A Meditação Zen e a Recuperação da Memória: breves anotações

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05 Setembro 2014

"A meditação Zen é, portanto, esse esforço para voltar à casa, exigindo duas atitudes essenciais: desapego e entrega", escreve Faustino Teixeira, professor e pesquisador do PPG em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF.

Segundo ele, "o estado meditativo, diferentemente do estado de vigília ou daquele estado de “final de expediente”, fadado ao sono, é marcado por um ritmo distinto: de imobilidade e relaxamento, mas de atenção desperta. Trata-se de um estado de concentração singular, que os budistas nomeiam como samadhi, em que a mente vem mantida “com foco sem foco”, sem apegos a pensamentos".

Eis o artigo.

Numa de suas obras mais importantes, Bendowa (O caminho religioso), Mestre Dogen enfatiza a importância do Zazen, visto por ele como um “ponto central e irrenunciável” do ensinamento de Sakyamuni (Buda). A tarefa primordial dos Patriarcas Zen foi a de buscar transmitir corretamente, de mestre para discípulo, a prática do Zazen, mantendo vivo o seu ensinamento.

Há que buscar refletir hoje sobre o significado da meditação Zen Budista, com o recurso de textos de Dogen, mas também da límpida e didática reflexão sobre o tema tecida por José Carlos Michelazzo, que a meu ver é um dos mais competentes e generosos autores nacionais que tratam desse tema.

O texto em questão é: “Desapego e entrega: atitudes centrais da meditação Zen Budista e suas ressonâncias nos pensamentos de Eckhart e de Heidegger”. Esse texto foi apresentado no V Colóquio sobre o Pensamento Japonês (São Paulo, novembro de 2010 – e publicado na Revista REVER da PUC-SP, Ano 11, n. 2, jul/dez 2011). Não quero abordar todo o texto, mas um aspecto que considero fundamental apresentado ali.

Michelazzo, de forma divertida, começa sua introdução comentando algumas falas corriqueiras sobre a meditação Zen apresentadas na internet. Numa delas alguém fala da importância da meditação no tempo atual: “Para quem anda atribulado e assoberbado, a meditação pode ser aquela pausa vinda para 'zerar`o cérebro e conseguir, ainda que por instantes, suprimir os pensamentos angustiantes”. Michelazzo se pergunta o que um mestre Zen diria de opiniões como estas. E para nossa surpresa e “desapontamento”, ele provavelmente diria: “Mas isso é verdade!”.

De fato, a meditação provoca tudo isso. Não são observações falsas, diria o mestre, mas “secundárias” diante do que a meditação traz como essencial. Na prática Zen Budista o que a meditação envolve é algo de muita profundidade, que supera a visão da “dualidade ilusória” e aponta para a “não dualidade salvífica”, que é libertadora.

Mas para entender isso é necessário recuperar um dos mais importantes pressupostos do budismo, que está expresso no Sermão das Quatro Verdades, ou seja, a “originação dependente” (pratityasamutpada) ou “originação reciprocamente condicionada”. Esse pressuposto é ESSENCIAL e indica algo que é singular: todos nós estamos envolvidos numa “teia de interdependência” da qual ninguém pode escapar. O que ocorre, infelizmente, é que nos esquecemos disso.

O Zen Budismo propõe ousadamente a busca de recuperação desta perspectiva, num empenho decidido em favor da ultrapassagem desse modo secundário ou ilusório de compreender o real na linha de um modo mais ORIGINÁRIO.

O pensamento ocidental, mesmo aquele mais arrojado de um Martin Heidegger, não conseguiu superar resquícios de antropocentrismo que não dão conta de captar essa não-dualidade. Talvez tenha sido o cerne da crítica feita a Heidegger por alguns pensadores da Escola de Kyoto. Entender a “originação dependente” no âmbito do Zen Budismo é buscar captar o significado mais profundo daquilo que Dogen chamou de “prática contínua”.

