‘A violência policial vem do anonimato da polícia’. Entrevista com Padre Jaime Crowe

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

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04 Novembro 2020

Criador da Caminhada pela Vida e Paz, religioso considera violência ‘muito alta’, critica modelo de segurança do PSDB em SP e define governo Bolsonaro: “É triste”.

A entrevista é de Arthur Stabile, publicada por Ponte, 02-11-2020.

Há 25 anos, o irlandês Jaime Crowne, 75, luta para acabar com a violência na zona sul da cidade de São Paulo. O padre, da paróquia Santos Mártires, no Jardim Ângela, é um dos criadores da Caminhada pela Vida e Paz, que em todo dia 2 de novembro, feriado de Finados, relembra os que se foram, vitimados pela violência. À Ponte, Jaime vê avanços desde o início da caminhada e nestas cinco décadas no Brasil. Contudo, tudo está sob ameaça.

Tão pouco acabou a 25ª Caminhada, ocorrida nesta segunda-feira, o religioso conversou com a Ponte. Questionado se conseguia fazer uma previsão de como seria daqui mais 25 anos, quando a caminhada completa 50 edições, não pensou muito. “É difícil [prever]. Não esperávamos um governo desses que temos agora”, responde, se referindo ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido), a quem classifica como “triste” a atuação na pandemia de coronavírus.

Bolsonaro não é o único a gerar tal imprevisibilidade. Em São Paulo, onde viu por décadas os governos do PSDB liderarem a segurança pública, cobra uma mudança radical de “toda a proposta do policiamento”. Sem isso, defende, nada mudará. “Acredito e tenho defendido que a violência policial vem do anonimato da polícia”, define. “Quando o policial é conhecido, tem nome em uma região, é mais fácil controlar a atitude dele. Do jeito que está é impossível controlar”.

O irlandês Jaime vive há 50 anos no Brasil. (Foto: Jeniffer Estevam/Ponte)

Eis a entrevista.

São 25 anos de caminhada. Quais diferenças o senhor vê da primeira edição para hoje?

A grande mudança, mesmo, é a diminuição da violência na região. O que era em 1995, 1996 até o ano 2000, não tem comparação com hoje. Os números eram de 120 assassinatos por 100 mil habitantes. Hoje nós calculamos em torno de 25 [por 100 mil]. Ainda é muito. Inclusive, em termos da cidade de São Paulo, o distrito de Jardim Ângela é alto ainda. Muito disso [diminuição] por causa da mobilização popular, pelas caminhas, pelas lutas e pelo olhar novo. Essa semana foi divulgado o mapa das desigualdades e nas áreas nobres, como o Jardim Paulista, a vida vai até 82 anos. No Jardim Ângela, 58 anos. Vamos caminhando ainda, não podemos relaxar. A vida está desrespeitada com tamanha desigualdade. Ficou muito claro com o coronavírus a moradia, a fome, a miséria, a dificuldade.

A caminhada de 2020 homenageia também as vítimas da Covid-19. Por quê?

Se o governo, o próprio Ministério da Saúde, tivessem tomado atitudes corretas, como vimos em outros países… Quando se olha Alemanha, Nova Zelândia, teve menos vítimas do coronavírus. Quando se vê o Brasil, os Estados Unidos, as atitudes ruins que tomaram e ainda nos disseram que não era nada, era apenas uma gripe. E a briga atual por causa da vacina, são coisas absurdas e ridículas. Não respeita a ciência nem coloca a vida em primeiro lugar.

Como analisa o combate à pandemia por parte do presidente Jair Bolsonaro?

Olha… É triste. A única palavra para tudo isso é a tristeza. Talvez a gente se questiona: “Como é que deixamos chegar a isso?”. Esse é o grande desafio. E ficar na torcida de aproveitarmos os bons ventos que vêm da Bolívia e do Chile e, quem sabe, dos Estados Unidos com uma derrota de [Donald] Trump.

Nesses 25 anos de trabalho, conseguiram a diminuição das mortes. Imagina como será nos próximos 25 anos?

É difícil. Não esperávamos um governo desses que temos agora. Contamos nesses 25 anos com a colaboração de diversos governos, não de todos, mas diversos. Agora, do jeito que está indo, se não aproveitarmos os bons ventos, a coisa vai ser difícil.

Nesses 25 anos, o Estado de São Paulo teve políticos do PSDB como governantes. Diminuíram os homicídios, aumentaram as mortes pela polícia. Como avalia esse cenário.

Duas coisas temos que colocar: em primeiro lugar, nós contamos com a colaboração de duas secretarias da segurança nesses 25 anos todos. O primeiro secretário, José Afonso da Silva (secretário da Segurança Pública entre 1995 e 1999), no governo [Mário] Covas (comandante do Estado entre 1995 e 2001), conseguimos junto com ele e muita colaboração construir o policiamento comunitário. Com cinco bases no distrito do Jardim Ângela, deu toda uma mudança. Acredito e tenho defendido que a violência policial vem do anonimato da polícia.

Por que acontece?

Quando o policial é conhecido, tem nome em uma região, é mais fácil controlar a atitude dele. Do jeito que está é impossível controlar. Nós tivemos grande colaboração da parte de alguns promotores. Depois do José Afonso, outro que colaborou muito e foi tirado: Fernando Grella (secretário de 2012 a 2014). Ele também estava a fim de policiamento comunitário e queríamos continuar essa construção, mas não deram tempo para ele. Logo o tiraram. Quando o secretário da segurança está dialogando, não deixa acontecer [a violência]. A nossa região é marcada por essa violência nesses 25 anos. O cabo Bruno (Florisvaldo de Oliveira, conhecido como policial justiceiro) atuava aqui, depois vieram os highlanders, tantas chacinas, do Rosana, Paraisópolis agora e tantos outros. Não tem sido fácil.

Como define a segurança pública de SP nesses anos?

Nos governos do PSDB, as secretarias da segurança têm sido uma negação. Nem tudo é perdido, mas tem que mudar toda a proposta do policiamento radicalmente. Não faz muito tempo, eu, o Benedito Mariano [ex-ouvidor da polícia de SP] e o [Eduardo] Suplicy [ex-senador e vereador de SP] estávamos em um encontro na Assembleia Legislativa e até falei: faz quase 50 anos que nós três estamos lutando pelas polícias e, em vez de melhorar, está piorando. Não sabemos onde vai parar do jeito que está.

 

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