Pároco de Gaza: o acordo Hamas-Israel ‘cura paliativa' à espera de soluções duradouras

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03 Setembro 2020

O pacto assinado ontem "afasta a perspectiva de um novo confronto" e de novos bombardeios. E permite canalizar os esforços na contenção da Covid-19. Existe um clima de “estoica resignação” entre os habitantes. O embargo continua sendo a principal emergência a ser resolvida, pois bloqueia a entrada de alimentos e medicamentos.

A reportagem é publicada por AsiaNews, 01-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O acordo entre Hamas e Israel "afasta a perspectiva de um novo confronto" e de "novos bombardeios", permitindo assim "canalizar os esforços" na contenção do novo coronavírus, pois "já há registro de 130 casos internos" em poucos dias. Isso é o que a AsiaNews relatou o pároco de Gaza, pe. Gabriel Romanelli, segundo o qual é “fundamental se concentrar em uma emergência de cada vez: as pessoas encaram a situação com estoica resignação, sem se desmoralizarem demais ou excedem na euforia”.

Foto: Toda Matéria

Os habitantes da Faixa, explica o sacerdote, “não mostram explicitamente as emoções, as alegrias e as tristezas, as esperanças e as decepções. Nesse sentido, elas se acostumaram a ser duras, não acreditar muito nas boas notícias e não perdem a fé diante das más notícias”. No entanto, ainda há “satisfação” com o acordo, que permitiu como primeiro resultado “a reabertura da passagem de fronteira com a entrada de combustíveis. Isso – confirma pe. Romanelli – vai garantir mais horas de eletricidade, internet, ventiladores e geladeiras. Também ampliaram a licença de pesca em 15 milhas, embora eu não saiba como vai se concretizar diante da situação de lockdown e bloqueio imposto pelas autoridades para impedir a propagação do vírus”.

Na noite de ontem, o grupo radical palestino Hamas, que governa a Faixa desde 2007, e Israel chegaram a um acordo com a mediação do Catar para pôr um fim a semanas de violência na fronteira. Desde 6 de agosto, Israel bombardeou Gaza quase todos os dias, em resposta ao lançamento de balões incendiários em direção ao seu território, que teriam causado mais de 400 incêndios nas áreas cultivadas do sul. As tensões haviam se intensificado no último período, após o anúncio do acordo entre o governo israelense e as autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU), com a promessa – em breve – de iniciar relações diplomáticas oficiais. A liderança palestina – nessa conjuntura Hamas e Fatah mostraram uma unidade de propósito incomum – condenou o pacto sem meios termos, chamando-o uma "punhalada nas costas".

Em meados de agosto, Israel havia interrompido o fornecimento de diesel para a Faixa, fazendo com que a única usina elétrica fechasse e deixando os 2,2 milhões de habitantes com apenas quatro horas de eletricidade por dia. Medida que agravou uma situação já precária devido ao embargo em vigor desde 2007, pelos inúmeros confrontos entre as duas frentes e pela pandemia Covid-19 que nos últimos dias também superou o bloqueio dando origem a focos internos.

A propagação do vírus preocupa pelas condições críticas na área, muitas vezes definida de "prisão a céu aberto", e pela falta de atendimento médico e equipamentos. “Nesta semana – diz pe. Romanelli – os casos se multiplicaram. Disso resultou a introdução do toque de recolher das 8 da noite às 8 da manhã, o deslocamento só é permitido a quem tem autorização do Ministério do Interior ou da Saúde”. As autoridades dividiram a Faixa em seções e a própria Gaza em blocos, dois bairros resultam “atualmente isolados. Todas as atividades estão fechadas, só funcionam os serviços de emergência e as lojas que fornecem bens de primeira necessidade, como alimentos e remédios”. As pessoas, acrescenta, “respeitam o lockdown mesmo que esteja muito calor, quase 31 graus pela manhã, e é difícil ficar fechados dentro de casas lotadas”.

O acordo entre Israel e Hamas, nesse contexto, é “uma cura paliativa, que não resolve o problema em sua raiz e não garante a verdadeira cura. Claro, pode servir para melhorar a situação, mas apenas a paz e a justiça geram soluções duradouras”. Enquanto isso, o embargo imposto por Israel continua e afeta todos os níveis: “Há seis meses – conclui o pároco de Gaza – não conseguimos trazer uma carga de hóstias, que é só pão. Tentamos com a Cruz Vermelha e as Nações Unidas, sem ter sucesso. Agora que uma brecha estava se abrindo, chegou a emergência do Covid-19. Imaginem como possa ser difícil trazer alimentos, remédios ou outras coisas. Esse embargo continua sendo a principal emergência ... tomara que acabe”.

 

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