O silêncio engravida o grito resiliente

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20 Junho 2022

 

"O que aconteceu? A Amazônia permanece estrategicamente abandonada, com porteira legal escancarada e publicizada por autoridades governamentais que naturalizam a invasão dos grupos ilegais, os assassinatos de indígenas, agricultores familiares, missionários, indigenistas. Pregam o desmatamento como expressão do progresso e tentam entregar a região a experiências internacionais de bilionários. É atacada, debate-se asfixiada pela fumaça, o fogo e o mercúrio… sinalizando ao mundo a expansão da morte além fronteira. Morremos todos", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Processos Socioculturais da Amazônia, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

 

Eis o artigo.

 

Estamos hoje entristecidos/as porque mais uma vez tentam matar a Amazônia civilizando-a na barbárie de um Vale do Javari.

 

A palavra abandono tem sido repetida nas últimas semanas para designar a condição da Amazônia.

 

Remete ao que se encontra sem amparo, sem cuidados, sem proteção ou ajuda. Feita verbo, a conjugação está entranhada na vida da maioria das populações amazônicas, das árvores, das águas, das terras, das aves e dos animais.

 

Trata-se do abandono estratégico confeccionado pelo Estado brasileiro como plano de exploração da região sob a repetida justificativa da necessidade de “civilizar, integrar e desenvolver” a Amazônia.

 

Na tradução mais direta, a ideia de civilização, integração e desenvolvimento tem sido aplicada como armas de destruição desse pedaço do planeta e do próprio planeta.

 

Bruno e Dom Phillips ao se conectarem com a região, decidiram conhece-la de perto, escutar a Amazônia e ser ponte no ecoar das vozes a despeito de todos os riscos. Assim fizeram outros tantos, Ajuricaba, Chico Mendes, Dorothy Stang, Maria das Dores, Dora, Irmã Helena Walcott…uma lista tão grande quanto a porção de sangue derramada por muitas dessas pessoas, vítimas de emboscadas.

 

O que aconteceu? A Amazônia permanece estrategicamente abandonada, com porteira legal escancarada e publicizada por autoridades governamentais que naturalizam a invasão dos grupos ilegais, os assassinatos de indígenas, agricultores familiares, missionários, indigenistas.

 

Pregam o desmatamento como expressão do progresso e tentam entregar a região a experiências internacionais de bilionários.

 

É atacada, debate-se asfixiada pela fumaça, o fogo e o mercúrio… sinalizando ao mundo a expansão da morte além fronteira. Morremos todos.

 

Uma Amazônia pluriversa segue há 522 anos entre o luto e a luta. Engera a resiliência desse existir e enfrentar historicamente todas as formas de ataques. Sim, chora profundamente diante das mortes dos humanos e não-humanos. Hoje choramos. Faz dos seus rios, igarapés e lagos lugares de cura, de banhos, de pesca e de contemplação. Oferece generosidade diversa. Pede respeito e compreensão.

 

O silêncio enlutado explode em resistência grávida de lutas multiplicadas por jovens, mulheres e homens nas ruas e praças daqui e do mundo.

 

Estamos hoje entristecidos/as porque mais uma vez tentam matar a Amazônia civilizando-a na barbárie de um Vale do Javari.

 

A dor da tristeza e da indignação nos calam enquanto, como disse o geógrafo José Aldemir de Oliveira, o canto e a dança amazônicos se espalham e criam jardins em nossas almas.

 

São o nosso alimento nesse cipó da coragem para realizar o próximo ato contra o abandono estratégico, o autoritarismo governamental-empresarial, as omissões e a cumplicidade com matadores, violadores.

 

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