Antonio Spadaro explica a teologia de Francisco ... e desmonta a religiosidade da extrema direita

Papa Francisco (Fonte: Flickr)

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23 Janeiro 2020

Nem empurrar o mundo para as últimas consequências da crise pela qual está passando, nem tentar reconstruí-lo com base em pedaços quebrados. Estas não são, de acordo com um texto assinado por Antonio Spadaro e publicado na revista La Civiltà Cattolica, as opções do magistério de Francisco. O Papa “não busca eliminar o mal, porque sabe que isto seria impossível, mas tem a intenção de neutralizá-lo”, afirma.

A reportagem é de Elena Magariños, publicada por Vida Nueva, 20-01-2020. A tradução é do Cepat.

Um texto no qual o jesuíta e diretor da revista também reflete acerca da “ação bergogliana”, sua posição diante dos problemas do mundo e sua aposta no diálogo “com todos”. Uma posição que contrasta fortemente, como pode ser lida no texto, com a daqueles que, reivindicando supostos valores cristãos, defendem a sacralidade do poder ou esquecem a misericórdia.

“Há aqueles que atacam Francisco, acusando-o de fazer acordos com o mundo”, disse Spadaro, e porque “ataca o establishment, tanto mundano como eclesiástico”. No entanto, aqueles que “elogiam” seu modo de proceder o fazem porque “sentem que é misericordiosamente sensível à realidade do mundo, inclusive para deixar de lado o julgamento”. Mas, por sua vez, Francisco é capaz de “dizer com veemência, como fez durante sua visita a Nápoles, que a corrupção “fede” e não usa meias medidas em sua denúncia”.

O poder do mundo não é sagrado

“Este enfoque se baseia na consciência de que o mundo não está dividido entre o bem e o mal”, continua o jesuíta. Por isso, a escolha não está entre o discernimento de “forças partidárias, políticas e militares com as quais se aliar e apoiar para que o bem triunfe”, uma vez que “este enfoque de conversação diplomática se baseia na certeza de que o império do bem não pertence a este mundo”.

Por esse motivo, “você precisa conversar com todos”, e enfatiza que “o poder mundano está definitivamente dessacralizado”. “É claro, os políticos são chamados a ser ‘santos’, precisamente por ser políticos e por trabalharem para o bem comum, mas, mesmo assim, nenhum poder político é sagrado”, afirma.

“A energia que leva Francisco a trabalhar para frear a queda do mundo no abismo, portanto, não conduz o Pontífice a se comprometer com os poderes fáticos”, alerta Spadaro, que acredita que este é precisamente “o ponto mais delicado de seu delineamento”, porque “às vezes a Igreja acredita que a única maneira de frear a decadência é se aliar a um partido político que lhe permita sobreviver”. “Isso aconteceu muitas vezes na Itália, e a nostalgia ainda não se foi”, disse. “Contudo, Bergoglio não acredita nisso. O sagrado nunca é o pilar do poder. O poder nunca é o pilar do sagrado”, pondera Spadaro, enfatizando que “se o pensamento cristão se converte em uma ideologia, nada tem a ver com Cristo”.

Deus é integração

Da mesma forma, Spadaro relembra o discurso para a publicação do número 4.000 da revista La Civiltà Cattolica, no qual Francisco apontava que é necessário “dar a conhecer o significado da ‘civilização católica’, mas também dar a conhecer aos católicos que Deus está trabalhando inclusive fora dos limites da Igreja”. E, no mesmo discurso, acrescentou que “a cultura viva tende a se abrir, integrar, multiplicar, compartilhar, dialogar, dar e receber no interior dos povos com quem entra em relação”.

Por isso, a ideia de que Francisco promove um “populismo católico” ou um “etnicismo católico” está “longe do Papa, porque o Deus que busca está em todas as partes”. Assim, a ideia de “raízes étnicas, triunfalistas, arrogantes e vingativas são simplesmente o oposto do cristianismo”, destaca. “Francisco quer devolver a Deus seu verdadeiro poder, que é o da integração”, aponta o jesuíta. E integrar significa “inserir as diferenças de épocas, nações, estilos, visões, no processo de construção”.

Ameaças como uma possível Terceira Guerra Mundial ou outros conflitos subjacentes à globalização “não são um destino fixo”. Mas “evitar isso requer misericórdia, o que significa abandonar as narrativas fundamentalistas e apocalípticas que vestem túnicas pomposas e máscaras religiosas”. Francisco desafia, desta maneira, “o pensamento de redes políticas que apoiam um apocalipse geopolítico”, porque “a comunidade de fé nunca é a comunidade da luta”.

Combater a manipulação e o medo

“Por essa razão, Francisco está difundindo uma narrativa sistemática em relação à narrativa do medo”, acrescenta Spadaro. “Devemos combater a manipulação desses tempos de ansiedade e insegurança”, destaca. Pela mesma razão, Francisco também não concede, por exemplo, “nenhuma legitimidade teológico-política aos terroristas, evitando, por exemplo, qualquer redução do Islã ao terrorismo islamista”.

“Também faz o mesmo em relação àqueles que postulam ou querem uma ‘guerra santa’ ou que constroem barreiras de arame farpado sob o pretexto de deter o apocalipse e erguer uma defesa física e simbólica para restaurar a ordem”. É que “o único arame farpado para o cristão é o da coroa de espinhos que Cristo tem em sua cabeça”.

O fim de uma era

Francisco, então, revela sua convicção, que em parte formou ao ler o teólogo jesuíta Erich Przywara: estamos no final da era Constantiniana e do experimento de Carlos Magno”, explica Spadaro. Assim, o cristianismo, ou seja, o processo iniciado por Constantino, no qual existe um elo orgânico entre cultura, política, instituições e a Igreja, “está chegando ao fim”. No entanto, esse fim não significa “a diminuição do Ocidente, mas traz consigo um recurso teológico decisivo no qual o próprio Cristo retoma a obra de conversão”.

Portanto, “existe uma clara diferença entre o esquema teopolítico imperial do legado de Constantino”, que procura estabelecer “o Reino de uma divindade aqui e agora”, e o esquema teopolítico do Papa Francisco, que é escatológico, ou seja, “que se centra no futuro e tem a intenção de orientar a história atual em direção ao Reino de Deus, o reino da justiça e da paz”. “No esquema imperial, a divindade é obviamente a projeção ideal do poder constituído. Essa visão gera a ideologia da conquista. A visão franciscana, ao contrário, gera o processo de integração”, explica.

No mundo para o qual caminhamos “o catolicismo pode adquirir relevância em temas de interesse mundial, como o meio ambiente, os migrantes e os refugiados, e o respeito aos direitos humanos”. Portanto, não se trata de reduzir os ensinamentos de Francisco ao rótulo de “Papa do sul” ou do “mundo em desenvolvimento”, mas, sim, de “compreender que é a globalização da Igreja a que muda os problemas que definem o impacto do catolicismo na esfera pública”.

“A primazia da autoridade espiritual é a da misericórdia”, conclui Spadaro, lembrando o discurso de Francisco aos bispos italianos: “Diante dos males ou problemas da Igreja, é inútil buscar soluções no conservadorismo e no fundamentalismo, na restauração de práticas e formas obsoletas que inclusive culturalmente carecem da capacidade de serem significativas”. É que “doutrina cristã não é um sistema fechado, incapaz de levantar questões, dúvidas, mas está viva, é capaz de se preocupar, é capaz de se inquietar. Tem um rosto flexível, um corpo que se move e se desenvolve, carne viva: a doutrina cristã se chama Jesus Cristo”.

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