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25 Março 2014

"Um exemplo de generatividade no mundo de hoje? O Papa Francisco. Ele encontrou uma Igreja cheia de problemas e a está enfrentando de modo corajoso, para levar o cristianismo à generatividade das origens".

Chiara Giaccardi, socióloga, não hesita um segundo ao identificar a testemunha do movimento que ela e o seu marido, Mauro Magatti, decidiram desenvolver. Ou, melhor, fecundar. E que está escrito em claras letras no título do seu livro: Generativi di tutto il mondo unitevi [Generativos de todo o mundo, uni-vos] (Ed. Feltrinelli, 148 páginas).

A reportagem é de Agostino Gramigna, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o que é a generatividade? O conceito provém da medicina, relacionado com a capacidade de gerar de um casal. Adaptado à sociologia, ele assume outro valor, o de imaginar e de repensar a própria liberdade. Porque o sociólogo Magatti está convencido, como bom generativo, que o cerne da crise que estamos atravessando (econômica, política e democrática) reside em um paradoxo: "Nunca atingimos níveis de liberdade tão elevados na história, mas não sabemos o que fazer com essa liberdade".

Giaccardi diz que começou a pensar na generatividade há muitos anos. Ou, melhor, reivindica que foi ela que refletiu, antes ainda que o marido, sobre a potencialidade muito forte da sua maternidade (o casal tem cinco filhos, mais um em processo de adoção): "Eu não podia limitar a minha experiência de generatividade unicamente ao aspecto biológico".

Magatti ouve e resume de modo mais conciso a questão: "Colocar um filho no mundo depois de uma relação sexual não basta para ser generativo. Depois, é preciso cuidar das crianças, acompanhá-las, cultivá-las, para depois, um dia, deixá-las ir embora".

Mas o que acontece hoje? "As pessoas de 30 ou 40 anos pensam nos filhos como uma coisa a mais, uma experiência a mais, como algo para se colecionar, acrescentar. A generatividade não é satisfação pessoal, e ponto final. Não pode ser reduzida ao desejo do prazer".

Generativo é o empresário que não se ocupa apenas com o lucro, mas faz crescer a própria empresa; o artesão e o artista que acrescentam beleza ao mundo; o profissional que faz triunfar a justiça; o professor que não se queixa dos seus alunos e os fazer crescer, ouvindo-os.

Generativo é quem transforma um trauma em energia positiva. Personalidades generativas sempre existiram, diz Magatti. O argumento que está na base do seu manifesto é que a crise que atravessamos tem uma origem precisa: os anos 1960. É a partir dessa data que começa a era do bem-estar, do crescimento, dos direitos, do pluralismo cultural, em um contexto de liberdade absoluta.

"Porém, devemos nos perguntar como conseguimos construir uma democracia tão frágil. A ideia individualista extrema de que cada um de nós tem o direito ao prazer não se sustenta mais".

A receita do movimento generativo? "Um modelo de crescimento que faça do consumo não mais o seu centro. O consumo deve ser uma consequência da produção de valor através da inovação e da pesquisa";

Marido e mulher, porém, tendem a se distanciar de certas teorias do decrescimento, à la Serge Latouche, por exemplo, que encontraram muito espaço na mídia durante os anos da crise. "Defendemos o crescimento. Devemos ser consumidores. Se comemos, vivemos. A primeira fase da liberdade de massa insistiu em pôr para dentro, explorar, consumir, pegar. Não não condenamos esse movimento de pôr para dentro. Pensamos que o ser humano também deve pôr para fora, essa é a generatividade".

Os sujeitos? O potencial generativo? Giaccardi diz que é transversal. O seu marido, ao invés, está convencido de vez que as mulheres têm um forte impulso generativo. Assim como os jovens. Eles são conscientes disso? "Não", responde seco. Não é por nada que marido e mulher lançaram um manifesto.