Restarão os monges e os delinquentes

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10 Novembro 2020

Hoje, um possível estilo monástico poderia ser caracterizado pela aceitação de uma solidão escolhida para se subtrair dos corporativismos do bando – qualquer bando! – recusando assim homogeneidades, cumplicidades, regras e hierarquias inaceitáveis por parte de quem pretende procurar Beleza e Verdade.

A opinião é de Flavio Lazzarin, teólogo, historiador e padre italiano Fidei donum, que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão. Também é agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

O artigo foi publicado em Settimana News, 09-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“Nos próximos anos, haverá apenas monges e delinquentes. No entanto, não é possível simplesmente dar um passo para o lado, acreditar que é possível sair dos escombros do mundo que desabou ao nosso redor. Porque o colapso nos diz respeito e nos apostrofa, nós também somos apenas um desses escombros. E teremos que aprender com cautela a usá-los do modo mais justo, sem sermos notados” (Giorgio Agamben, “Quando a casa está queimando”).

Por que um futuro feito apenas de monges e delinquentes? Certamente, é inevitável constatar que as sociedades são atualmente controladas e dominadas por delinquentes. De fato, a desagregação anômica com a programática traição da verdade e da decência se alia cotidianamente com a violência ecocida e genocida. Portanto, não há nada a acrescentar à afirmação da trágica verdade do esfacelamento.

Mais complicada, por outro lado, é a compreensão da existência de um possível antídoto: os monges. E eu entendo esse apelo, porque, contra a decadência e a dissolução, as oposições, que se consideravam vencedoras em nome da liberdade, da justiça, da democracia e dos direitos humanos, perderam efetivamente todo o poder. E, então, eis os monges! Para o filósofo, talvez seja um convite a se retirar, a viver entre os escombros em voz baixa, sem ser notado.

Em vez disso, imediatamente, os monges me fizeram lembrar dos Padres e das Madres do deserto. Estamos no século IV, o século em que se consuma a mais perversa traição ao Evangelho de Jesus Crucificado e Ressuscitado: a Igreja se curva ao poder imperial; interrompe-se a oposição teológica e política a César Senhor e Imperador, em nome do único Kyrios, o Senhor Jesus; cessam as perseguições e se encerra a temporada dos mártires.

Eis, então, os Abbás e as Ammás do deserto egípcio, que abandonam o mundo falsamente pacificado – e abençoado pela Igreja – e escolhem outra forma de seguir a radicalidade dos mártires. Assim, testemunham a fé, não com o sangue dos mártires – já obsoletos nas novas circunstâncias –, mas com uma vida humilde e oculta, totalmente dedicada à busca do Ressuscitado e a serviço dos outros.

Estamos no deserto físico de Tebaida que, na luta contra os demônios, pode se tornar um Paraíso. Deserto que é profecia contra o deserto da chamada civilização, um inferno não reconhecido.

Hoje, um possível estilo monástico poderia ser caracterizado pela aceitação de uma solidão escolhida para se subtrair dos corporativismos do bando – qualquer bando! – recusando assim homogeneidades, cumplicidades, regras e hierarquias inaceitáveis por parte de quem pretende procurar Beleza e Verdade.

O martírio dos Abbás e das Ammás pode nos ensinar a viver pacificamente a solidão. Solidão que deve ser desarmada: não pode se permitir romper a fraternidade, a sororidade e a comunhão. Mas não poderá renunciar à parresia, ao dever radical de buscar e dizer sempre a verdade crítica e ética. Se assim for, o monge certamente poderá herdar incompreensão e perseguição.

Creio que o Papa Francisco é um desses monges, frágil e incompreendida testemunha do Ressuscitado, entre os escombros da modernidade.

 

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