''Caro Bergoglio, caro Scalfari, isso não nos diz respeito''. Artigo de Elisabetta Addis

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18 Setembro 2013

Talvez, o diálogo de Bergoglio e Scalfari não diga mais respeito a nós, homens e mulheres da contemporaneidade, mas sim a um poder e a um mundo masculinos que estão no passado, e que são do passado.

A opinião é da economista italiana Elisabetta Addis, professora da Universidade de Sassari e da Libera Università Internazionale degli Studi Sociali Guido Carli de Roma. O artigo foi publicado no sítio HuffingtonPost.it, 12-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sim. Bonita carta, Bergoglio. Mas não diz respeito a mim. De fato, ela diz respeito à "relação que Ele (Jesus) tem com Deus que é Abbá e, nessa luz, à relação que ele tem com todos os outros homens". E eu sou uma mulher.

"Nele, todos somos chamados a ser filhos", e eu, no máximo, posso ser uma filha, "irmãos entre nós", mas de irmãs não se sente o cheiro. E ainda que "o amor e a misericórdia de Deus chegam a todos os homens", Mas não às mulheres.

Ao menos há 30 anos estamos pedindo o elementar respeito de que se use uma linguagem que nos inclua, uma linguagem não sexista. E, já que custa bem pouco, na época dos processadores de texto, substituir "homem" por "ser humano" e "homens" por "homens e mulheres", eu interpreto que há uma clara vontade, por parte de um velho homem à frente de uma hierarquia de homens apenas, de me fazer entender que não é a mim que ele se dirige.

E, falando francamente, o La Repubblica também não nos dá uma boa imagem. No dia seguinte, faz com que a carta do papa seja comentada pelo homem Scalfari e por outros seis homens, todos em fila (Küng, Veronesi, Bianchi, Cacciari, Forte e Di Segni), e nenhuma mulher. Murgia, não? Perroni? Bocchetti? Cavarero? Não nos faltam teólogas e filósofas! Paciência. Não nos diz respeito. Vê-se justamente que a nós, mulheres, não diz respeito.

Além disso, que a verdade encontra-se na relação, as filósofas disseram isso bem antes de Francisco, não esperaram o seu imprimatur. E, sem as relações com as mulheres, entre homens e mulheres, a verdade de Bergoglio e de Scalfari permanecerá incompleta. Uma verdade célibe e infecunda.

Talvez, esse diálogo não diga mais respeito a nós, homens e mulheres da contemporaneidade, mas sim a um poder e a um mundo masculinos que estão no passado, e que são do passado. Sigamos em frente, temos muitíssimas coisas mais interessantes para fazer e pensar.