Migrantes, vírus, igreja: é o ponto de ruptura

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16 Novembro 2021

 

"Nesse imenso lodaçal de contradições e de ferozes incursões contra qualquer um que seja fraco, enquanto o contínuo ativismo de uma pandemia é um vento maléfico que não acaba e não se explica, enfraquecendo o prestígio de quem deveria conduzir à salvação, o ponto de ruptura se amplia", escreve Furio Colombo, jornalista e ex-deputado italiano, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 14-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

No momento em que Mons. Viganò, ex-alto prelado da Igreja Católica, e até recentemente Embaixador do Vaticano (Estado e Igreja) junto aos Estados Unidos, confia às televisões mundiais sua desdenhosa acusação religiosa e política (heresia, traição) contra o Papa Francisco, tivemos um exemplo dramático do mal que as comunidades humanas vêm sofrendo há anos: a tendência e, aliás, a necessidade de se desmantelar para ter um inimigo.

Às vezes o mal aparece e se mostra de forma leve e vulgar, como quando a Liga Norte pela independência da Padânia, aparentemente um partido político italiano, tentou desagregar seu próprio país, começando por rejeitar a bandeira e todas as instituições em comum. Quando a França foi invadida por centenas de episódios misteriosos dos "coletes amarelos", sempre numerosos, sempre prontos para retornar, e sempre ligados a pretextos mutáveis, não tratáveis e muitas vezes não relevantes para o resto do país, olhamos para o estranho fenômeno (com invasões, ocupações, incêndios e tumultos de rua) como um acidente de percurso francês, muitas vezes atribuível a erros dos presidentes e dos governos.

Por alguns meses, o caso mais clamoroso de ruptura pareceu ser o voto e a revolta da Catalunha, onde uma parte importante da Espanha quis decidir uma separação unilateral, com um patriotismo furioso e sem a capacidade de explicar ao mundo as razões para um gesto tão extremo.

O Brexit não foi um fenômeno muito diferente. Mais do que um voto popular a favor da separação da Grã-Bretanha da Europa, foi um gesto de raiva, de desprezo, uma declaração (à custa de causar danos a si mesmos) que nada tinha a ver com um vínculo errado.

Naquela época, alguns estados da União Europeia (todos da área Leste, fronteira com a Rússia) já haviam dado sinais de hostilidade à comunidade a que tinham se associados de três formas diferentes: o fascismo, entendido como a revalorização de leis, procedimentos e "valores" (perseguição e racismo contra qualquer um que seja considerado inferior e, de qualquer forma, "estrangeiro"); o nacionalismo extremo manifestado pela aceitação exclusiva das próprias leis e, portanto, pela rejeição de toda forma, por mais branda que seja, de governo comunitário. E o pedido, também entendido como desafio, de construir à custa da União, muros de separação entre um Estado europeu e outro como símbolo das diversas, separadas "nações", separação e ser criada com o muro e com as sentenças dos supremos tribunais nacionalistas que julgam as diretivas europeias como seres estranhos e perigosos a serem mantidos longe do pátio do bom país tradicional. É inevitável que se possam montar jogos macabros com essa Europa.

Tem o jogo da Líbia (país apoiado e financiado pela Itália) que significa empurrar para o mar (depois da prisão e da tortura) tantas pessoas quanto possível, tentando persuadir com todo meio de informação e fake news, que é tudo obra de gananciosos e desumanos mercadores de carne humana, e não de guardas, funcionários e guardas costeiros do país amigo, protegido e pago.

E há o jogo ainda mais perverso de Lukashenko/Bielorrússia que transbordam (fingindo salvar) pessoas em fuga persuadidas de ter encontrado ajuda, para depois as abandonar nas fronteiras entre Bielorrússia e Polônia, ambas fechadas por muros e arame farpado, em acordo fraterno entre os dois países, para que as vítimas sejam obrigadas a morrer de sede e fome, incluindo milhares de crianças. Seguem-se protestos educados das lideranças europeias (embora a Polônia, membro da União Europeia e da OTAN, poderia ser imediatamente excluída de ambas as organizações por violação dos direitos fundamentais).

Nesse imenso lodaçal de contradições e de ferozes incursões contra qualquer um que seja fraco, enquanto o contínuo ativismo de uma pandemia é um vento maléfico que não acaba e não se explica, enfraquecendo o prestígio de quem deveria conduzir à salvação, o ponto de ruptura se amplia. Por um lado, cada vez mais grupos e líderes querem se libertar de sentimentos de humanidade para não se sentirem fracos e despreparados. Se alguém tiver que se afogar, não nos puxe junto para o fundo. Giorgia Meloni disse isso sem hesitar, separando claramente a proteção que sua filha merece das lamúrias de emigrantes que trazem vírus e roubam empregos, e podem até se afogar. Por outro lado, há muitos que querem se separar de sentimentos de solidariedade e fraternidade, temendo encontrar-se no lugar errado da história. No entanto, se você pensar no Mediterrâneo, nos prisioneiros da Líbia e nas crianças diante do arame farpado da Polônia que se finge de cristã, a sua salvação é a nossa. O resto é o estrondo de um grande colapso.

 

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