"O fracasso da Igreja em defender os direitos gays contradiz o Evangelho", afirma jesuíta alemão

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Julho 2016

Um padre alemão criticou a homofobia sistêmica na Igreja Católica e o fez um dia depois que o Papa Francisco recomendou que a Igreja se desculpasse com as pessoas LGBT e com outras que ela tinha ferido.

A reportagem é de Bob Shine, publicada no blog Bondings 2.0, do grupo estadunidense New Ways Ministry, voltado à comunidade católica LGBT, 21-07-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O padre jesuíta Klaus Mertes, de Berlim, Alemanha, convidou a Igreja Católica a reavaliar como a homofobia funciona nos ensinamentos e nas práticas eclesiais, informou o site Global Pulse. Em um artigo para a revista acadêmica theologie.geschichte, Mertes destacou áreas onde a homofobia é reforçada pela doutrina da Igreja, assim como onde ela influencia o trabalho da Igreja. (Nota da IHU On-Line: a íntegra do artigo, em alemão, está sendo traduzida e será publicada nesta página)

Mertes começa dizendo que a homofobia viola o mandamento da caridade, e que a Escritura e o cristianismo primitivo claramente testemunham em prol de relações inclusivas e iguais em oposição à homofobia de hoje. Citando Gálatas 3, 28 – "Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo" – o padre diz que as adaptações modernas poderiam incluir que "não há mais diferença entre homossexual e heterossexual". Ele continua:

"O fato de a Igreja não poder se posicionar em defesa dos direitos humanos básicos das pessoas gays e de ainda permitir que altos representantes da Igreja defendam tradições culturais que ameaçam os homossexuais com a morte contradiz a mensagem do Evangelho."

Mertes examina como a homofobia na Igreja influencia a sua interpretação da Escritura. Ele observa que os preconceitos contemporâneos contra os gays "evitam um olhar histórico-crítico sobre passagens relevantes" na Escritura e nos textos históricos não canônicos. O preconceito leva alguns a preferirem uma "exegese bíblica fundamentalista" em desacordo com a abordagem histórico-crítica endossada durante o Vaticano II. Estudiosos têm desmentido repetidamente a ideia de que qualquer condenação bíblica da atividade homossexual possa ser entendida como uma condenação da compreensão moderna da orientação e das relações homossexuais.

Em segundo lugar, Mertes critica a doutrina da Igreja expressada no Catecismo da Igreja Católica. Ele reconhece não só a homofobia ativa nas explicações do Catecismo, mas também vê nele "pontos cegos e contradições performativas". Por exemplo, a homossexualidade é abordada no tratamento do Catecismo a ofensas contra a castidade, sugerindo, assim, que o simples fato de ser gay é uma ofensa, assim como quaisquer anseios e desejos. Mertes escreve:

"Isso afeta dolorosamente a experiência cotidiana das pessoas gays na Igreja. Em vez de ser atribuído ao campo da ‘castidade’, o tema da homossexualidade deveria ser tratado sob o título dos ‘direitos humanos’."

Quando o Catecismo fala contra a discriminação contra os gays, a mensagem é bizarra e "perde-se no meio de declarações discriminatórias" sobre a homossexualidade em outros lugares, observa Mertes. Sobre o número 2.358 do Catecismo, frequentemente citado, em que a Igreja é chamada a acolher as pessoas homossexuais com "respeito, compaixão e delicadeza", Mertes diz que isso é "paternalista e doloroso". Para aquelas pessoas que acreditam que a homossexualidade é uma cruz a ser carregada, Mertes responde que a cruz não é a orientação pessoal, mas sim a "aversão e a hostilidade da homofobia" imposta sobre alguém que é gay, lésbica ou bissexual.

O artigo, publicado em alemão, analisa outras áreas em que os preconceitos contra os gays afligem a Igreja. Mertes critica a compreensão platônica e aristotélica da sexualidade e do gênero, que impactou negativamente a doutrina e a teologia da Igreja através dos tempos. Ele contesta associações persistentes na Igreja entre a homossexualidade e os abusos sexuais de crianças; ele contesta rumores de um "lobby gay" no Vaticano; ele contesta as formas pelas quais a homofobia e a misoginia funcionam dentro de sociedades totalmente masculinas como o clero católico.

Mertes conclui contando a história do casal australiano que se dirigiu ao Sínodo de 2014 e falou sobre os seus amigos que têm um filho em um relacionamento gay. Os oradores australianos foram criticados posteriormente por trazer à tona o apoio dado pelos seus amigos ao casal gay. Mertes comenta a crítica:

"Isso reflete a face da homofobia. Eles não querem o discurso. Esse é o problema. Porque o discurso é como a pasta que já não pode mais ser empurrada para dentro do tubo. A homofobia experimenta o discurso como uma ameaça e, assim, luta contra ele, em vez de ouvir e argumentar. Mas a cena de Roma também mostra o poder da palavra pessoal: o discurso não é desencadeado pelo ‘falar sobre’ na terceira pessoa do singular, mas pelo falar na primeira pessoa do singular (ou plural). A contribuição mais importante para a redução da homofobia, portanto, é o discurso na primeira pessoa."

Essa não é a primeira vez que o padre Mertes critica a Igreja pela forma como ela aborda homossexualidade. Em uma entrevista de junho passado, ele disse que as lideranças da Igreja devem reformar a "mentalidade deficiente" que eles têm sobre essa questão e exaltar os católicos LGBT que permanecem na Igreja apesar da opressão. Comentando sobre as nações onde pessoas bissexuais, lésbicas e gays enfrentam a pena de morte, Mertes disse estar "chocado pelo fato de a Igreja ser tão silenciosa sobre essa questão". O padre alemão também é bem conhecido por denunciar abusos sexuais em uma escola jesuíta na Alemanha.

Muito do que o padre Mertes escreveu no artigo da revista não é novo, como a pesquisa bíblica ou as críticas de como as lideranças da Igreja entendem o abuso sexual por parte do clero. O que é surpreendente, no entanto, é a forma poderosa e concisa mediante a qual ele identificou uma homofobia sistêmica em todas as áreas da vida da igreja. Ao ler o artigo, até mesmo as pessoas LGBT e seus apoiadores serão tocados novamente pelos problemas profundos na abordagem da sexualidade e do gênero na nossa Igreja.

As duas melhores contribuições de Mertes são, em primeiro lugar, a sua recomendação de que a Igreja troque as lentes através das quais entende e se envolve com a homossexualidade, movendo o foco da castidade para os direitos humanos. Se uma edição atualizada do Catecismo fizesse apenas essa revisão, isso faria muito bem.

Em segundo lugar, o padre identificou novamente aquilo que os defensores da causa LGBT conhecem há muito tempo, ou seja, o poder da narrativa pessoal. Compartilhar histórias e falar na primeira pessoa convida à conexão e abre as mentes de uma forma muito poderosa.

A homofobia está intensamente presente na nossa Igreja, como Mertes deixa claro, mas eu tenho esperança, porque também estão intensamente presentes na nossa Igreja os testemunhos amorosos e corajosos das pessoas LGBT e de seus entes queridos, que rompem os preconceitos e constroem a justiça.

Veja também: