Francisco: “Cristãos famintos, não assegurados”, que sofrem pela miséria

Papa Francisco (Fonte: Wikimedia Commons)

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21 Abril 2018

“Levante-se!”. Porque “a primeira coisa que é preciso evitar é ficar no chão, sofrer a vida, ficar presos ao medo”. À população de Molfetta, que o aguardou desde o amanhecer em pé próximo ao palco, no porto, nos balcões e nas janelas, Francisco recordou o convite de seu histórico bispo Tonino: “Em pé!”. E exortou a “sempre voltar a se levantar, a olhar para o alto, porque o apóstolo de Jesus” não pode se conformar com “pequenas satisfações”.

A reportagem é publicada por Vatican Inisider, 20-04-2018. A tradução é do Cepat.

Francisco chegou de helicóptero ao antigo burgo salentino, segunda e última etapa de sua visita pastoral, com quase uma hora de atraso. Francisco se dirigiu imediatamente à sacristia: a volta costumeira com o papamóvel ficou para o final da missa que o Pontífice celebrou (carregando o báculo de madeira de Tonino Bello) em um palco branco e amarelo em frente ao Mar Mediterrâneo, com um grande crucifixo de madeira de oliveira, símbolo da paz e das terras mediterrâneas, e a estátua da Virgem dos Mártires, padroeira da cidade.

O Papa baseou sua homilia em duas palavras: “pão” e “palavra”. As reflexões do pontífice se entrelaçaram com frases pronunciadas e escritas por D.Tonino, e fica difícil distinguir o que pertence a cada um. “Não são suficientes as obras de caridade, se falta a caridade das obras. Se falta o amor do qual partem as obras, se falta a fonte, se falta o ponto de partida, que é a Eucaristia, qualquer empenho pastoral resulta em apenas um montão de coisas”, dizia dom Bello.

Uma advertência que Bergoglio retomou para insistir que “a vida cristã recomeça sempre a partir daqui, desta mesa, na qual Deus nos sacia de amor. Sem Ele, Pão da vida, qualquer esforço na Igreja é vão”. “A Eucaristia é isto: não um rito bonito, mas a comunhão mais íntima, mais concreta, mais surpreendente que se possa imaginar com Deus: uma comunhão de amor tão real que toma a forma do comer”, afirmou o Bispo de Roma. “Quem se nutre da Eucaristia assimila a mesma mentalidade do Senhor. Ele é “Pão partido” por nós e quem o recebe se converte, por sua vez, em pão partido, que não leva o fermento do orgulho, mas que se doa aos demais: deixa de viver para si, pelo próprio êxito, para ter algo ou para se tornar alguém, e vive para Jesus e como Jesus, ou seja, pelos demais”.

É o exemplo que foi dado pelo bispo Tonino: “um bispo servo, um Pastor que se fez povo. Ele “sonhava uma Igreja faminta de Jesus e intolerante frente a qualquer mundanidade, uma Igreja que sabe descobrir o corpo de Cristo nos Tabernáculos desconfortáveis da miséria, do sofrimento, da solidão”. Porque, dizia, “a Eucaristia não suporta” o sedentário e, “sem se levantar da mesa”, a Eucaristia é “um sacramento incompleto”.

Este “Pão da vida” é também “Pão da paz”, acrescentou o Papa. A paz que, segundo dom Bello, “não vem quando alguém pega apenas o seu pão e vai comê-lo por sua conta. A paz é algo a mais: é convivialidade”. É “comer o pão com os demais, sem se separar, sentar-se à mesa com pessoas diferentes”, onde “o outro é um rosto que deve ser descoberto, contemplado, acariciado”. Porque “os conflitos e todas as guerras encontram sua raiz na dissolução dos rostos”. E os cristãos e quem compartilha “este Pão de unidade e de paz” são chamados “a amar cada rosto, a remendar qualquer rasgo; a ser, sempre e seja onde for, construtores da paz”.

Ao lado do Pão, a Palavra. Bergoglio recordou as “ásperas discussões” ao redor das palavras de Jesus: “Como pode este nos dar de comer a sua carne?”. “Muitas de nossas palavras se parecem com estas: como pode o Evangelho resolver os problemas do mundo? Para que serve fazer o bem em meio a tanto mal?”. Assim, “caímos no erro dessa gente, paralisada pelas discussões sobre as palavras de Jesus, ao invés de estar pronta para receber a mudança de vida que Ele pediu”. Por isso, Tonino Bello desejava “receber esta novidade de vida, passando finalmente das palavras aos fatos”. Era constante seu convite a quem “não tinha a coragem para mudar”: “os especialistas da perplexidade”. “Os contadores pedantes dos prós e os contras. Os cautelosos calculadores até o espasmo antes de se mover”.

“A Jesus não se responde segundo os cálculos ou as conveniências do momento, mas com o ‘Sim’ de toda a vida. Ele não busca nossas reflexões, mas nossa conversão”, afirmou o Papa. E esta conversão se resume nesse “levante-se” proclamado por dom Tonino Bello. “A vida cristã deve ser investida em Jesus e gasta pelos demais.

Após ter encontrado o Ressuscitado não se pode esperar, não se pode postergar: é preciso ir, sair, apesar de todos os problemas e incertezas”.

É necessário ser “construtores da paz”, como pedia o bispo. O Papa exclamou: “Servidores do mundo, mas como ressuscitados, não como empregados. Sem jamais se entristecer, sem jamais se resignar. É belo ser “mensageiros da esperança”, distribuidores simples e alegres do ‘Aleluia’ pascal”. A Palavra de Deus faz isto: “Liberta, faz ir adiante, humildes e corajosos ao mesmo tempo. Não nos torna os protagonistas assegurados e campeões do próprio valor, mas, sim – concluiu o Pontífice –, testemunhas genuínas de Jesus no mundo”.

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