Ativista jesuíta pede que bispos não se calem enquanto a Índia enfrenta sua “fase mais crítica”

Padre jesuíta Cedric Prakash | Foto: Vatican News

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19 Fevereiro 2020

Um importante ativista católico de direitos humanos na Índia está pedindo que os bispos do país sejam “proféticos” enquanto a nação enfrenta aquela que é “a fase mais crítica de sua história”.

A reportagem é de Nirmala Carvalho, publicada por Crux, 15-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A carta aberta, de 12 de fevereiro, do padre jesuíta Cedric Prakash foi escrita e publicada quando a Conferência Episcopal da Índia estava prestes a começar a sua 34ª Assembleia Plenária, de 13 a 19 de fevereiro, em Bengaluru. O tema da assembleia deste ano é “Diálogo: caminho para a verdade e a caridade”.

“Queridos Bispos, esta assembleia acontece no momento em que o país vive, talvez, a fase mais crítica de sua história. Nunca foi tão ruim, em todas as frentes possíveis!”, escreve Prakash.

“A democracia, tão cara para nós, está sendo destruída; a letra e o espírito de nossa Constituição estão sendo sistematicamente denegridos; acima de tudo, o tecido plural e multicultural de nossa nação está sendo corroído”, continua a carta.

O jesuíta apontou para as milhares de pessoas que protestam contra a Lei de Cidadania Indiana, contra o Registro Nacional de Cidadãos e contra o Registro Nacional de População, que muitos críticos dizem voltar-se aos não hindus que vivem na Índia.

Desde 2014, a Índia é governada pelo Partido Bharatiya Janata – BJP (na sigla em inglês), que tem fortes vínculos com o Rashtriya Swayamsevak Sangh, organização nacionalista hindu militante.

Muçulmanos, cristãos e outras minorias reclamam do aumento da discriminação e do assédio desde que o BJP chegou ao poder.

Frequentemente, nacionalistas hindus acusam os cristãos de usar táticas violentas e sub-reptícias na busca por conversões. Eles então atacam comunidades e realizam cerimônias de “reconversão” – chamadas Ghar Wapsi, ou “de volta para casa” – nas quais cristãos são obrigados a realizar rituais hindus.

Vários estados aprovaram leis anticonversão, pondo em risco os ministros cristãos quando batizam cidadãos convertidos.

“Milhões de irmãos e irmãs em nosso país clamam por uma sociedade mais humana, justa e igualitária; eles clamam porque leis e políticas divisórias, discriminatórias e draconianas ameaçam sua própria cidadania; clamam porque estão sendo alvejados em decorrência da fé que professam; clamam porque são pobres e vulneráveis; clamam porque são dalits e adivasis, mulheres e crianças, jovens desempregados e agricultores sitiados; clamam porque querem ser ouvidos, dialogar e ser acompanhados”, Prakash escreve.

Os dalits são os antigos “intocáveis” do subcontinente indiano, ocupando o nível mais baixo do sistema de castas do hinduísmo; os adivasis, também chamados de tribais, são as comunidades indígenas da Índia, que geralmente residem em áreas florestais e vivem fora do sistema de castas. Estas duas comunidades sofrem marginalização na Índia e representam um total desproporcional da população cristã no país.

Prakash instou os bispos a não se conterem, alertando que ser “diplomático” e “cauteloso” pode parecer “legitimar um silêncio para um bem aparentemente maior”.

“Quando ficamos apenas a olhar, podemos perder tudo, podemos ser perseguidos: seremos perseguidos e atacados e Deus sabe o que mais. Eis a essência da nossa espiritualidade: o berço e a cruz diante da ressurreição! Mas quando não ficamos apenas olhando, talvez ainda percamos tudo, mas também perderemos a nossa própria credibilidade e trairemos a pessoa e mensagem de Jesus”, disse ele.

Na carta, o padre disse ainda que o tema “diálogo” desta assembleia episcopal é “certamente louvável”, acrescentando que os bispos precisam se perguntar: “Diálogo com quem e para quê?”

“O diálogo sempre ocorre no contexto de respeito e igualdade mútua; jamais acontece no vácuo ou se uma das partes se sente superior à outra ou, ainda, se for rígida a ponto de não aceitar a opinião do outro”, escreve o jesuíta.

“Por exemplo, se estamos dialogando sobre a ‘Constituição’, as duas partes estão dispostas a aceitar que a estrutura básica da Constituição, a santidade, os valores e, particularmente, o tecido democrático, secular e pluralista permanecerão inegociáveis? Ambas as partes estão dispostas a aceitar que o Artigo 19 (Liberdade de Expressão) e o Artigo 25 (Liberdade de Consciência e para pregar, praticar e propagar livremente a religião), garantidos na Constituição, são fundamentais para uma democracia vibrante?”, pergunta-se Prakash.

“Sim, o diálogo é importante, mas não se alguém tiver de seguir ditames inaceitáveis. Em toda a sua vida pública, Jesus ficou do lado dos pobres e excluídos, dos vulneráveis e oprimidos. Ele ouviu e respondeu aos seus clamores. Teve palavras duras aos poderosos que “sobrecarregavam com os seus fardos” as pessoas comuns. Ele se recusou a dialogar com os escribas e fariseus, Pilatos e Herodes (por falar nisso, até mesmo com o diabo) de seu tempo”, continua o religioso jesuíta.

Em conversa com os jornalistas em 12 de fevereiro, o Cardeal Oswald Gracias, de Bombaim, presidente da Conferência Episcopal da Índia e membro do Conselho dos Cardeais, do Papa Francisco, disse que o diálogo é uma ferramenta a ajudar na construção da nação.

“A Índia, sendo a terra das culturas diversas, exige o auxílio constante do diálogo para estar em harmonia com todos”.

O cardeal acrescentou que o diálogo é o único aspecto saliente para se demonstrar a verdade com caridade.

“A paz e a harmonia não acontecem na ausência do diálogo. Se nos mantivermos em silêncio, como poderá haver alguma forma de diálogo?”, perguntou Gracias.

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