“O humor aproxima de Deus”, afirma Francisco no encontro com a família focolarina

Papa Francisco (Fonte: Wikimedia Commons)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Mai 2018

“O contrário de ‘eu’ não é ‘você’, mas ‘nós’”. O desafio “histórico é construir uma cultura do encontro e uma civilização da aliança”. Foi o que o Papa Francisco afirmou em Loppiano, ao se reunir com o Movimento dos Focolares, fundado por Chiara Lubich (1920-2008). O Pontífice disse aos Focolares: a atitude que aproxima de Deus é “o humor”.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por Vatican Insider, 10-05-2018. A tradução é do Cepat.

A visita pastoral do Pontífice, hoje, 10 de maio de 2018, começou em Nomadélfia, prossegue e termina em Loppiano, na província de Florença e na Diocese de Fiesole, onde visitou a Cidade Internacional dos Focolares.

O helicóptero aterrissou no campo esportivo. Era aguardado por dom Mario Meini, bispo de Fiesole, Maria Voce, presidenta do Movimento dos Focolares, e Jesús Morán, copresidente do Movimento.

O Papa Bergoglio se dirigiu ao Santuário de Maria Theotokos, onde rezou diante da imagem da Virgem de Theotokos. Em seguida, reuniu-se com a família focolarina.

Após a saudação de Maria Voce, três representantes fizeram algumas perguntas ao Papa. E Francisco começou a lhes responder com muito bom humor, apontando o discurso que havia preparado: “Quatorze páginas, ficariam entediados!”.

Francisco agradeceu a Maria Voce “por sua introdução, clara, tudo claríssimo. Nota-se que possui as ideias claras”. Em seguida, disse que estava muito contente de estar, “aqui, entre vocês, em Loppiano, nesta pequena cidade conhecida no mundo porque nasceu do Evangelho e quer se alimentar do Evangelho”.

O Pontífice também quis visitá-la porque, “conforme destacava aquela que foi sua inspiradora, Chiara Lubich, quer ser uma ilustração da missão da Igreja hoje, tal e como a traçou o Concílio Ecumênico II”.

Bergoglio também agradeceu “aos ‘pioneiros’ de Loppiano”, que há mais de 50 anos, “e depois sucessivamente, nas décadas seguintes, lançaram-se nesta aventura, deixando suas terras, suas casas e seus postos de trabalho para vir, aqui, gastar a vida e realizar este sonho”.

Recordou a todos os habitantes de Loppiano “as palavras que a Carta aos Hebreus dirige a uma comunidade cristã que vivia uma etapa de seu caminho semelhante à de vocês. Diz a Carta aos Hebreus: ‘Recordem os primeiros tempos: haviam acabado de ser iluminados e já tiveram que suportar um áspero e doloroso combate, algumas vezes expostos publicamente a injúrias e atropelos e em outras se solidarizando com os que eram tratados dessa maneira. Vocês compartilharam, então, os sofrimentos dos que estavam na prisão e aceitaram com alegria que fossem despojados de seus bens, sabendo que possuíam uma riqueza melhor e permanente. Não percam então a confiança (parrésia), para a qual está reservada uma grande recompensa. Vocês precisam de constância (hypomoné) para cumprir a vontade de Deus e entrar em posse da promessa’”. Nesta passagem, explicou Francisco, as palavras-chave são parrésia e hypomoné. Parrésia, no Novo Testamento, “indica o estilo de vida dos discípulos de Jesus: a coragem e a sinceridade ao oferecer testemunho da verdade e da confiança em Deus e em sua misericórdia”.

E hypomoné, “que podemos traduzir como o ‘estar abaixo’, o permanecer e aprender a habitar as situações difíceis que a vida nos apresenta. Eis, aqui, duas palavras-chave da comunidade cristã: parrésia e hypomoné, confiança e coragem, franqueza e tolerar, perseverar, levar o peso de cada dia sobre os ombros”.

Para São Paulo, o fundamento “da perseverança é o amor de Deus derramado em nossos corações com o dom do Espírito, um amor que nos precede e que nos torna capazes de viver com tenacidade, com serenidade, com positividade, com fantasia... e também com um pouco de humor, inclusive nos momentos mais difíceis”. O humor, acrescentou o Papa, “é a atitude humana que mais se aproxima da graça de Deus”. E contou a anedota de um sacerdote: “Eu conheci um santo padre comprometido até aqui de trabalho, ia para todos os lados, mas nunca deixava de sorrir, e também quando tinha este senso de humor, e os que o conheciam diziam: ‘É capaz de rir dos outros, de si mesmo e até da própria sombra”. Assim é o humor. Não o deixem”.