Numa de suas obras, Gyoji (do Shobogenzo), Dogen sinaliza que “a partir da perspectiva da 'originação dependente' (pratityasamutpada), há simplesmente prática contínua”. O que isso significa? Para que haja prática contínua é necessário quebrar o lastro antropocêntrico que mantém aceso o resquício de dualidade e de auto-centralidade.

Quando se supera isso, segundo Dogen, abre-se um novo campo de percepção e penetração do real: abre-se a possibilidade “de experienciar as polaridades do real em sua completa interpenetração”. Gyogi significa exatamente isso: fazer a prática e se manter nela. E isso não é só possibilidade para humanos, mas para todos os seres, daí talvez a dificuldade antropocêntrica de Heidegger. Para Dogen, diferentemente, “a prática contínua pertence a todos os seres do universo”.

Diz Dogen: “Devido à prática contínua há o sol, a lua, as estrelas, a grande terra e a vastidão do espaço (...). Ver uma flor se abrindo ou uma folha caindo no presente momento é ver plenamente o que a prática contínua é. Não há nenhum polimento de espelho ou quebra de espelho que não seja prática contínua”. É uma prática que traduz essa “teia de interdependência que faz com que todas as existências de todos os seres sejam regidas por uma trama global, total, cósmica”.

Tudo o que está aí, tudo o que é, diz Dogen, está regido por esse exercício contínuo da teia cósmica. Tudo está ligada a uma “prática da coexistência”. Isso é de uma riqueza única... Para ilustrar essa trama, Michelazzo recorre ao exemplo do peixe dado por Dogen: “O peixe nada na água; a água para o peixe é vida (... por isso) se um peixe deixa a água ele, imediatamente, perece” (Dogen).

O que confere significado pleno à vida do peixe é essa “completa interpenetração com a água. Não há caminhos objetivamente pré-estabelecidos na água para o peixe nadar porque ele não os estuda antecipadamente. Os caminhos surgem para o peixe ao praticar o nado; peixe e água formam uma unidade não-dualística que é costurada pela prática da natação. E quando essa unidade é quebrada, a essência do peixe, sua piscidade, desaparece” (Michelazzo).

Isso é fantástico, e nos ajuda a entender, e como, tudo o que Viveiros de Castro busca traçar sobre o perspectivismo. Mas voltemos ao Zen. Michelazzo assinala que nós, humanos não damos conta de entender “como o peixe se exercita nessa teia cósmica”, e talvez nunca conseguiremos saber: qual “a postura correta adotada pelo peixe para a sua prática contínua”. E aqui Michelazzo encontra uma chave preciosa para entender a situação de nós, modernos, enredados num antropocentrismo desatento. Ele diz:

“Há nessa constatação paradoxal um aceno da condição humana que pode ser aprendida, talvez, pelas seguintes questões: será que a exclusividade do homem não estaria, então, relacionada ao exercício de uma prática especificamente humana, pelo fato dele ser, dentre todos os seres, o ÚNICO QUE SE ESQUECEU DA TEIA CÓSMICA, que perdeu a memória de sua originação dependente, de sua não dualidade? E por esse esquecimento e perda lhe é exigido um ESFORÇO DIFÍCIL E CONTÍNUO para se entregar ao que originariamente ele é, e, assim, fazer o caminho de volta à sua própria casa?” (Michelazzo).

A meditação Zen é, portanto, esse esforço para voltar à casa, exigindo duas atitudes essenciais: desapego e entrega. E o estado meditativo, diferentemente do estado de vigília ou daquele estado de “final de expediente”, fadado ao sono, é marcado por um ritmo distinto: de imobilidade e relaxamento, mas de atenção desperta. Trata-se de um estado de concentração singular, que os budistas nomeiam como samadhi, em que a mente vem mantida “com foco sem foco”, sem apegos a pensamentos.

Não há mais objeto ou coisa sobre a qual a atenção se debruça, a atenção é agora distinta, plena, e seu ritmo é aquecido pelo vazio, pelo “sem porque”. E nessa sensação de calma e tranquilidade o ser humano tem melhores condições de perceber sua dimensão absolutamente contingente e também a contingência dos fenômenos; e também da insubstancialidade de todas as coisas.

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