A qualidade de vida dos padres estadunidenses. Artigo de Marcello Neri

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25 Outubro 2022

 "Para superar essa condição factual, sugere-se fortalecer a relação pessoal entre os padres e o bispo, aumentar a comunicação e torná-la transparente, e fazer com que os bispos devam explicar abertamente suas escolhas e condutas".

O comentário é do teólogo e padre italiano Marcello Neri, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, publicado por Settimana News, 24-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Nos últimos dias, foram apresentados os dados do levantamento estatístico "Bem-estar, confiança e procedimentos em tempos de crise" sobre os padres estadunidenses - realizada pelo The Catholic Project da Universidade Católica estadunidense.

Se o bem-estar médio dos padres é superior ao da população do país, é preciso registrar que 45% dos participantes da pesquisa declaram ter sofrido de um ou mais sintomas de burnout. A porcentagem é maior entre os padres diocesanos (50%) do que entre os pertencentes a uma ordem religiosa (33%).

A idade também é um fator relevante nesse sentido: 60% dos padres diocesanos com menos de 45 anos passaram por fases de esgotamento, enquanto entre os religiosos o percentual é de cerca de 40%.

As causas apontadas são o aumento da secularização da sociedade estadunidense, a insegurança em ter que assumir tarefas administrativas ao lado da pastoral, a diminuição da participação dos fiéis na vida paroquial. Desta forma confirmando tendências e motivos já destacados em estudos anteriores.

Um aspecto que afeta particularmente a qualidade de vida dos padres estadunidenses é a confiança nos bispos ou em seus superiores. Se em 2001 (o ano em que estourou pela primeira vez o escândalo dos abusos na Igreja Católica nos Estados Unidos) os padres que declararam ter muita confiança em seus bispos eram 63%, em vinte anos isso caiu para 49%.

A confiança dos padres no corpo episcopal estadunidense como um todo é dramaticamente baixa: com apenas 24% dos padres declarando que confiam nos bispos estadunidenses em geral.

Também no que diz respeito à confiança nos superiores, os padres religiosos têm uma taxa muito superior à dos diocesanos: 67% contra 49%. Para os padres diocesanos, em sua relação de confiança com seus bispos, um fator importante é a dimensão da diocese: quanto menor, maior a taxa de confiança.

Em caso de necessidade ou dificuldade dos padres estadunidenses, recorrer aos seus bispos fica muito atrás de outras figuras de referência, como amigos, familiares e paroquianos (de quem recebem o apoio mais importante).

Sobre essa questão, a pesquisa registra uma espécie de esquizofrenia entre a imaginação dos bispos e a experiência dos padres: de fato, no que diz respeito à disponibilidade do bispo de apoiar devidamente um padre em dificuldade, 92% dos bispos responderam positivamente, enquanto entre os padres se registra apenas 36%. Os dois mundos e as duas experiências divergem em quase 60%.

Os procedimentos implementados para combater os abusos sexuais na Igreja estadunidense encontram certo consenso entre os padres: 67% os reconhecem como válidos para proteger os mais vulneráveis e 66% como adequados para recuperar a confiança da opinião pública e dos fiéis. Mas 40% dos entrevistados afirmaram que são demasiado duros.

Uma porcentagem muito alta de padres estadunidenses (82%) teme ser falsamente acusada de abusos sexuais; isto, mesmo que as denúncias que se revelam infundadas e inverídicas sejam apenas 1,5% do total. No caso de falsas acusações, muitos padres temem ser abandonados à própria sorte por seus bispos, que hoje parecem ser mais administradores de uma empresa, tutores legais da diocese para preservar seu patrimônio financeiro, do que pais e irmãos na fé.

Para superar essa condição factual, sugere-se fortalecer a relação pessoal entre os padres e o bispo, aumentar a comunicação e torná-la transparente, e fazer com que os bispos devam explicar abertamente suas escolhas e condutas.

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