O Frankenstein de Mary Shelley na Sapucaí

Frankenstein Beija-Flor. | Foto: Arte Beija-Flor

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15 Fevereiro 2018

"O livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” é realmente uma grande referência para o século XXI. Se no passado foi uma metáfora sobre as promessas da ciência e da tecnologia dos primórdios do capitalismo que, ao destruir a ordem do Antigo Regime, gerou inúmeras injustiças e grandes desigualdades sociais, na contemporaneidade, o livro serve de alerta contra os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que podem criar desastres nucleares como em Chernobyl e Fukushima, ou novos monstros, como a Inteligência Artificial desregrada, os transumanos imortais e os robôs assassinos. Viva Mary Shelley", escreve José Eustáquio Diniz Alvesdoutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 14-02-2018.

Eis o artigo.

A Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis trouxe para a Sapucaí, no carnaval 2018, uma justa homenagem ao livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu”, de Mary Shelley, que foi publicado originalmente no dia 01 de janeiro de 1818 e que, portanto, acabou de completar 200 anos.

 

(Foto: Twitter – @luizzffilipe)

O samba-enredo, comandado por Neguinho da Beija-flor e acompanhado pelo público na Avenida, teve como título “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”.

A ideia do enredo foi do coreografo Marcelo Misailidis, que aproveitou o mote do livro de Mary Shelley de apresentar um monstro criado pelo próprio ser humano e não como uma aberração da natureza. Um monstro que ameaça a ordem social e institucional não por sua maldade intrínseca, mas por ser o resultado de uma estrutura injusta, preconceituosa e excludente, que renega e não cuida das consequências não antecipadas e indesejáveis do modelo que prega ordem e progresso.

A Beija-flor apresentou um Brasil monstruoso e deformado pela corrupção, pela desigualdade, pela violência e pelas intolerâncias de gênero, racial, religiosa, esportiva, etc. As alegorias lembraram muito o icônico desfile “Ratos e Urubus”, de Joãozinho Trinta, de 1989.

A crítica social foi forte. Teve a ala dos roedores dos cofres públicos, a ala dos lobos em pele de cordeiro, a alegoria das transações ocorridas no prédio da Petrobras entre os políticos brasileiros e os empreiteiros. O carro encenando a violência cotidiana do Rio de Janeiro, mostrou crianças morrendo na escola, mães enterrando seus filhos, policiais baleados, caixões, ocorrências de assaltos e vidas devastadas. Vítimas da guerra ao tráfico de drogas e um destaque representou o encarceramento em massa nas prisões do Brasil. Aliás, os tiroteios, os assaltos e os arrastões proliferaram durante a folia de carnaval na Cidade Maravilhosa (cada vez mais monstruosa).

A ala “Imposto dos Infernos” trouxe a crítica às altas taxas cobradas desde o ciclo do ouro (Derrama) e relembrou o Brasil como o país que tem maior carga tributária. A “Corte da Mamata – Quadrilha” no poder trouxe os passistas como ratos e abutres para mostrar os interesses dos líderes políticos, satirizada com colarinhos brancos e caixas de pizza. Na festa pagã, também apareceu a “guerra santa brasileira”, representando a religião na política e o fundamentalismo religioso.

As baianas se vestiram de “santas do pau oco”, prática no Brasil colônia de esconder ouro dentro de imagens de santos. A ala “Ali Babá e os bobos”, mostrou o lucro excessivo dos vendedores de especiarias na era colonial. Mais atual, a ala “Vampiros sanguessugas exercem seus podres poderes”, representa os políticos como “morcegos-vampiros” que sugam o sangue do povo. Não faltou lobo em pele de cordeiro e suas malas de dinheiro.

A Beija-Flor também levou para a avenida a “farra dos guardanapos”, como ficou conhecido o jantar luxuoso que o ex-governador Sergio Cabral promoveu em Paris, no qual políticos e empresários do Rio, bêbados, foram fotografados com guardanapos na cabeça e hoje, a maioria está presa ou sob investigação.

 

(Foto: G.R.E.S Beija-Flor de Nilópolis – Facebook)

Evitando qualquer ufanismo, contornou a narrativa apologética do Brasil como uma “Terra adorada” e uma amada “Mãe gentil”, para mostrar “Os filhos abandonados da pátria que os pariu”.

Sem dúvida, há uma coincidência entre o fim da onda revolucionária que varreu a Europa no final do século XVIII e a crise lamentável e permanente da Nova República brasileira. O monstro criado por Mary Shelley é também uma metáfora sobre os filhos abandonados da Revolução Francesa e da corrupção dos ideais de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Mary Shelley (1797-1851) era filha de dois grandes expoentes do iluminismo, William Godwin – filósofo e político revolucionário que defendia as ideias libertárias da Revolução Francesa, escrevendo, dentre outros, o famoso livro “Inquérito acerca da justiça política” (1793) – e Mary Wollstonecraft – pioneira do feminismo moderno que escreveu o seminal livro “Reivindicação dos Direitos da Mulher” (1792).

Com seu marido – o famoso poeta romântico Percy Shelley (1792-1822) – o casal lutou contra a monarquia, a tirania, o militarismo, o preconceito religioso, a escravidão, a ignorância, as injustiças e as desigualdades de todos os tipos. Eles eram a favor da democracia, da liberdade de expressão, do anarquismo, do ateísmo, do vegetarianismo, do amor livre e de uma sociedade melhor e mais justa.

Percy Shelley, com sua ideologia social-libertária, defendeu o direito das pessoas se levantarem contra os governos, mas por meio da não-violência, o que influenciou a filosofia da “Desobediência civil” de Henry Thoreau e a “Satyagraha” de Mahatma Gandhi.

O escritor esloveno Slavoj Zizek, no livro “Em defesa das causas perdidas” (2011) diz: “É fácil mostrar que o verdadeiro foco de Frankenstein é a ‘monstruosidade’ da Revolução Francesa, sua degeneração em terror e ditadura. Mary e Percy Shelley eram estudiosos ardentes da literatura e das polêmicas relativas à Revolução Francesa. Victor cria seu monstro em Ingolstadt, a mesma cidade que Barruel – historiador conservador da Revolução cujo livro Mary leu repetidas vezes – cita como fonte da Revolução Francesa (foi em Ingolstadt que a sociedade secreta dos Illuminati planejou a revolução)”.

O livro “Frankenstein, ou o moderno Prometeu” é realmente uma grande referência para o século XXI. Se no passado foi uma metáfora sobre as promessas da ciência e da tecnologia dos primórdios do capitalismo que, ao destruir a ordem do Antigo Regime, gerou inúmeras injustiças e grandes desigualdades sociais, na contemporaneidade, o livro serve de alerta contra os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que podem criar desastres nucleares como em Chernobyl e Fukushima, ou novos monstros, como a Inteligência Artificial desregrada, os transumanos imortais e os robôs assassinos. Viva Mary Shelley!

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