O Concílio que faz a diferença

Mais Lidos

  • O manifesto perturbador da Palantir recebe uma enxurrada de críticas: algo entre o tecnofascismo e um vilão de James Bond

    LER MAIS
  • A socióloga traz um debate importante sobre como as políticas interferem no direito de existir dessas pessoas e o quanto os movimentos feministas importam na luta contra preconceitos e assassinatos

    Feminicídio, lesbocídio e transfeminicídio: a face obscura da extrema-direita que viabiliza a agressão. Entrevista especial com Analba Brazão Teixeira

    LER MAIS
  • ​Economista e jesuíta francês ministra videoconferência nesta terça-feira, 28-04-2026, em evento promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU

    Gaël Giraud no IHU: Reabilitar os bens comuns é uma resposta política, social, jurídica e espiritual às crises ecológicas e das democracias

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Fevereiro 2012

"O Concílio Vaticano II, como evento intencionalmente pastoral, não acrescentou verdades para acreditar, mas refletiu sobre a globalidade da história cristã no mundo contemporâneo. Para ativar um cristianismo vivível, comunicativo, credível". Assim Ugo Sartorio (foto) encerra a introdução de Fare la differenza. Un cristianesimo per la vita buona (Ed. Cittadella, 254 páginas), com uma referência explícita ao concílio do qual, em outubro, celebra-se o 50º aniversário de abertura. Uma referência que também é a chave de leitura dessas páginas, voltadas a repensar a presença cristã na realidade pós-moderna.

A análise é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Stampa, 29-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O autor, franciscano conventual, tem uma rara capacidade divulgativa: ex-professor de teologia fundamental, dirige tanto a revista Credere Oggi, quanto a revista mensal católica Il Messaggero di Sant'Antonio.

O leitor pode, assim, se encaminhar confiante em um percurso que tende a ressituar o cristianismo através da categoria da "diferença": longe de ser um distanciamento do mundo, a diferença cristã aqui proposta é sobretudo um "estilo de vida" que consegue veicular a mensagem evangélica melhor do que qualquer discurso apologético e de gerar interesse em uma sociedade cada vez mais indiferenciada, senão até indiferente. Estilo de vida que não é "forma" contraposta ao "conteúdo", mas sim a encarnação da esperança, corpo oferecido ao ideal evangélico.

A reflexão de Sartorio se articula desse modo em dois blocos complementares – "pensar a diferença" e "viver a diferença", que, de um lado, estimulam a necessária elaboração de um pensamento sobre Deus e sobre a humanidade enraizado nos ditos evangélicos e na milenar história do testemunho cristão; e, de outro lado, evidenciam algumas experiências históricas de "diferença" vivida: a relação entre clérigos e leigos, o significado da vida religiosa, a complementaridade entre celibato pelo reino e matrimônio cristão.

Não falta um atento exame das "figuras" que o anúncio cristão assumiu nesta época do pós-moderno: nova evangelização, inculturação, testemunho são examinados para fazer surgir deles, para além das diversas terminologias e das relativas abordagens, a convergência em torno do próprio Evangelho e a figura de Jesus Cristo. Aí, e não em outro lugar, de fato, continua-se pondo em jogo a seriedade da presença cristã na sociedade de todos os tempos e épocas, como Armando Matteo observa astutamente no posfácio do livro: "A eficácia do anúncio daquela vida boa que brota do Evangelho de Jesus dependerá cada vez mais da capacidade do pensamento e do testemunho cristãos de assumirem paciente, respeitosa e inteligentemente aquilo que hoje podemos e devemos nomear como o esforço pós-moderno de crer".

E talvez seja justamente essa a difícil herança deixada pelo Concílio.