Alemanha: sobre a saída das Igrejas. Artigo de Marcello Neri

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20 Julho 2021

 

"À direita e à esquerda, que agora existem apenas na Igreja, entramos efetivamente na temporada sectária do cristianismo - e isso deveria preocupar toda a sociedade, cada vez mais em dívida de oxigênio para instâncias que possam tecer laços comuns, em vez de se espelhar na força da própria imagem multiplicada virtualmente ao infinito", escreve o teólogo e padre italiano Marcello Neri, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, em artigo publicado por Settimana News, 16-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O rito midiático dos comentários também foi celebrado este ano, concentrado em torno dos números de abandono das duas grandes Igrejas cristãs na Alemanha. Bispos, meios de comunicação, jornalistas, teólogos e teólogas - todos envolvidos nessa celebração repetitiva orquestrada em torno da aridez dos números sem motivações.

Todos os anos, de todo mundo, sempre as mesmas palavras - nem um vislumbre de imaginação, nem uma divagação verbal que possa sugerir um mínimo de vitalidade. A esterilidade linguística do setor eclesiástico pode ser equiparada à dos informadores, que agora também são destituídos de qualquer ideia digna desse nome. Não dá mais para aguentar o ritual anual feito de autoflagelações eclesiásticas, advertência iluminada e severa da classe teológica e manchetes bombásticas na mídia.

Não um impulso que tente ligar a tendência (deprimente) das Igrejas àquela (igualmente deprimente) de outras instituições e instâncias civis no país: dos partidos aos sindicatos, das associações culturais às universidades - todos ligados por uma perda de significado diante da vida e das experiências das pessoas.

Um esgotamento de qualquer referência humanística maior - basta olhar para as Geistwissenschaften no mundo acadêmico, obrigadas a lutar por sua sobrevivência em um setor, aquele universitário, que se tornou uma espécie de antecâmara e de pajem dos interesses econômicos das empresas e das finanças.

A privatização do existencial e a tribalização do pertencimento social tornam supérfluas aquelas instâncias destinadas a conectar a história do indivíduo com aquela de muitos ao seu redor. Ao contrário, as tornam incompreensíveis como figuras compartilhadas que medeiam uma pertença comum que não é feita nem pelo sangue nem por afinidades eletivas.

Em suma, seriam muitas as ideias para uma reflexão séria que comece a convocar todas essas instâncias civis e públicas às quais a Alemanha deve não apenas a saída da longa sombra do nazismo e da devastação de uma guerra perdida (com a divisão entre leste e oeste), mas também seu bem-estar econômico generalizado (ou, pelo menos, a aparência dele).

A indiferença com que as vanguardas católicas olham para esse destino inelutável de sua Igreja, sem sequer tentar um raciocínio sobre o porquê também a irmã reformada navega nas mesmas águas, é um índice preocupante para a participação civil das elites cristãs na vida. do país. No final das contas, significa abdicar diante do destino da fé para a vida do mundo - aquele pelo qual Jesus despendeu toda a sua existência.

À direita e à esquerda, que agora existem apenas na Igreja, entramos efetivamente na temporada sectária do cristianismo - e isso deveria preocupar toda a sociedade, cada vez mais em dívida de oxigênio para instâncias que possam tecer laços comuns, em vez de se espelhar na força da própria imagem multiplicada virtualmente ao infinito.

Diante de tudo isso, cerca de 22 milhões de cidadãos ainda pagam o imposto eclesiástico, ou seja, reconhecem o papel sócio-civil de sua Igreja, é quase uma boa notícia. Não para se gabar ou encontrar algum consolo, mas para começar a tecer alianças com todas as instâncias e todas as pessoas que ainda se preocupam com o humano que é de todos nós.

 

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