Estudantes indígenas querem uma universidade que valorize diversidade, coletividade e espiritualidade

Imagem ilustrativa da Lançamento: Semana dos Povos Indígenas 2021 (Foto: CEBI)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

26 Fevereiro 2021

“A universidade ainda não está preparada para nossa presença”, para a diversidade e a aceitação dos saberes indígenas nos currículos e no cotidiano, opina Leonardo Werá Tupã, liderança Guarani Mbya graduado em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Leonardo é um@ d@s sete estudantes ou egressos de curso superior ouvidos pelo Conselho de Missão entre Povos Indígenas (Comin) e Fundação Luterana de Diaconia (FLD) para o caderno da Semana dos Povos Indígenas 2021, lançado na quarta-feira, 24. O tema do caderno é “Universidade: território indígena!

A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.

Card de divulgação do Lançamento do Caderno da Semana dos Povos Indígenas 2021 (Foto: CEBI)

Segundo Leonardo, “a universidade poderia ter no conhecimento indígena um grande aliado, pois o conhecimento indígena já muito contribuiu. É a universidade que está atrasada”. Ele sugere: “Se pensar em unir os conhecimentos acadêmicos e os saberes indígenas, poderíamos abrir novos horizontes, até na questão da evolução humana, porque a gente não evolui sozinho”.

Concorda com essa opinião a acadêmica de Serviço Social na Universidade Federal do Paraná, Nyg Kuita, Kaingang, integrante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). “Não existe ainda uma interculturalidade entre a universidade e os povos indígenas, inclusive porque o conhecimento branco sempre é sobreposto ao nosso”, afirma.

O presidente da Academia dos Saberes Indígenas do Brasil (ASI), o Bororo Márcio Paromeriri, de Rondonópolis (MT), lamenta que “a observação de temáticas educativas construídas na ótica colonialista simplesmente prenderam os indivíduos e os povos indígenas no passado. Os indígenas e suas ações estão sempre no passado, como se já não existissem mais povos indígenas e seus indivíduos no Brasil”.

A universidade, entende Márcio, pode vir a ser uma possibilidade concreta de protagonismo e autoria indígena, um lugar que colabore na reescrita da história, trazendo os pontos de vista, as ciências e os saberes indígenas ao mundo acadêmico.

Para os acadêmicos ouvidos pelo Comin, frequentar a universidade é uma atitude de resistência, muitas vezes difícil de enfrentar pela discriminação e estereotipação que sofrem nesses espaços. O ingresso dos primeiros estudantes indígenas em universidade aconteceu a partir dos anos 1970, muito baseada em trajetórias individuais ou com apoio de organizações não-governamentais e religiosas. O Censo do Ensino Superior no Brasil, de 2018, registrou a matrícula de 57.706 indígenas em cursos superiores, d@s quais 42.256 frequentavam cursos em instituições privadas.

“A universidade precisa compreender que nós, estudantes indígenas, caminhamos o tempo todo em dois mundos. Como pessoa indígena contemporânea, a partir do meu nascimento, eu já sou obrigada a transitar entre dois mundos. E isso pra nós é um desafio, é difícil compreender esses dois mundos. A colonização foi tão ferrenha que adormeceu muitas coisas de nós, do nosso próprio mundo”, explica Nyg. “Eu preciso fazer esse caminho de volta, me compreender para daí poder compreender o mundo dos brancos”.

A dificuldade de se reconhecer como parte da universidade, segundo entendimento do Comin, é resultado de uma série de fatores, como o ocultamento das pessoas indígenas e da temática indígena nos currículos. A constatação parte das palavras de Alana Keline Costa Silva Manchineri, acadêmica de Biologia pela Universidade Federal do Acre, comunicadora indígena da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

– As disciplinas que falam de nós [indígenas], por exemplo, são optativas e só acontecem se há um determinado número de inscritos para ela. Então, essa universidade precisa ser pensada em outra estrutura”, afirma Alana.

Para além da ausência da temática indígena no currículo, é fala recorrente entre estudantes indígenas o despreparo da universidade para lidar com a diversidade. Leonardo destaca a dificuldade de praticar a espiritualidade e os ritos indígenas nos espaços universitários. Uma das propostas que apresentam é a oferta de casas do estudante indígena, que, além de possibilitarem uma moradia digna sem custos, também serviriam de espaço para que pudessem manter seus ritos e práticas espirituais.

Alana percebe a universidade como “um apêndice do corpo todo que é uma sociedade”, que pratica o distanciamento entre teoria e prática, fechada em si e virando as costas para as realidade. “Para além dos povos indígenas, esse modelo de universidade não serve para ninguém! As pessoas entrem na universidade e saem de lá robôs, saem de lá egoístas, egocentradas”, arrola. “Nós, então, às vezes nem sabemos lidar com isso tudo, pois somos menos teóricos e muito práticos. E dentro dessa prática, é inviável pensar em qualquer mínima possibilidade de não conversarmos com a espiritualidade”, agrega.

Por que, então, jovens indígenas se propõem a passar pelo processo de seleção para um curso superior? “O movimento indígena é uma engrenagem que me faz permanecer e continuar buscando estar na universidade, estar produzindo para que a gente tenha mais produções teóricas com o olhar indígena. Porque a universidade está cheia de estudos antropológicos de pessoas não indígenas sobre indígenas e, nesse sentido, estamos reescrevendo a história a partir da nossa ótica”, justifica Alana.

Depois, compreender como funciona a sociedade não indígena e poder agir sobre ela, a fim de propor política públicas e assessorar as lideranças e comunidades indígenas é um dos benefícios que a universidade pode proporcionar. Refletir sobre a presença indígena na universidade é também pensar sobre como ela chega aos espaços territoriais que, historicamente, sempre foram dos povos indígenas.

Universitári@s indígenas defendem o Bem Viver como a teoria de base para o ensino superior. “Não adianta ser indígena e não ser anticapitalista, não adianta ficarmos tapando o sol com a peneira para um mercado liberal que hoje fica lambendo nossas feridas para vender as nossas marcas! É na universidade que surgem mentes pensantes, o que vai para o mundo lá fora”, defende a escritora e pesquisadora indígena Aymara, Aline Ngrenhtabare Lopes, acadêmica do curso de Direito.

Para que isso seja colocado em prática, é preciso trazer lideranças e pessoas sábias dos povos indígenas para dentro da universidade, concedendo a elas a titulação de Doutores e Doutoras Honoris Causa, reconhecendo o saber que construíram no mundo e em suas vivências, propõe a escritora.

Guerreira, Nyg enfatiza: “Assim como nossos antepassados tiveram que engolir tudo o que a colonização foi enfiando, agora também os brancos vão ter que nos engolir nas universidades. Não iremos mais sair dali. A universidade, hoje, é para nós também um território indígena. Nosso corpo é nosso território e onde eu estiver será um território indígena”.

Ela arremata: “Se a universidade atual é baseada nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade, a universidade que queremos precisa dar conta de mais três outros aspectos: diversidade, coletividade e espiritualidade!”

O caderno completo da Semana dos Povos Indígenas 2021 pode ser acessado aqui.

Leia mais