A vida sacrificável por um sistema de trabalho movido pelo capital 

Evento discute sobre jornadas de trabalho como políticas de saúde no Instituto Humanitas Unisinos – IHU nesta quinta-feira, 30-04-2026 

Foto: Afia Raísa | Unsplash

Por: Luana de Oliveira | 29 Abril 2026

A engrenagem do sistema capitalista não para e as consequências de um trabalho massivo na indústria podem ser catastróficas para o ser humano. Segundo dados do novo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos devido a problemas de saúde relacionados a riscos psicossociais, como longas jornadas de trabalho, insegurança no emprego e assédio no ambiente laboral. A pesquisa também relata que esses problemas são responsáveis pela perda de quase 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade por ano, o que reflete nos anos de vida saudáveis perdidos devido a doença, incapacidade ou morte prematura. 

É por isso que discussões sobre políticas de trabalho e direitos são essenciais para que haja uma reparação e reintegração de práticas que protejam o trabalhador. Nesse cenário, os sindicatos trabalhistas são essenciais. Contudo, essas instituições muitas vezes não chegam a comunidades rurais, onde industriais têm se instalado para manter o controle sobre a mão de obra, acelerando processos, sem que haja amparos dignos ao trabalhador.  

Trabalhos em fábricas, metalúrgicas e em outros centros de produção em massa costumam exigir uma demanda de trabalho constante, regrada e cronometrada, tendo uma exigência muito maior de cada funcionário que muitas vezes se encontra em uma posição desconfortável e cansativa por horas a fio, muitas vezes com apenas 1 hora de descanso, em um período de 8 horas trabalhadas. A indústria 4.0 avança e o trabalhador segue correndo para poder acompanhá-la, em um cenário exigente que causa adoecimento.  

A vida sacrificável: jornadas de trabalho como políticas de saúde  

Na próxima quinta-feira, 30-04-2026, o professor e doutor em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Everton de Oliveira debate sobre a vida sacrificável em jornadas de trabalho e como as políticas de saúde no ambiente de trabalho são necessárias para conter mais doenças, em evento promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A videoconferência será realizada às 17h30min.  

 Everton e sua esposa Carla se mudaram em 2015 para a cidade de São Martinho, uma colônia alemã localizada no interior do Rio Grande do Sul. O professor morou durante quatro anos no município, enquanto realizava sua pesquisa de doutorado, analisando as situações de trabalho dos moradores, principalmente no meio fabril.  

A partir de sua análise, o pesquisador concluiu que “quando o capitalismo se organiza em um universo no qual o trabalho é o principal qualitativo de uma vida moral, dedicar-se ao trabalho pode se tornar uma sentença e uma consagração. Leva mulheres e homens à exaustão irrefreável ao longo da vida, produzindo um corpo sacrificado e sacrificável, de valor monetário e moral”.   

Ao acompanhar as condições trabalhistas e adoecimentos de trabalhadores, Oliveira explica, através das definições de capitalismo descritas por Ariadna Estévez, que é da natureza do neoliberalismo “sacrificar corpos para o sucesso econômico, tratar a vida como a moeda de troca da estabilidade econômica”, ou seja, “é justamente a vida que está à venda, no que toca àqueles que são esquecidos pelo poder público”.  

Atualmente, o professor está à frente da Secretaria de Estado da Mulher e em suas palestras debate sobre o trabalho e ações que possam melhorar as condições trabalhistas, como a NR-01, que entrará em vigo a partir de 26 de maio de 2026.  

Fim da escala 6x1 e os benefícios que ela pode trazer no âmbito do trabalho  

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU tem publicado o Dossiê Fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho, realizado e organizado pelo Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit)/Unicamp, Site DMT, Remir, GEPT/UNB e FCE/UFRGS. Nesse dossiê há discussões importantes em torno do fim do modelo 6x1, principalmente em prol dos direitos trabalhistas que implicam na saúde do trabalhador.  

Em um dos textos do dossiê, os pesquisadores Emerson Victor Hugo Costa de Sá e Péricles Rodrigues Marques de Lima, afirmam que “a efetiva redução da jornada de trabalho depende de uma reestruturação dos processos de produção, da reorganização do ritmo do trabalho e do fortalecimento das fiscalizações, de modo a garantir que a proteção do trabalhador não seja apenas formal, mas concreta”. Para os auditores fiscais do Trabalho no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as “políticas públicas estratégicas de controle e participação dos trabalhadores são essenciais para equilibrar a lógica da produção com a necessidade de tempo livre, saúde e qualidade de vida”.  

Após sua aprovação em regime de urgência pelo governo, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6x1 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmera dos Deputados e segue para uma comissão especial da Câmara, que será responsável por analisar o mérito da proposta, com a participação da sociedade e de setores envolvidos, antes da votação em plenário.  

Serviço  

O quê: "A vida sacrificável. Jornadas de trabalho como política de saúde"  

Quando: 30-04-2026, às 17h30min 

Quem: Everton de Oliveira, doutor em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, e mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (PPGS-UFSCar). Possui graduação em Ciências Sociais pela mesma universidade (UFSCar). Atualmente é Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental do Estado do Rio Grande do Sul, na Secretaria de Estado da Mulher, além de pós-doutorando no International Postdoctoral Program (IPP) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).   

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU  

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ihu-ideias

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