Áustria. Mesquitas fechadas e imãs expulsos, o estopim acende Ancara

Foto: Pixabay

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11 Junho 2018

Diante da cacofonia de rugidos de coelhos da nova frente populista que está retumbando na opinião pública europeia, somou-se na última sexta-feira a voz da Áustria neo-islamofóbica. E considerando que o clima internacional estava tão calmo, a decisão clamorosa de Viena já despertou a ira furiosa da Turquia, que fala de um ataque "contra o Islã". O chanceler Sebastian Kurz (Oevp) e seu ministro do Interior, Herbert Kickl (Fpoe) anunciaram de fato que sete mesquitas serão fechadas e dezenas de imãs - poderiam ser quase sessenta - serão expulsos da Áustria. São religiosos da ATIB, a Áustria Turkey Islamic Union, muito próxima de Ancara.

A reportagem é de Tonia Mastrobuoni, publicada por La Repubblica, 09-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na mira da sensacional decisão do governo Kurz, quatro mesquitas em Viena, duas na Alta Áustria e uma na Caríntia. E dezenas de imãs da ATIB que correm o risco de perder seus vistos de residência. Em um país que conta com 600 mil muçulmanos em 8,8 milhões de habitantes, é uma decisão destinada a ter efeitos sombrios nas relações entre os cidadãos. "Não há espaço para sociedades paralelas e para a radicalização", trovejou Kurz. A decisão também foi tomada na onda de uma investigação que tem causado grande polêmica, publicada pelo semanário Falter, que mostra fotos de crianças vestidas como guerreiros otomanos reproduzindo a batalha de Galípoli, na Turquia. A campanha de Galípoli foi uma das mais gritantes derrotas sofridas por exércitos europeus aliados durante a Primeira Guerra Mundial, uma derrota sangrenta na tentativa de libertar o estreito de Dardanelos do exército otomano. As crianças das fotos marcham em uniformes camuflados, se fingem de mortas sob bandeiras turcas e mais uma lista grotesca de detalhes. Uma menininha declama um juramento no qual promete lutar "até o último suspiro para não deixar o inimigo passar por Galípoli".

Deve-se esclarecer, no entanto, que a organização que dirige a mesquita - também presa à órbita do governo turco - tomou distancia da iniciativa. Mas o escândalo teve um enorme eco.

Os líderes da organização religiosa ATIB agora sob a mira de Viena seriam suspeitos, segundo o chanceler e seu ministro do Interior, de ter recebido fundos ilegais do exterior e de violar a lei austríaca sobre o Islã. O decreto aprovado na sexta-feira é inapelável e o líder da direita populista, Heinz-Christian Strache, quis esclarecer que "não toleramos pregadores do ódio que agem em nome da religião."

Enquanto o porta-voz do presidente turco Erdogan acusou Viena de "islamofobia" e "racismo", da Itália chegou o aplauso de Matteo Salvini. "Acredito na liberdade de culto, não no extremismo religioso", twittou o ministro do Interior, acrescentando que "aqueles que usam sua fé para colocar em risco a segurança de um país devem ser afastados! Espero já na próxima semana encontrar o colega austríaco para discutir as linhas de ação”.

Uma tese interessante à luz das contínuas tensões registradas na fronteira com o Brennero nos últimos anos entre a Itália e a Áustria, cada vez que o fluxo de migrantes e refugiados para o norte da Europa se intensificava. O fechamento progressivo das permissões de entrada - que nos últimos anos, expressou-se também em um limite numérico nas chegadas - parece mais uma pedra intransponível nas relações entre a Itália e a Áustria. Na busca por um aliado que possa mostrar ou impor maior solidariedade em uma das questões cruciais para a Europa, a da redistribuição das cotas, parece um tanto inútil olhar para Viena. Portanto, melhor tentar uma aproximação com os vizinhos de casa sobre as declarações contra os muçulmanos. Desgasta pouco e garante muitas ‘curtidas’.

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