Cinema: Aranha e nossas raízes fascistas

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25 Setembro 2021

 

"Entre o passado de milícia fascista e o presente do 'cidadão de bem' (ou outsider), filme mostra de maneira inquietante os resquícios da ditadura pinochetista na sociedade de hoje — e, inclusive, os cortes de classe dentro da extrema direita", escreve José Geraldo Couto, em artigo publicado no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles e reproduzido por Outras Palavras, 23-09-2021.

 

Eis o artigo.

 

Aranha era o símbolo e o apelido da Frente Nacionalista Pátria e Liberdade, organização paramilitar de extrema-direita que barbarizou o Chile no início dos anos 1970, com o objetivo de desestabilizar e enfim derrubar o governo socialista de Salvador Allende. Aranha, o filme de Andrés Wood que está estreando nos cinemas nesta quinta-feira, 23 de setembro, retrata ficcionalmente três participantes dessa milícia, alternando os dias de hoje com os de cinquenta anos atrás.

 

 

Por meio dessa simples alternância temporal, Aranha, coprodução Chile-Argentina-Brasil, acaba por ser ao mesmo tempo um thriller político e um drama moral, de quebra mostrando de modo inquietante os resquícios da ditadura pinochetista e de sua ideologia fascistoide na sociedade chilena de hoje.

 

Mundos diferentes

 

As duas primeiras sequências são eloquentes e desenham o arcabouço de todo o filme. Na primeira, uma senhora da elite, irritada porque seu neto espera no banco de reservas durante um treino de futebol, incita todos os garotos que estavam fora das quatro linhas a invadir o campo e bagunçar o jogo. É a típica madame que se julga acima da lei e das regras, sob a capa da “rebeldia” e da defesa da liberdade.

Corta para uma cena urbana espetacular. Sozinho em seu carro, um sessentão carrancudo e desleixado, de barba grisalha e longos cabelos brancos, vê um jovem assaltante arrebatar a bolsa de uma mulher e parte para uma caçada selvagem: o perseguidor no carro, o perseguido a pé. Após o desfecho sangrento da corrida, a polícia descobre no porta-malas e na casa do motorista um verdadeiro arsenal, incluindo bombas caseiras. Ele vai para um manicômio judiciário.

O que pode haver em comum entre o rude perseguidor da segunda cena e a dama arrogante da primeira, aparentemente personagens de mundos diferentes? Logo ficaremos sabendo: ambos participaram juntos da Aranha, na juventude. Ele, que se chama Gerardo Ramírez, foi dado como morto e ficou esquecido durante décadas. Agora volta ao mundo dos vivos e às páginas dos jornais. Ela, Inés, é alta executiva de uma empresa da área da saúde ou da assistência social.

Esse corte de classe no seio do próprio movimento fascista dos anos 1970 é um dos pontos mais interessantes do filme. Inés (María Valverde na juventude/Mercedes Morán na maturidade) e Justo (Gabriel Urzúa/Felipe Armas), seu marido desde os tempos de faculdade, pertencem desde sempre à oligarquia; Gerardo (Pedro Fontaine/Marcelo Alonso) é um bronco pobretão que serviu na Força Aérea. O que os uniu no passado foi o fanatismo patriótico, além do intuito de “salvar o país do comunismo”. Soa familiar?

 

Retornado das trevas

 

O retorno de Gerardo, nos dias de hoje, é como a volta de um fantasma que Justo e Inés preferiam esquecer. Não que eles tenham abandonado a ideologia da extrema-direita. Mas o fato de estarem perfeitamente integrados e prósperos na realidade do “novo Chile” os leva a tomar distância dos arroubos milicianos de juventude. Não querem que venha a público seu envolvimento com o golpe e a ditadura de Pinochet. Para piorar, os três tinham vivido um triângulo amoroso muito mal resolvido.

É com bastante habilidade que Andrés Wood (o diretor de Machuca e Violeta foi para o céu) conduz esse tenso drama de duas vertentes, a política e a erótico-amorosa. Nas entrelinhas, de modo mais ou menos sutil, insinua a persistência do fascismo como semente que esqueceram nalgum canto do jardim da democracia.

Antes de flagrar o assalto que motivará a perseguição do início do filme, Gerardo contempla com desgosto as ruas apinhadas de Santiago, com seus sem-teto, seus drogados, seus ambulantes, seus imigrantes da África ou do Haiti. Em seus olhos gelados lê-se o desejo de destruir tudo aquilo. (O espectador se lembra de Taxi Driver, de Scorsese.) Quando alcança o ladrãozinho e o pune da maneira mais sangrenta imaginável, alguns passantes aplaudem o gesto do “cidadão de bem”. Tanto quanto a verossimilhança da cena, o que assusta é que ela poderia acontecer em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em qualquer outra grande cidade brasileira.

Mas logo se vê que a figura de Gerardo é a do porra-louca que não se encaixa no mundo civilizado, e muito menos nos arreglos e convescotes da elite dominante. Nem mesmo entre os novos milicianos, de celular na mão e piercing no nariz, ele parece se encaixar muito bem, como mostra uma das surpreendentes cenas finais.

Gerardo é uma aberração, uma ameaça ambulante. Tem algo de sobre-humano, ou sub-humano, com pontos de contato com o assassino vivido por Robert De Niro em Cabo do medo (outra vez Scorsese): o homem que ressurge das trevas para vingar um passado que se julgava enterrado. É desse modo, com ares de pesadelo, que Inés e Justo o veem e temem. Mas, apesar das boas roupas, das bebidas finas e da casa luxuosa, o casal limpinho pode ser tão assustador quanto ele.

A participação brasileira mais visível na coprodução é a atuação de Caio Blat no papel de Antonio, o principal líder da Aranha. E a mais audível é a trilha musical de Antonio Pinto, além do magistral trabalho de som de Miriam Biderman e Ricardo Reis, nomes assíduos nos créditos dos melhores filmes nacionais. Independentemente disso, ficamos com a incômoda sensação de que o Chile é logo ali e de que as patas dessa aranha estão a ponto de nos alcançar, se é que já não alcançaram.

 

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