Se Deus não é teísta. Artigo de Enrico Peyretti

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29 Setembro 2021

 

“Há uma religião que vê Deus no poder. Em vez disso, Jesus indica a sua vinda, o seu reino, na pequena semente, no fermento, no silêncio vivo do coração.”

O comentário é de Enrico Peyretti, teólogo, ativista italiano, padre casado e ex-presidente da Federação Universitária Católica Italiana (Fuci), publicado em Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 28-09-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Salmo 29 (28): Um hino à onipotência de Deus [trad. Bíblia Pastoral]

1 Salmo. De Davi.

Filhos de Deus, aclamem ao Senhor, aclamem a glória e o poder do Senhor.

2 Aclamem a glória do nome do Senhor, adorem ao Senhor no seu átrio sagrado!

3 A voz do Senhor sobre as águas, o Deus da glória troveja, o Senhor sobre as águas torrenciais.

4 A voz do Senhor com poder, a voz do Senhor no esplendor!

5 A voz do Senhor despedaça os cedros, o Senhor despedaça os cedros do Líbano,

6 faz o Líbano pular como bezerro e o Sarion como cria de búfalo.

7 A voz do Senhor lança chispas de fogo,

8 a voz do Senhor sacode o deserto, o Senhor sacode o deserto de Cades!

9 A voz do Senhor retorce os carvalhos e descasca as florestas. E no seu Templo, um só grito: “Glória!”

10 O Senhor se assenta sobre o dilúvio. O Senhor assentou-se. É rei para sempre!

11 O Senhor fortifica o seu povo, o Senhor abençoa seu povo com paz.

Esse salmo talvez seja o mais antigo. Ele retoma imagens e uma linguagem de cantos paralelos de Canaã: Deus é poder e glória, a sua voz subverte as águas, despedaça os cedros, atiça o fogo, faz a estepe tremer, faz até os carvalhos se retorcerem, porém – eis a nova compreensão da fé de Israel – senta-se acima de todos esses fenômenos, nos quais não se descarrega, e o seu verdadeiro maior poder é dar força ao seu povo amado, é abençoá-lo na paz.

Ou seja, Deus não é uma força cósmica que se identifica com o mundo e as suas potências: hoje há teólogos do pós-teísmo que, para libertar Deus de imagens míticas como essas, projeções da nossa vontade de poder, reduzem-no a energia, sem as qualidades de uma pessoa consciente e amorosa.

Deus, por outro lado, é espírito vivo, é um coração e uma vontade de amor pelo povo que escolheu para que conte aos outros esse novo conhecimento de Deus. De fato, o profeta Elias, um por todos, aprenderá e proclamará que Deus não está no terremoto, não está no fogo, mas no “murmúrio de um vento leve” (outras traduções dizem: “em uma voz de silêncio sutil”). Está no silêncio, na solidão, na perseguição.

O profeta Elias é transformado, convertido, de guerreiro a pacificado. Agora, poderá falar de Deus, em voz baixa, não invocando o fogo do céu, que profana o mistério de Deus.

Na passagem de 1Reis 19, Elias muda o modo de pensar sobre Deus.

 

1Reis 19 [trad. Bíblia Pastoral]

1 Acab contou a Jezabel o que Elias tinha feito e como tinha matado a fio de espada todos os profetas. 2 Então Jezabel mandou um mensageiro a Elias, com este recado: “Que os deuses me castiguem se amanhã, a esta hora, eu não tiver feito com você o mesmo que você fez com os profetas”. 3 Elias ficou com medo, levantou-se e partiu para se salvar. Chegou a Bersabeia, em Judá, e aí deixou o seu servo. 4 E continuou a caminhar mais um dia pelo deserto. Por fim, sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte, dizendo: “Chega, Senhor! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor que meus pais”. 5 Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: “Levante-se e coma”. 6 Elias abriu os olhos e viu bem perto da cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu e deitou-se outra vez. 7 Mas o anjo do Senhor o tocou de novo, e lhe disse: “Levante-se e coma, pois o caminho é superior às suas forças”. 8 Elias se levantou, comeu, bebeu e, sustentado pela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus.

9 Elias entrou na gruta da montanha, e aí passou a noite. Então o Senhor lhe dirigiu a palavra, perguntando: “Elias, o que é que você está fazendo aqui?”. 10 Elias respondeu: “O zelo pelo Senhor dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também”. 11 O Senhor lhe disse: “Saia e fique no alto da montanha, diante do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então aconteceu um furacão que de tão violento rachava as montanhas e quebrava as rochas diante do Senhor. No entanto, o Senhor não estava no furacão. Depois do furacão, houve um terremoto. O Senhor porém não estava no terremoto. 12 Depois do terremoto, apareceu fogo, e o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma brisa suave. 13 Ouvindo-a, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou na entrada da gruta. Ouviu, então, uma voz que lhe dizia: “O que é que você está fazendo aqui, Elias?”. 14 E Elias respondeu: “O zelo do Senhor dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas a fio de espada. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também”.

15 O Senhor disse a Elias: “Pegue o caminho de volta, em direção ao deserto de Damasco. Unja Hazael como rei de Aram, 16 e Jeú, filho de Namsi, como rei de Israel. Unja também Eliseu, filho de Safat, natural de Abel-Meúla, como profeta em seu lugar. 17 Quem escapar da espada de Hazael, será morto por Jeú. E quem escapar da espada de Jeú, será morto por Eliseu. 18 Mas eu vou poupar em Israel sete mil homens: são todos os joelhos que não se dobraram diante de Baal e todos os lábios que não o beijaram”.

19 Elias partiu daí e encontrou Eliseu, filho de Safat, trabalhando com doze juntas de bois. Ele próprio dirigia a última junta. Elias passou perto de Eliseu e jogou o manto sobre ele. 20 Eliseu deixou os bois, correu atrás de Elias, e disse: “Deixe-me dizer adeus a meus pais. Depois eu seguirei você”. Elias respondeu: “Vá, mas volte logo. Quem o está impedindo de ir?”. 21 Eliseu afastou-se de Elias, pegou a junta de bois e a ofereceu em sacrifício. Aproveitou a madeira do arado para cozinhar a carne, e distribuiu a carne para o seu pessoal comer. Depois levantou-se, seguiu Elias, e se colocou a seu serviço.

Há uma religião que vê Deus no poder. Em vez disso, Jesus indica a sua vinda, o seu reino, na pequena semente, no fermento, no silêncio vivo do coração.

 

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