Editora de revista feminina do Vaticano quebra o silêncio sobre o abuso vivido por freiras

Freiras | Foto: Reprodução - Twitter

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19 Fevereiro 2019

Conhecida como historiadora, professora, católica e feminista, alguns diriam que a italiana Lucetta Scaraffia também é uma encrenca no Vaticano. Ela é editora-chefe de uma revista mensal do jornal do Vaticano dedicada às mulheres, que, em suas palavras, a estrutura de poder "permitiu que acontecesse" principalmente por não impedir.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 16-02-2019. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Foi um artigo escrito por ela para a revista, que complementa o L'Osservatore Romano mensalmente, que levou o Papa a "quebrar o silêncio" do abuso sexual sofrido pelas freiras por parte de padres e bispos.

Lucetta Scaraffia publicou um artigo na edição de fevereiro do caderno denunciando casos em que as freiras são estupradas ou abusadas por clérigos e depois excluídas de sua ordem religiosa ou forçadas a praticar um aborto caso a relação indesejada resulte numa gravidez - e, às vezes, os dois.

Voltando dos Emirados Árabes para Roma, o Papa Francisco reconheceu que essa dinâmica existe. Segundo o relato de Lucetta a repórteres na quinta-feira, foi a primeira vez que a questão foi abordada abertamente no Vaticano e que, apesar
de nada ter acontecido do reconhecimento do Papa, ela espera que não pare por aí, pois o abuso de irmãs "é uma situação muito grave".

O Papa "Francisco está tomando medidas contundentes, como reconhecer que esses crimes existem, [o que] foi muito corajoso”, afirmou. "Até então, a instituição sempre havia negado.”

Lidar com essa situação, para ela, é algo "complexo", por várias razões, como o fato de a maioria desses abusos terem acontecido no passado e de ser quase impossível provar que aconteceram.

Apesar da opinião positiva a respeito de Francisco, quando perguntaram se ela é "feminista", sua resposta foi simplesmente: "Não... Sem exageros”.

"Acredito que o Papa é um homem muito político, que entende que as mulheres hoje são uma força que não pode ser ignorada.

Ele já disse isso - serviço não é servidão. Ele é claro nas palavras porque sabe que não podemos continuar como estamos", disse.

Nos últimos meses, foram publicados vários artigos sobre o abuso das irmãs por membros do clero católico, particularmente na França, mas o assunto surgiu em 1993, quando duas freiras francesas falaram dos abusos a que as irmãs missionárias estavam sendo submetidas na África.

O relato mais antigo em língua inglesa foi divulgado pelo National Catholic Reporter nos anos 90, citando relatórios internos elaborados por ordens religiosas femininas.

Segundo Lucetta, atualmente, a maioria das acusações no Vaticano é antiga e está engavetada há muitos anos em vários departamentos.

"A Igreja nunca aceitou a responsabilidade, porque pensava que conseguiriam esconder se não falassem sobre o assunto”, observa.

Ela destaca, ainda, que não é a favor da ordenação feminina.

O que precisa mudar, para ela, é a mentalidade que equipara sacerdócio e poder. Se as mulheres fossem ordenadas, elas também seriam "corrompidas pelo poder do clericalismo", argumenta.

"Para mim, é muito mais importante que as mulheres continuem sendo as que se opõem ao poder", afirmou.

Ela diz que a prioridade continua sendo a questão do abuso.

"Nos últimos sete anos, estive em contato com muitas religiosas: recebemos mensagens, conversamos e visitamos essas mulheres. E percebemos que é um problema gigantesco”, revela. "Percebemos que não adianta pedir para as mulheres ocuparem mais lugares na Igreja se no dia a dia muitas delas são vítimas de abuso sexual."

Em relação à investigação das acusações ou à penalização dos abusadores, ela diz que não conhece nenhum caso. Muitas vezes, as freiras é que pagam o preço da situação e são acusadas de "seduzir” os padres e bispos.

Segundo Lucetta, a lei da Igreja dispõe sobre abuso, principalmente se ocorre durante o sacramento da confissão, mas na verdade é mais difícil provar quando as mulheres sofrem abuso do que as crianças.

Ela observa que acusar bispos e sacerdotes de crimes que aconteceram no passado pode ser "vergonhoso", porque a lei não é retroativa e é difícil provar. No entanto, "é um problema terrível, e não é uma instituição qualquer - é a Igreja Católica".

"É uma instituição que foi criada a partir de uma vítima, Jesus Cristo", disse. "Há uma grande contradição no seio da Igreja."

Ela desafiou as mulheres a se considerarem protagonistas dentro da Igreja.

"Nós, mulheres, jornalistas, especialistas do Vaticano, não achamos que é uma novidade pedir a opinião de uma mulher".

"Vamos tentar não pensar que a Igreja é apenas composta por homens. Por que aceitamos que o conselho consultivo do Papa é formado apenas por homens? Nós somos mais da metade da Igreja, damos apoio e não há nenhuma mulher no 'senado'?"

"Como é possível pensar no futuro da Igreja excluindo as mulheres da discussão?", questionou.

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