E o Papa Francisco acolhe também os Lefebvrianos

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22 Abril 2016

Um acordo poderia estar chegando com os padres da comunidade fundada por Marcel Lefèbvre. Após o encontro com o sucessor do bispo rebelde Bernard Fellay e Bergoglio, em 1º de abril passado, tornou-se atual a questão da plena readmissão dos ex-cismáticos, condenados por João Paulo II e aos quais Bento XVI retirou a excomunhão em 2009. Mas, sobre as questões mais delicadas, entre as quais a adesão às decisões do Concílio Vaticano II, o ecumenismo e a liturgia, a discussão poderá continuar também após um eventual acordo de tipo canônico. 

A reportagem é de Alberto Bobbio, publicada por Famiglia Cristiana, 20-04-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Foto: Famiglia Cristiana

Poderiam reentrar definitivamente na Igreja católica os ex-cismáticos da Fraternidade sacerdotal são Pio X, fundada por Marcel Lefèbvre, falecido em 1991? Após o encontro entre o sucessor do bispo rebelde D. Bernard Fellay e o Papa Francisco, em 1° de abril passado, a questão da readmissão plena dos ex-cismáticos, condenados por João Paulo II, aos quais Bento XVI retirou a excomunhão em 2009, se tornou atual. Fellay, falando no dia dez de abril com alguns jornalistas franceses em Puy-en-Velay, no Alto Loire, após ter celebrado uma missa para aproximadamente quatro mil peregrinos tradicionalistas, assegurou que o colóquio “estreitou os elos entre a Fraternidade e a Sé Apostólica” e definiu-o “uma alegria”, não obstante a publicação da Exortação do Papa sobre a família “Amoris Laetitia” que, disse Fellay, ”nos fez chorar”.

Que algo esteja de novo se movendo confirmou-o também o D. Guido Pozzo, o secretário da Pontifícia comissão “Ecclesia Dei”, constituída pelo Vaticano para ocupar-se da questão, o qual confirmou que o encontro “se coloca proficuamente no contexto do caminho da Fraternidade para a plena reconciliação que ocorrerá com o reconhecimento canônico do Instituto”. 

Pozzo explicou à agência “Zenit” como estão as coisas. Segundo Pozzo, sobre três questões, a saber a adesão à Profissão de fé, o vínculo dos sacramentos e a comunhão hierárquica com o Romano Pontífice se está próximo de um acordo, enquanto sobre as questões mais delicadas, entre as quais a adesão às decisões do Concílio Vaticano II, o ecumenismo e a liturgia, a discussão poderá continuar também após um eventual acordo de tipo canônico para a Fraternidade com um status especial, uma espécie de reconhecimento como Prelatura pessoal, isto é, uma diocese sem território segundo o exemplo do Opus Dei, o assim chamado “Ordenariado”, com menor liberdade canônica de manobra, segundo o exemplo daquele autorizado por Bento XVI para os anglicanos que solicitam retornar em comunhão com Roma, contestando a decisão sobre os bispos desposados e os gays, tomada pela comunidades anglicanas. 

A Declaração doutrinal que a Santa Sé pretende fazer firmar aos ex-cismáticos conteria somente estes três pontos, definidos por Pozzo como “essenciais e necessários”. Quanto ao Concílio, a mediação encontrada entre o Vaticano e os lefebvrianos seria aquela de dizer, segundo Pozzo, que isso “pode ser entendido de forma adequada somente no contexto da inteira tradição da Igreja e de seu Magistério”. Deste modo desapareceria a exigência que desde Karol Wojtyla a Joseph Ratzinger sempre fora feita aos seguidores do bispo rebelde, ou seja, aquela de uma formal aceitação dos textos do Vaticano II

Pozzo sublinhou, na entrevista, que “neste momento é importante contribuir a criar um clima sempre mais confiante e respeitoso para superar enrijecimentos e desconfianças”. Poderia, portanto, ser precisamente Bergoglio, o Papa a quem os conservadores em doutrina e pastoral não agradam, a resolver a questão? Fellay o espera, sustentando que eles são uma das “periferias” às quais o Papa sempre acena. Francisco, no início do ano jubilar sobre a misericórdia, concedeu aos sacerdotes lefebvrianos, com uma carta enviada ao bispo Rino Fisichella, coordenador do Jubileu, a faculdade de confessar validamente e, segundo fontes vaticanas, o colóquio com o Papa, de 1° de abril, confirmado pela Sala de Imprensa da Santa Sé e que durou mais de 40 minutos, teria tido como objeto a requisição de Fellay de considerar validamente para a Igreja católica todos os sacramentos celebrados pelos sacerdotes da Fraternidade. 

As relações entre Bergoglio e os membros da comunidade são definidos como muito bons por fontes da Fraternidade, os quais recordam que os teria ajudado quando era cardeal de Buenos Aires, facilitando a sua presença no País. Fellay, nestes anos de pontificado de Francisco, atacou por diversas vezes as escolhas da Santa Sé, mas sem jamais criticar verdadeiramente o papa, ao qual censura somente uma visão demasiado positiva do mundo. Aconteceu também para o Sínodo sobre a família, contestado duramente por Fellay, o qual, todavia precisou mais de uma vez que confia no Papa para corrigir as fugas da doutrina. 

Numa entrevista recente no site da Fraternidade Fellay falou de Bergoglio nestes termos: “É inclassificável, é impossível colocá-lo numa categoria, é tão imprevisível. A Fraternidade de São Pio X tem uma estreita relação com ele, tem acesso direito a ele e isto é um fato que pode parecer louco na situação atual”. Fellay, todavia, por mais vezes procurou colocar o Papa contra a Cúria e em particular a Congregação da doutrina da fé, da qual depende o dossiê Lefebvre. Na entrevista ele se pergunta “quem prevalecerá” e confirma que em Roma “alguns querem a nossa morte e fazer-nos condenar”.