O lado cômico da tradução litúrgica

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20 Outubro 2012

Sejamos sinceros: um Sínodo dos Bispos, quando cerca de 300 prelados e outros participantes se reúnem por três semanas para aconselhar o papa sobre algum assunto, não é exatamente um motivo de risadas. Durante a fase de abertura, apresenta-se um discurso de cinco minutos após o outro, alguns deles de uma retórica teológica elevada e outros de uma sincera “cris de coeur” sobre situações específicas. Poucos, no entanto, são realmente calculados para provocar risos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 16-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Isso tornou a apresentação do dia 16 do arcebispo Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de Jacarta, Indonésia, especialmente memorável, porque ele esboçou o que um participante descreveu mais tarde como uma "risada sincera" ao falar sobre um assunto tipicamente visto como especialmente inadequado para um efeito cômico – a tradução litúrgica.

O argumento básico de Suharyo foi sobre a necessidade de flexibilidade na tradução, baseada em diferenças culturais. Ele, então, apresentou um caso especialmente revelador sobre a questão em sua própria vizinhança.

"Quando o padre se dirige ao povo, Dominus vobiscum, as pessoas devem responder: Et cum spiritu tuo", disse ele (em português, "O Senhor esteja convosco", seguido por "Ele está no meio de nós" [na nova tradução em inglês, a resposta é "E com teu espírito"). No entanto, disse Suharyo, a palavra "espírito", na tradução em sua língua local, é roh, o que muitas vezes denota um espírito maligno.

Assim, veio a sua piada: uma tradução literal de et cum spiritu tuo significa que algumas comunidades se verão dizendo: "E com o teu espírito maligno!".

Suharyo, 62 anos, fez, então, um forte apelo por uma maior "subsidiariedade", ou seja, por uma permissão para que as Igrejas locais assumam algumas dessas coisas por conta própria.

"O meu desejo – e eu espero que eu não esteja sozinho – é que a tradução dos textos litúrgicos não deva ser sempre feita literalmente, mas sim levar em conta seriamente a diversidade do pano de fundo cultural", disse. "Será que o princípio de subsidiariedade pode ser aplicado na tarefa da tradução e até mesmo em outras áreas da vida da Igreja local?"

A subsidiariedade, disse Suharyo, é "o espírito do Vaticano II".

"Dessa forma, a Igreja local irá se tornar mais comunicativa e expressiva", afirmou, "e, como resultado, a fé do povo ficará mais fortalecida e será mais relevante para as suas vidas católicas e o seu engajamento tanto na Igreja quanto no mundo".