Livro da filósofa Simone Weil que pede fim dos partidos chega ao Brasil

Foto: Kerry O'Connor - Flickr

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26 Outubro 2018

Em tempos de eleição, o texto de 1943 parece constatar problemas da democracia brasileira.

A reportagem é de Caio Sartori, publicada por O Estado de S. Paulo, 30-09-2018.

Simone Weil afirma, sem meias palavras: os partidos políticos devem ser suprimidos. Com eles extintos, um país poderia enfim se dedicar a buscar “o bem, a justiça e a verdade”, sem se preocupar com o jogo de poder que envolve o funcionamento das siglas. Classificadas pela autora como “máquinas de moer carne” que confundem os meios com os fins, os partidos agiriam de modo análogo à fé religiosa, por meio da dominação da mente das pessoas.

Foto: Editora Iluminuras

Relançado pela Editora Iluminuras, o texto Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos, escrito em 1943 pela escritora francesa e publicado em 1950, capta bem o sentimento de uma geração que viu no nazismo e no comunismo soviético a ascensão do totalitarismo. No Brasil de hoje, ler Simone Weil é se questionar o tempo todo se a demonização dos partidos, feita por ela de maneira filosoficamente embasada, é de fato a solução.

Um termo usado por Weil é essencial para entender sua visão de partido político: paixão coletiva. As siglas seriam especialistas em despertar paixões que comandariam o modo de pensar — e votar — das pessoas. Submetidas a uma ideia de que a única forma de progresso está na adesão à ideologia partidária, elas romperiam assim com a verdade, a justiça e a utilidade pública, consideradas aqui o oposto do que os partidos representam.

A partir do momento em que integram um partido, as pessoas estariam privadas de pensar – ou de expressar o que pensam – por conta própria. Cairiam na que talvez seja a pior das mentiras: aquela dita a si mesmo. “Se pertencer a um partido significa submeter-se sempre a uma coação, pelo menos à mentira, a existência de partidos é absolutamente, incondicionalmente, um mal”, afirma.

Weil também joga luz sobre um problema cuja carapuça serve muitíssimo bem num país em que 35 partidos estão registrados na Justiça Eleitoral: a baixa correlação entre as ideologias partidárias e as convicções concretas das pessoas.

Esse engessamento em defesa da sigla, diz, evita que parlamentares de diferentes legendas possam concordar um com o outro e escancara semelhanças que, recalcadas, transformam-se em ódio. “Quantas vezes, na Alemanha de 1932, um comunista e um nazista, discutindo na rua, sentiram vertigem mental ao constatar que estavam de acordo em tudo!”, escreve Weil. Corta para o Brasil de 2018: as duas candidaturas à Presidência que defendem sem pudor o armamento da população estão nos dois extremos do espectro político. Dizem, é claro, que a defesa se dá por motivos diferentes.

Como estaria Simone Weil nos dias que correm? Morta em 1943, a francesa não viveu para ver o Maio de 1968 em Paris, quando os estudantes agiram por conta própria em oposição ao governo de Charles De Gaulle. Ao demandar algo novo sem saber exatamente o quê, não conseguiram ter êxito institucional. De Gaulle, com o charme e a força política que o caracterizavam, permaneceu no cargo até o ano seguinte. O legado de maio, no entanto, veio de outras maneiras: na ideia de participação política para além da via institucional e na ascensão do movimento feminista, por exemplo.

A vida militante de Weil, inclusive, teve momentos que em muito se assemelham ao tipo de militância que se viu em Maio. A fim de se aproximar da vida do operário, a escritora começou a trabalhar numa fábrica em 1934 – uma forma de criticar os intelectuais que falavam da classe trabalhadora sob o conforto de seus privilégios. Dois anos depois, desembarcou na Espanha para ajudar na resistência republicana à ascensão de Franco, que viraria ditador e só sairia do cargo com a iminência da morte, já nos anos 1970. Se o pensamento intelectual é formado a partir de experiências, como defendia também Hannah Arendt, temos em Weil uma ilustração disso.

Arendt e Weil são duas mulheres que, com seus escritos sobre política, soam indispensáveis nestes tempos. Enquanto a francesa elucida a falácia dos partidos e a incapacidade deles de representar o bem comum, a alemã tem uma explicação precisa sobre as origens do totalitarismo. Ele é forjado – com o perdão do reducionismo – na crise da autoridade política, e não no reforço dela, como bem explica o filósofo Eduardo Jardim no ensaio Hannah Arendt e Nós, publicado na última edição da revista Serrote.

Weil nos mostra a importância de a política não ficar presa às fissuras partidárias que, por exemplo, não souberam lidar com a crise econômica de 2008 e viram nos movimentos de rua que surgiram em 2011 a ascensão da crise da democracia representativa. O modelo, que um dia pareceu consagrado, hoje aparenta esgotamento. A impressão, como mostra a autora, é de que a política precisa ser mais.

Por outro lado, o populismo observado em diversos países do mundo, que na União Europeia costuma se opor à tecnocracia dos países dominantes do bloco, parece ter como antídoto justamente uma maior estabilidade dos partidos, de modo a evitar aventureiros que se apresentam como solução fácil para problemas superlativos. É esta a tese de analistas como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, de Harvard, autores do recém-lançado Como as Democracias Morrem. Todos os caminhos apontam para a ideia de que sim, os partidos são repletos de erros e estão longe de representar os anseios da população. Transformam-se, sem dúvida alguma, em máquinas de criar paixões coletivas que ajudam a deturpar o bom debate público. É difícil, porém, vislumbrar algo melhor no futuro próximo.

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