Uberização bancária. Artigo de Fernando Nogueira da Costa

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18 Abril 2026

A uberização dos serviços e a preservação da hierarquia: por que a modernização tecnológica altera a forma de acesso ao sistema, mas não a estrutura de poder do funding.

O artigo é de Fernando Nogueira da Costa, publicado por A Terra é Redonda, 15-04-2026.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).

Eis o artigo.

1.

A ideia de “uberização bancária” das fintechs refere-se a um arranjo institucional no qual muitas empresas financeiras digitais aparecem para o cliente como “o banco”, mas a infraestrutura financeira profunda – liquidação, funding, balanço e risco – continua concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no transporte urbano com plataformas digitais: a interface mudou, mas a infraestrutura subjacente permaneceu concentrada.

No sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo, Nubank, Banco Inter e C6 Bank.

Na camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária, o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a gestão de risco e o capital regulatório. Essa camada continua altamente concentrada em grandes instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) conforme indicam os balanços bancários.

O papel da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil, foi reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora qualquer instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos digitais e contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.

Mas o Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs possuem estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.

Mesmo oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem estruturalmente de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de recursos, funding de crédito e emissão de determinados instrumentos financeiros.

Uma fintech oferece uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura financeira. A dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.

Quem controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão de risco com base em grande banco de dados.

2.

Os grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs acabam originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou securitizando esse crédito para instituições maiores.

É possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como interface apps e como infraestrutura motoristas e frota. O streaming tem como interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O comércio eletrônico tem como interface o marketplace e como infraestrutura logística. No sistema financeiro, na camada de interface é ator a fintech, mas no balanço e liquidez o ator é o grande banco.

Esse arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o funding do sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios continuam concentrados.

O possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com fintechs e aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos sistêmicos continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do crédito e do funding.

A “uberização bancária” significa fintechs dominarem a interface digital com o cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço financeiro e o crédito. Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de acesso ao sistema, mas não necessariamente a estrutura de poder dentro dele.

No entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode alterar profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.

Há uma mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de crédito e depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados, semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por três transformações interligadas.

Na primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas, pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e integração com aplicativos.

3.

O fluxo de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto mais o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar serviços adicionais.

Há integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix, crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e marketplace financeiro. Assim, o aplicativo no mobile banking (celular) deixa de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos serviços financeiros.

Dados financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais precisa e criar ofertas automáticas.

Essa lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta de serviços.

O efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.

O papel institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como Pix, open finance e novos tipos de instituições de pagamento.

Essas iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais integradas.

Isso poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs especializadas: empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou investimentos); (c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance capazes de conectarem todos os participantes.

Nesse cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos isolados.

Em síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.

Por isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande parte das transações e serviços financeiros da economia.

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