônio estimado pelos opositores em 4 bilhões de dólares.

 

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por HuffPost Italia, 27-04-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Por isso, os ministros das Relações Exteriores da UE estudam sanções também contra ele, assim como para os demais oligarcas. Em 24 de abril, o ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Gabrielius Landsbergis, pediu publicamente restrições. O perigo é tão concreto que, no Interfax, a Igreja Ortodoxa Russa definiu como "absurdo" a proposta de Vilnius de pedir sanções contra Kirill. "É um absurdo impor sanções a líderes religiosos, é contrário ao senso comum". Com isso, porém, confirmando a existência de um patrimônio pessoal de Kirill que pode ser atacado no exterior. O Patriarca sempre negou totalmente ser rico, falando de "absurdo".

 

Claro que seria absurdo sancionar o Santo Poverello de Assis, mas certamente não é o caso, já que quem abençoou a guerra na Ucrânia teria, de acordo com um relatório de 2006 publicado pela Forbes em 2020, um patrimônio de 4 bilhões de dólares, enquanto um artigo da Novaya Gazeta (a revista em que a jornalista assassinada Anna Politkovskaja escrevia e dirigida pelo prêmio Nobel Dmitri Muratov, fechada em 5 de abril) estimava em 2019 uma riqueza entre 4 e 8 bilhões de dólares.

 

Valores não verificados e em qualquer caso não verificáveis. O substancial patrimônio pessoal seria o resultado das isenções fiscais estatais russas em uma parte substancial da fabricação de tabaco e cerveja, pelo menos no passado. Quando a Forbes France lhe fez perguntas sobre sua riqueza, o Patriarca Kirill respondeu: "O ascetismo é sobretudo dirigido à luta com as paixões. A paixão é um problema, pois pode nos engolir e nos tornar seus escravos. A sede inextinguível de poder, de certas coisas materiais ou de dinheiro são exemplos destrutivos das paixões que muitas pessoas sofrem hoje."

 

O líder religioso é, portanto, suspeito de possuir riquezas pessoais, parte das quais no exterior, inclusive na Suíça e em paraísos fiscais. Alguns até suspeitam que o Patriarca seja inclusive o fictício detentor dos bens de Putin, Lavrov e outros. De acordo com algumas fontes públicas (ainda que difícil de verificar, dada a natureza altamente confidencial da clientela bancária), Kirill também possui contas bancárias na Itália, Áustria e Espanha. A especialista em direitos humanos Hanna Hopko, que definiu o patriarca Kirill "na realidade um dos políticos de mais alto escalão na Rússia de Putin", está pedindo as sanções contra ele hoje.

 

As investigações estão em andamento em toda a Europa. Além disso, se somam os bens na Rússia: uma vila perto de Putin em Gelendzhik, no Mar Negro, e um iate no qual ele foi fotografado em traje de banho. A paixão de Kirill por relógios de luxo deu origem no passado a curiosos photoshop das imagens do Patriarca, que eliminaram o relógio em seu pulso, mas não seu reflexo.

 

De qualquer forma, o sistema de financiamento da Igreja Ortodoxa Russa é muito interessante graças às isenções fiscais sobre a produção de tabaco e cerveja, que seriam a base de tanta riqueza. A primeira atividade de importação de cigarros e tabaco rendeu a Kirill, o "Papa de Putin", o apelido de "Metropolita do Tabaco". Kirill afirma ter se distanciado desse negócio. Mas, de acordo com os oponentes de Putin, são essas atividades econômicas milionárias que permitiram que toda a Igreja Ortodoxa Russa prosperasse desde o início dos anos 1990.

 

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