Foxconn. Adeus aos trabalhadores. As fábricas nas mãos de robôs: "Eles não cometem suicídio"

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23 Novembro 2011

A Foxconn irá produzir um milhão de robôs em dois anos. "Não haverá reivindicações. Eles podem ser desligados". Nas plantas da gigante hi-tech, 18 suicídios devido às condições de trabalho insustentáveis. As máquinas irão parar a corrida das empresas pelos salários mais baixos.

A reportagem é de Giampaolo Visetti, publicada no jornal La Repubblica, 22-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fuga de Guangdong. O rosto escondido da China que cresce é a região mais industrializada do mundo que explode. São centenas as empresas que abandonam o epicentro do boom das exportações dos anos 1980. São milhares os fechamentos e as falências. A onda da crise da Europa e dos EUA começa a sacudir também o Oriente, e o "ponto de virada de Lewis", instante em que evaporam os benefícios do excedente de mão de obra, conhece uma impressionante aceleração na ex-"fábrica do mundo".

Assim, a China tenta a carta da migração interna, arrancando outra mão de obra da zona rural. E sobretudo da tecnologia: robôs no lugar dos homens, para fazer os trabalhos mais pesados e para evitar uma escalada de reivindicações, como fará a Foxconn, gigante hi-tech atingida por uma onda de suicídios de operários incomodados com os ritmos de trabalho insustentáveis.

O pesadelo das autoridades de Pequim é o êxodo em massa das indústrias costeiras para as regiões subdesenvolvidas do Ocidente. Uma concorrência interna insustentável: cortes fiscais, descontos in loco e salários no limite da linha da pobreza garantem às empresas economias de até 20%.

Em dez anos, em Guangdong, os salários aumentaram em 94%, mais 28% em comparação ao ano passado: é impossível sustentar a retomada dos novos distritos do Sudeste Asiático, Bangladesh, Vietnã, Camboja e Indonésia na liderança. Para não acabar como Taiwan e Japão, dos quais justamente Guangdong dizimou o sistema industrial com a lei da deslocalização votada com as mais altas desvalorizações, visa-se à migração interna para encher os pavilhões.

Uma guerra entre pobres, desencadeada pelo próprio governo chinês para "recolher os frutos dos galhos mais baixos" nas áreas deprimidas do país: 2.164 euros por ano é o salário de um operário em Guangdong, 1.640 em Hunan, até 1.530 em Henan, menos de 130 euros por mês. Margens de ganho cada vez mais baixas: o Ocidente não absorve mais mercadorias, a inflação chinesa cresce, o ambiente destruído apresenta a sua conta, os consumos internos não substituem o declínio das exportações, e os bancos começam a fechar os créditos.

A segunda potência econômica do planeta redistribui assim as suas forças, a produção emigra 500 quilômetros para o oeste, e a tentativa de suavizar o arrefecimento econômico (PIB positivo de 9,2 em 2012, em comparação com os 9,4 deste ano) levanta uma onda de tumultos sem precedentes. Os produtores abandonam o Guangdong, e os operários se rebelam.

Tumultos incontroláveis há semanas, culminando nesta segunda-feira, em Lufeng, com a revolta de milhares de pessoas, que saíram às ruas gritando contra a "ditadura" e contra a "corrupção" dos funcionários. As revoltas, com feridos e centenas de detenções, sacodem também as multinacionais estrangeiras, comprometidas em retirar os investimentos dos distritos orientais para realocar onde as economias superam os 40%. Nada de sindicatos, milhões de ex-agricultores desempregados dispostos a tudo, áreas à vontade. Os gigantes, no entanto, já estão além e apontam para o adeus definitivo aos operários.

O caso-símbolo é a Foxconn, a maior empresa do mundo, mais de um milhão de funcionários só na China. Em Shenzhen, ela reúne a maioria dos produtos hi-tech que estão mudando a humanidade, em nome de marcas como Apple, Nokia e Cisco. Sacudida por uma onda de suicídios, 18 em poucos meses em 2010, ela anunciou nesta segunda-feira que, até 2012, vai produzir 300 mil robôs, destinados a se tornar um milhão até 2014.

A grande fuga das indústrias de Guangdong, assim, corre o risco de fechar para sempre a era da mão de obra, para abrir a do trabalho totalmente mecanizado. Gou Tai-ming, presidente do gigante com sede em Taiwan, garantiu que, por enquanto, os robôs não roubarão o trabalho dos operários, limitando-se a desenvolver atividades perigosas, operações de precisão e operações que exponham aos efeitos de substâncias tóxicas.

"Porém – declarou –, é claro que o aumento do custo do trabalho pressiona a indústria chinesa, obrigada a encontrar soluções rapidamente". Questão de tempo.

A Foxconn, há alguns meses, já experimenta 10 mil robôs na linha de montagem e, desde agosto, deslocalizou os produtos de ponta nas novas fábricas de Zhengzhou, em Henan, e em Chengdu. "Os robôs não cometem suicídio – comentou Xinqi Lin, diretor do departamento de recursos humanos da Renmin University da China –, não reivindicam direitos e, se a demanda cai, basta desligá-los". É a última fronteira do milagre chinês: adeus, Guangdong, e adeus, operários. Chegou a hora dos robôs de Chongqing.