O que Chiara Lubich imaginou e desejava é uma “cidade que tem o seu coração na Eucaristia” e que se apresenta “aos olhos de quem a visita também em seu aspecto laico e festivo, includente e aberto: com o trabalho da terra, as atividades da empresa e da indústria, as escolas de formação, as casas para a hospitalidade e os anciãos, as oficinas artísticas, os complexos musicais, os modernos meios de comunicação...”. E a dos Focolares é uma “família na qual todos se reconhecem filhos e filhas do único Pai, comprometidos em viver entre si e com todos o mandamento do amor”. “Não para ficarem tranquilos e fora do mundo, mas para sair, para encontrar, para cuidar, para colocar as mãos cheias de fermento do Evangelho na massa da sociedade, sobretudo onde mais se necessita”.

O Papa aconselhou a fazer uma “prova” que um sacerdote lhe submeteu: “Vocês podem fazê-la e também com os outros, brincando... Um padre que está aqui, está meio escondido, fez comigo esta prova. Disse-me: ‘Diga-me, padre, o que é o contrário de ‘eu’, o oposto de ‘eu’? E eu caí na armadilha e lhe disse imediatamente: ‘Você’. Disse-me: “O contrário de cada individualismo é “nós”, o oposto é “nós”. É esta espiritualidade do nós que vocês devem levar adiante. É ela que nos salva de qualquer interesse egoísta. Não é somente um fato espiritual, mas uma realidade concreta com consequências formidáveis”. É a “espiritualidade do nós”.

Em Loppiano, continuou Francisco, vive-se a experiência de caminhar juntos, com estilo sinodal, como Povo de Deus”.

Por isso, é possível impulsionar novamente os caminhos de “formação que floresceram em Loppiano”, graças “ao carisma da unidade: a formação espiritual com as diferentes vocações; a formação para o trabalho, ação econômica e política; a formação para o diálogo, em suas diferentes expressões ecumênicas e inter-religiosas e com pessoas de diferentes convicções; a formação eclesial e cultural”. Loppiano é “cidade aberta. Loppiano é cidade em saída”. Em Loppiano, “não há periferias”, ressaltou Francisco.

A eficácia e o alcance em grande escala deste “auspicioso compromisso” fica demonstrado com duas “realidades que surgiram em Loppiano: o Polo empresarial Lionello Bonfanti, centro de formação e difusão da economia e da comunhão; e a experiência acadêmica de fronteira do Instituto Universitário Sophia, erigido pela Santa Sé, e do qual uma sede local (e me alegro vivamente por isso) será ativada em breve na América Latina”.

O Papa observou que “a história de Loppiano só está começando, vocês estão no início, é uma pequena semente lançada nos sulcos da história. Isto requer humildade, abertura, sinergia e capacidade de se arriscar. Devemos usar tudo isto: humildade e capacidade de risco, tudo junto, abertura e sinergia, as urgências muitas vezes dramáticas que nos interpelam por todas as partes não podem nos deixar tranquilos. Na mudança de época que estamos vivendo (não é uma mudança de época, não, é uma época de mudança)” é preciso “se comprometer não só pelo encontro entre as pessoas, entre as culturas e os povos e por uma aliança entre as civilizações, mas para vencer todos juntos o desafio histórico de construir uma cultura compartilhada do encontro e uma civilização global da aliança”.

E Francisco aconselhou a ler os Atos dos Apóstolos, porque “é o exemplo maior”, para ver como foram capazes de permanecer fiéis ao ensinamento de Jesus e fazer tantas loucuras, porque sabiam conjugar esta fidelidade criativa. Leiam este texto da Escritura porque aí encontrarão o caminho desta fidelidade criativa”.

“E não se esqueçam – concluiu antes de rezar uma Ave Maria com os presentes – que Maria era leiga, era uma leiga! A primeira discípula de Jesus, sua Mãe, era leiga; aí, há uma grande inspiração e um bom exercício que podemos fazer. Desafio vocês para o realizaram: tomar os mais conflitivos passos da vida de Jesus e ver como Maria reage”, perguntar-se “como Maria teria reagido”.

Leia mais