Viúva de Guimarães Rosa morre em SP aos 102

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05 Março 2011

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, a quem o escritor mineiro João Guimarães Rosa, seu marido, dedicou "Grande Sertão: Veredas" (1956), morreu ontem em São Paulo, aos 102, de causas naturais, segundo a família.

A reportagem é de Laura Capriglione e Estêvão Bertoni e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 04-03-2011.

Chamada de "o Anjo de Hamburgo" por ter ajudado centenas de judeus a sair da Alemanha nazista, Aracy teve seu nome inscrito no Jardim dos "Justos entre as Nações" do Museu do Holocausto de Israel. A honraria é concedida aos não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus do extermínio durante o regime de Hitler.

Aracy nasceu em 20 de abril de 1908, na cidade paranaense de Rio Negro, filha de pai português e mãe alemã.

Aos 20 anos, casou-se com Johan Tess. O casamento durou pouco e resultou no único filho de Aracy, Eduardo. Em 1934, já separada (numa época em que não existia o divórcio no Brasil), foi para a Alemanha com Eduardo.

Culta e poliglota, conseguiu emprego no consulado brasileiro em Hamburgo como chefe do setor de vistos.
A solidariedade ativa aos judeus Aracy iniciou logo depois do episódio conhecido como "Noite dos Cristais", em 9 de novembro de 1938, quando bandos nazistas atacaram casas judaicas e sinagogas, deixando 90 mortes.

Ao mesmo tempo, no Brasil, o governo de Getulio Vargas punha em prática a Circular Secreta 1.127, política antissemita, que restringia a imigração de judeus.

"Além de providenciar os vistos que permitiam aos perseguidos sair da Alemanha, Aracy ajudou pessoalmente na fuga", lembra o jornalista e sociólogo René Decol.

Em 1938, Guimarães Rosa, na época também separado, foi nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo. O casal se conheceu lá. O escritor aprovou a atividade de Aracy em relação aos judeus. Em 1942, ambos voltaram ao Brasil, quando o país declarou guerra à Alemanha. Vários críticos literários dizem que é nesse ponto que começa, de fato, a carreira literária de Rosa.

O escritor morreu em 1967. Na ditadura militar brasileira, logo após a promulgação do AI-5, em 1968, Aracy escondeu em seu apartamento no Rio o compositor Geraldo Vandré, perseguido por causa da música "Pra Não Dizer que não Falei de Flores".

Além do filho, Aracy deixa quatro netos e oito bisnetos.