Riqueza nas mãos de poucos, uma tragédia coletiva que ameaça a democracia. Entrevista com Joseph Stiglitz

Foto: reynermedia | Flickr CC

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24 Janeiro 2019

Para o professor da Universidade de Columbia, prêmio Nobel de Economia, “as desigualdades estão crescendo em todo o mundo, e os governos de direita devem saber que, ao cortar impostos dos mais ricos, a pobreza e as injustiças aumentam”.

A reportagem é de Eugenio Occorsio, publicada em La Repubblica, 22-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Vinte e seis super-ricos detêm recursos equivalentes aos 50% mais pobres da humanidade? Isso me entristece, mas infelizmente não me surpreende. É uma tendência progressiva, irrefreável: no ano passado, o segundo desses dados era igual a não mais de 47%.” Joseph Stiglitz, economista da Universidade de Columbia em Nova York, lê os dados desanimadores da Oxfam e compartilha a definição sintética da organização inglesa, com sede em Nairóbi: “out of control”, uma deriva fora de controle.

“Quem continua considerando os Estados Unidos como um modelo deveria refletir a respeito: essa curva dos acontecimentos tem a sua raiz justamente nos Estados Unidos.”

Stiglitz, depois de ganhar o Prêmio Nobel em 2001 pelos seus estudos sobre as “assimetrias” informativas que influenciam os mercados, começando pelo acionário (como as existentes entre gestores e “pessoas comuns”), dedica-se há muitos anos à pesquisa sobre as desigualdade e sobre os seus efeitos devastadores em termos de desenvolvimento social e bem-estar coletivo: “As injustiças sociais chegaram a tal ponto que ameaçam a democracia em todo o mundo”.

Eis a entrevista.

Por que, professor? Devido à violência que cada vez mais frequentemente explode a partir dos movimentos de protesto, como os Coletes Amarelos na França?

Não só. As formas de ataque à democracia estão mais sofisticadas, mais sutis. Tomemos novamente os Estados Unidos: entre nós, a ameaça assume o aspecto de manipulação dos colégios eleitorais, há quem fale até de fraude, e, em geral, de sujeição psicológica dos cidadãos diante dos ricos. É como se eles tivessem que mandar à força, e não só no local de trabalho. Eu chamo isso de “capitalismo gerencial”.

E os próprios gestores ganham centenas de vezes mais do que os seus empregados?

Infelizmente é assim. Não há como corrigir essa tendência. Pense-se no Dodd-Frank Act, a reforma do sistema bancário promulgada em 2010 para que não se repetissem os excessos e as distorções que levaram à crise financeira de 2008. Ela fixava limites muito precisos sobre as retribuições dos diretores-executivos, começando por aqueles dos bancos. Especialmente em termos de transparência, de modo que os acionistas tivessem bem claro o que aquele diretor ganharia. Pois bem, o lobby dos super-ricos, apoiados pelos melhores advogados, conseguiu não respeitar nunca essa disposição, a pisoteá-la no momento da emanação dos regulamentos de implementação, em suma, a não aceitar limites ao seu poder econômico. O princípio do “say and pay” dos acionistas, fala e paga, foi totalmente desatendido. Mas, para muitos, as desigualdades representam uma verdadeira tragédia coletiva: basta pensar no aspecto mais inquietante, o da saúde.

Devido às carências na assistência universal?

Não só. A chocante tragédia dos países pobres está debaixo dos olhos do mundo inteiro. Mas ainda estamos falando dos Estados Unidos, país onde, para além das meras estatísticas sobre o PIB, existem 20 milhões de pobres, dos quais entre cinco e dez milhões em pobreza absoluta: os republicanos agora no poder conseguiram desmantelar, senão tudo, uma boa parte do Obamacare. Agora, 13 milhões de norte-americanos estão novamente desprovidos de assistência gratuita. Tudo isso ditado pelas grandes empresas. Mas queremos falar de impostos? A reforma fiscal de Trump reduziu as alíquotas para as empresas, o que soa como uma ajuda aos amigos do presidente, mas até poderia ser aceitável porque muitas empresas voltaram a investir. Mas ela não aumentou para os indivíduos ricos, como a lógica exigiria, e, em vez disso, aumentou para a classe média. Resultado: um empobrecimento brutal e generalizado.

O senhor cita os Estados Unidos, mas as desigualdades não são apenas um problema norte-americano, pelo contrário.

É claro, tornaram-se uma constante em boa parte do mundo. E uma tragédia coletiva sem precedentes nos países emergentes. A Grã-Bretanha está alinhada com o modelo estadunidense, a Alemanha está um pouco melhor. Só a Austrália, país que eu aprendi a conhecer, conseguiu introduzir normas rigorosas e a fazer com que sejam respeitadas, temperando o enorme poder econômico dos capitães da indústria.

E a Itália?

Sinceramente, eu não estudei bem as dinâmicas italianas. Mas lhe digo uma regra geral. Os governos, especialmente aqueles que tendem à direita, e são cada vez mais no mundo, deveriam ter cuidado: não é verdade que taxando menos os ricos os benefícios recaem depois sobre a população. O contrário é verdade, ou seja, frequentemente, mais desregulamentação – e ainda mais quando o sistema financeiro é preponderante em relação com a economia real – leva a mais desigualdades e, portanto, a mais pobreza e injustiças.

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