Política com selo miliciano

Eleitor de Bolsonaro no dia da votação | Foto: Reprodução

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Julho 2021

 

"Se em termos de linguagem as palavras eram pedras nas mãos de gangues em combate frontal, aqui até mesmo os decretos e declarações oficiais convertem-se em bombas devastadoras. O importante consiste em debilitar ao máximo o inimigo. Torna-se necessário enfraquecê-lo com investidas pontualmente letais, sangrando-o até a morte", escreve Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes - SPM/São Paulo. 

 

Eis o artigo. 

A linguagem costuma ser vulgar, chula, boçal e marcadamente grosseira. A baixaria desce a um grau sem precedentes naquilo que se poderia chamar de ‘prática política’. Da mesma forma que os vermes, as palavras rastejam num mar de lama e podridão. Poder-se-ia falar de “conversa de botequim”, não fosse pelo desrespeito ao que frequentam os botecos. Na falta de gramática ou vocabulário correto e adequado, sobra uma série de chavões ordinários e apimentados. Sobram também expressões de baixo calão que, na boca das autoridades supremas do país, envergonham qualquer cidadão de bom senso. Pelas redes sociais, primeiro, e pelas ruas e praças, depois, cada palavra mais parece uma pedra a ser atirada ao adversário. As línguas convertem-se em facas com lâmina afiada e cortante como navalhas, punhais, espadas.

A atitude é permanentemente beligerante. Os detentores do poder tentam jogar o tempo todo no ataque, conscientes de que têm uma defesa frágil e porosa. Ou como quem sabe possuir telhado de vidro e pés de barro. Daí o apelo obscuro e furtivo, quando não declarado, à mentira, a qual, quando repetida exaustivamente, pode se transfigurar em verdade. Com ataques e difamações, conflitos agressivos e frequentes, o ódio se institucionaliza a tal ponto que acaba por exigir um gabinete para sua própria disseminação. Opositores e adversários – tanto de um ponto de vista político, quanto ideológico ou até religioso – são vistos e tratados como inimigos figadais. Por isso, devem ser abatidos, eliminados, liquidados. Instala-se uma tensão violenta e polarizada entre os de “dentro” e os de “fora”, os “bons” e os “maus”, os “nossos” e os “outros”.

Se em termos de linguagem as palavras eram pedras nas mãos de gangues em combate frontal, aqui até mesmo os decretos e declarações oficiais convertem-se em bombas devastadoras. O importante consiste em debilitar ao máximo o inimigo. Torna-se necessário enfraquecê-lo com investidas pontualmente letais, sangrando-o até a morte. Com a máxima de que guerra é guerra, multiplicam-se as manifestações públicas contra os demais poderes da república. A mesma relação de atrito se aplica quanto às instituições democráticas e à grande mídia, bem como aos representantes da ciência e da pesquisa, da academia e das artes em geral. Quem ousa pensar, e sobretudo pensar diferente, torna-se alvo privilegiado dos alinhados com o poder. Determinados fantasmas, como comunistas ou petistas, ganham relevância, pois é preciso manter a todo custo a ilusão do mito e a coesão dos que a ele dobram os joelhos e a liberdade.

O objetivo primordial consiste em provocar o caos. Ou mais exatamente, manter a realidade ou a aparência de que a situação é caótica. Caos significa o contrário de cosmos, dois conceitos de origem grega. Enquanto o último traduz a primazia da ordem e do funcionamento regular das leis naturais, o primeiro representa a confusão total, onde todos os contornos são indefinidos. O que explica o empenho obcecado pela desinformação. Explica também a postura negacionista dos seguidores do falso messias. Negam-se não somente os avanços e conclusões da ciência, da pesquisa e da tecnologia aplicadas, mas também as noções de interpretação histórica sistemática e amplamente consolidadas. Em lugar da razão e da argumentação, impõe-se a opinião imediata, interesseira e corporativista, quando não familiar.

Num cenário caótico, a população tende a votar num governo arrogantemente forte, autoritário. A extrema-direita costuma ter mais chances de vitória. Tiranos e tiranias sãos filhos de tempos caóticos, como p. ex. a década de 1930, após o crash da bolsa de New York. Em meio a um tecido social profundamente esgarçado e distorcido, conflagrado por dois polos opostos e inconciliáveis, manda aquele que grita mais alto. Ou quem se revela mais poderoso em dinheiro e influência. Rompido simbolicamente o contrato social, o diálogo está banido em definitivo. Isso explica outra obsessão: a da compra, posse e uso das armas de fogo. Quem cospe mentiras, palavrões e fogo, pode ser temido, e sê-lo por algum tempo. A médio e longo prazo, entretanto, revela a própria nudez, para além de uma casca rude e grossa.

Leia mais